Sua Voz

Trabalhando com quadrinhos em sala de aula

Juliana Carvalho

Professora e redatora

Eu, que fui criança na década de 1980, não me lembro de ter lido (com permissão do professor) nenhuma revista em quadrinhos em sala de aula. Infelizmente, não tive nenhum professor pioneiro que percebesse as infinitas possibilidades desse material para o trabalho com qualquer disciplina. Ao contrário, se qualquer aluno fosse visto com uma revistinha, ela era “sequestrada” e se exigia a presença dos pais na escola para a devolução. Todos os dias, depois de ir à escola e fazer as lições da cartilha Casinha Feliz, era ao chegar a casa que eu realmente aprendia a ler com os gibis da Turma da Mônica, comprados aos montes por meu pai. Os gibis não foram apenas coadjuvantes na minha formação leitora; foram fundamentais no processo de aquisição da língua e de capital cultural.

Se na década de 80 tive o incentivo dos meus pais para ler as revistinhas, nas décadas anteriores isso não ocorria. As histórias em quadrinhos eram culpadas pelo desestímulo à leitura e à criatividade, já que mostravam os cenários desenhados e deixavam pouco para a imaginação do leitor, o que tornaria as crianças preguiçosas. Além disso, foi publicado nos EUA, no início dos anos cinquenta, o livro Sedução dos Inocentes, de Fredrick Werthan, que apontava os gibis como responsáveis pela delinquência juvenil.

Hoje, os tempos são outros. Os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI), e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) já os contemplam e destacam sua importância ao sugerir o trabalho com diversas mídias em sala de aula. Em 2007, dez anos depois da criação do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), as histórias em quadrinhos (HQs) finalmente foram incluídas nos acervos distribuídos a bibliotecas escolares. Foram 14 livros naquela edição e outros 16 em 2008. Em 2009, as HQs já representam 4,2% dos 540 títulos listados pelo programa.

Entre os motivos para utilizar os quadrinhos na escola, estão a atração dos estudantes por esse tipo de leitura, a conjunção de palavras e imagens, que representa uma forma mais eficiente de ensino, o alto nível de informação deles, o enriquecimento da comunicação pelas histórias em quadrinhos, o auxílio no desenvolvimento do hábito de leitura e a ampliação do vocabulário. O que se vê cada vez mais é a formalização  desse gênero textual na sala de aula, mas muitos professores ainda têm dúvidas sobre como utilizá-lo. Que aspectos devem ser explorados? Os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer disciplina? HQs, tirinhas, charges e cartuns devem ser trabalhados da mesma forma?
Vou tentar responder a algumas dessas dúvidas e dar sugestões para atividades relacionadas com qualquer disciplina, em especial com o ensino de língua portuguesa, do qual posso falar com mais propriedade. Para facilitar nosso entendimento, utilizamos tirinhas utilizadas do artista Marcelo Vital, disponíveis no site www.fulaninho.com.br.

Os quadrinhos

As histórias em quadrinhos, charges, cartuns e tirinhas são textos multimodais, ou seja, trazem, além da linguagem alfabética, imagens, disposição gráfica na página, cores, figuras geométricas e outros elementos que se integram na aprendizagem. Antes de desenvolver atividades de qualquer disciplina – um trabalho com operações matemáticas, por exemplo –, é preciso explorar todas essas formas de representação para ampliar a capacidade leitora e garantir que a criança ou jovem entenda ao máximo os recursos oferecidos, gerando sentido. Observe a imagem:


A importāncia da imagem

Neste quadrinho, a imagem tem um peso grande, pois, se retirássemos as falas, grande parte dele seria compreendida. A situação está visível no contraste entre a expressão facial dos pais (surpresa e tristeza) e a do filho (feliz). É preciso explorar todos os elementos presentes no cenário, como cores e disposição dos móveis. A sala em tons pastéis e a presença de poucos móveis passam uma ideia de organização, e isso reforça a sujeira feita pela criança com tinta cor-de-rosa. Está a cargo do texto escrito mostrar o equívoco do filho, ao pensar que a mãe estava chorando de alegria.

Outro fator importante é o contexto. Principalmente nas histórias produzidas para adolescentes, como as de super-heróis, estão presentes inúmeras referências atuais e históricas à cultura pop, guerras, personagens políticos e sociais. É fundamental mostrar o contexto em que a HQ foi produzida, no caso de quadrinhos antigos, ou acrescentar mais informações caso haja referência a algum fato histórico.

