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Literatura de Cordel para crianças é tema da Flipinha

Juliana Carvalho

Professora e redatora

Continuando a série sobre a Flipinha, iniciada na semana passada com o artigo sobre a conversa com Ruth Rocha, vamos falar de um tema muito interessante e de como apresentá-lo para crianças: a literatura de cordel.

A literatura de cordel recebeu esse nome pela forma como são vendidos os folhetos, pendurados em cordões nas praças, mercados, feiras e bancas de jornal, tanto em cidades do interior como nos subúrbios das metrópoles. Essa denominação foi criada por intelectuais e assim aparece em livros e dicionários, mas a população se refere à literatura de cordel apenas como folheto.

A literatura popular em versos não existe apenas no Brasil, mas também na Espanha, na Itália, no México e em Portugal. Na Espanha é chamada de pliego de cordel e pliegos sueltos (folhas soltas).

Essas publicações populares escritas em versos têm origem na Europa. No século XVIII, surgiu entre os portugueses a expressão literatura de cego, por causa da lei promulgada por Dom João V, em 1789, permitindo à Irmandade dos Homens Cegos de Lisboa negociar esse tipo de publicação.

De acordo com nosso maior folclorista, Luís da Câmara Cascudo, no livro Vaqueiros e cantadores, os primeiros folhetos foram introduzidos no Brasil por Silvino Pirauá de Lima, vindo depois a dupla Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. No início da publicação da literatura de cordel por aqui, muitos autores de folhetos eram também repentistas e improvisavam versos enquanto viajavam pelo interior do Brasil – isso gera confusão até hoje entre cordel e repente. O método de divulgação mudou quando foram criadas as imprensas particulares domésticas e as barracas de poetas. O autor do folheto não precisava mais viajar, pois suas obras eram vendidas por folheteiros ou revendedores empregados por ele.

Não há limite na escolha dos temas para a criação de um folheto. Pode narrar os feitos de Lampião, as presepadas de heróis como João Grilo ou Canção de Fogo, uma história de amor, acontecimentos importantes de interesse público.

Segundo Ariano Suassuna, a literatura popular em versos do Nordeste brasileiro pode ser classificada nos seguintes ciclos: o heroico; o maravilhoso; o religioso ou moral; o satírico; e o histórico. Entretanto, o cordel não existe apenas no Nordeste. Os desafios com rimas existem em todo o Brasil, como na Região Sul, no interior de São Paulo ou na Região Centro-Oeste.

Hoje, os folhetos ainda podem ser encontrados em mercados públicos, como na Feira de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em sebos ou em bibliotecas.

O escritor Fábio Sombra e o ilustrador Jô Oliveira estiveram na Flipinha falando sobre a modernização pela qual o cordel tem passado, especialmente no que diz respeito à sua adaptação para crianças. Fábio Sombra é carioca, escritor, violeiro e ilustra seus próprios livros. Como autor de livros infanto-juvenis, teve seu primeiro romance, A lenda do violeiro invejoso, publicado pela Editora Rocco, e recebeu o selo de Altamente Recomendável para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2007, lançou seu primeiro CD, Manheceu, com composições de sua autoria em ritmos tradicionais do Sudeste brasileiro, como catiras, cirandas, batuques, pagodes e modas de viola. Em 2008, publicou A peleja do violeiro Magrilim com a formosa princesa Jezebel, um romance em versos de cordel repleto de desafios.

Jô Oliveira é pernambucano, jornalista, ilustrador; foi professor de Artes do Instituto de Artes da UnB e técnico em Comunicação Visual. É famoso por ilustrar livros didáticos e infanto-juvenis, além de criar ilustrações para centenas de selos dos Correios e produzir histórias em quadrinhos, no Brasil e no exterior.

Na conversa mediada por Gisela Ferreira, os autores comentaram que a linguagem poética é comum em várias culturas e que o jovem ainda a utiliza nos dias de hoje. “Era difícil um jovem acostumado com publicações bem diagramadas se interessar pelo cordel. Agora, os livros vêm numa linguagem específica para as crianças, com temáticas do universo delas, além das ilustrações”, afirmou Fábio Sombra, que lançará seu 10º livro ainda este ano. As histórias de cordel criadas pelo escritor não são impressas em papel jornal nem ilustradas com xilogravuras, como quer a tradição. “A literatura de cordel estimula a leitura, apresenta às crianças novas possibilidades de narrativa, estimula a percepção de ritmo, amplia o vocabulário e estimula a expressão oral, além de valorizar a cultura popular brasileira, acrescentou Fábio.

O ilustrador Jô Oliveira lembrou que só recentemente os cordéis começaram a ser trabalhados em sala de aula e que o Governo Federal, no ano passado, comprou vários títulos adotados pelas escolas. “Só neste ano já ilustrei cinco livros de cordel, entre eles versões de clássicos da literatura mundial, como Dom Quixote e Macbeth, para o cordelista J. Borges”.

Escritor e ilustrador estão, atualmente, trabalhando em um projeto comum: selecionar e escrever na métrica do cordel – composta por sextilhas – e ilustrar os grandes mitos brasileiros, entre os quais o Saci-Pererê.

Para ensinar às crianças o que é o cordel, Fábio Sombra pediu a ajuda de duas crianças da plateia. Uma representava um poste e a outra, uma árvore. A cada uma delas, o autor entregou uma das pontas de uma corda. Com a mesma esticada, pendurou vários folhetos. “Viram? Por isso o nome ‘literatura de cordel’”.

Aos professores, Fábio e Jô sugeriram que ouçam as histórias contadas por seus alunos e criem oficinas para transformá-las em cordel. “A literatura costuma se apropriar das histórias do povo e transformá-las em contos. Andersen e os irmãos Grimm coletaram contos que circulavam na forma oral”. “O cordel tem uma métrica muito rigorosa”, disse Fábio. “Ele é composto por estrofes de seis versos, nas quais o segundo, o quarto e o sexto verso devem rimar. Transcrevendo a história para o cordel, nós percebemos quando cabe a rima ou não.” Jô Oliveira disse inspirar-se na xilogravura para compor algumas de suas ilustrações.

A xilogravura é uma técnica de gravura na qual se entalha na madeira, com a ajuda de uma lâmina, a figura ou forma que se pretende reproduzir em papel ou outro suporte adequado. É um processo inversamente parecido com um carimbo, já que o papel é prensado com as mãos sobre a matriz. A xilogravura consagrou-se como ilustração dos folhetos e ficou associada às histórias do Nordeste brasileiro, local de maior circulação da literatura de cordel. Assim como a xilogravura inspira Jô Oliveira, poderá também inspirar as crianças a produzir desenhos semelhantes para ilustrar os versos produzidos em sala de aula.

No fim, que tal propor um desafio de repente aos alunos? Essa atividade certamente desenvolverá a criatividade e o vocabulário deles, além de noções de ritmo, versificação e rimas. A conversa de Jô Oliveira e Fábio Sombra na Flipinha terminou em música. Que tal terminar sua aula assim também?

Leia mais: Ruth Rocha fala a pais, crianças e professores na Flipinha 2009

Publicado em 14 de julho de 2009.