Charges, tirinhas, cartuns e histórias em quadrinhos

O que são e como se caracteriza cada um deles? As definições a seguir foram retiradas da Wikipédia:

Charge é um estilo de ilustração que tem por finalidade satirizar, por meio de uma caricatura, algum acontecimento atual com uma ou mais personagens envolvidas. A palavra é de origem francesa e significa carga, ou seja, exagera traços do caráter de alguém ou de algo para torná-lo burlesco.

Um cartoon, cartune ou cartum é um desenho humorístico acompanhado ou não de legenda, de caráter extremamente crítico retratando de forma bastante sintetizada algo que envolve o dia-a-dia de uma sociedade.

A tirinha, também conhecida como tira diária, é uma sequência de imagens. O termo é atualmente mais usado para definir as tiras curtas publicadas em jornais, mas historicamente o termo foi designado para definir qualquer espécie de tira, não havendo limite máximo de quadros – tendo, claro, o mínimo de dois.

A revista em quadrinhos, como é chamada no Brasil, ou comic book como é predominantemente conhecida nos Estados Unidos, é o formato comumente usado para a publicação de histórias do gênero, desde séries românticas aos populares super-heróis.

Cores

As cores são elementos importantes na comunicação visual e, portanto, nas HQs. Nos quadrinhos, grande parte das informações é transmitida pelo uso de cores. A cor é um elemento que compõe a linguagem dos quadrinhos; mesmo nas histórias em preto-e-branco, não se trata apenas de um recurso estilístico. Os desenhistas americanos perceberam isso passaram a não restringir o uso de cores apenas ao cenário. Elas assumiram a capacidade de simbolizar determinados elementos, principalmente nos quadrinhos norte-americanos de massa, passando a simbolizar personagens na mente do leitor. O Incrível Hulk é verde. O Lanterna Verde também. O Capitão América tem o uniforme com as cores da bandeira norte-americana. Os Smurfs são conhecidos por serem todos azuis. Maurício de Souza também utilizou as cores para criar as identidades de seus personagens. Uma menina forte como a Mônica só poderia usar um vestido vermelho; que menino travesso não desejaria dar um nó nas orelhas de um objeto tão particular quanto um coelho de pelúcia azul?

O conhecimento das sensações e reações provocadas pelas cores é um importante instrumento de comunicação que tem sido usado nas HQs. Sabemos que o rosa, por exemplo, é uma cor feminina e juvenil, assim como o violeta. O vermelho evoca força, energia e está associado à vida, por ser a cor do sangue. Também se usa o vermelho para caracterizar situações de perigo, assim como nos sinais de trânsito. Quadrinhos com cores frias seguidos de quadrinhos com cores quentes podem significar a passagem da tristeza para a alegria ou da doença para a saúde, por exemplo. As estações do ano e os fenômenos climáticos também são representados por cores. O fundo preto é muito usado para representar a imaginação das crianças, um espaço onde tudo pode acontecer:


Os quatro quadrinhos iniciais retratam uma situação que só acontece na cabeça da criança. No último quadrinho, voltam a luz, as cores e, com elas, a realidade.

Balões

Os balões são recursos gráficos utilizados para tornar sons e falas visíveis na literatura. O balão seria o recurso gráfico representativo da fala ou do pensamento, que procura indicar um pensamento, um monólogo ou um diálogo. O quadrinho necessita do balão para a visualização das palavras ditas pelas personagens. Diferentemente da literatura, mesmo a ilustrada, os quadrinhos não precisam indicar ao leitor a qual personagem corresponde aquela fala ou pensamento, pois os balões indicam por meio do apêndice.

O formato dos balões pode variar de acordo com as intenções do autor. O balão de fala tem um contorno forte, nítido; o balão de pensamento tem outra forma. Ele é irregular, ondulado ou quebrado e o apêndice tem o formato de pequenos círculos. Pensar é algo bem diferente de falar em voz alta, ainda que seja um monólogo, por isso existe essa distinção entre os balões. O contorno do balão pode ser tremido, indicando medo ou emoção forte, pode ser recortado, o que indica explosão verbal ou raiva, ou mesmo pontiagudo, fazendo o leitor perceber que o som está sendo emitido por uma máquina. Também podem ser usados alguns contornos metafóricos, como estalactites (que indicam frieza na resposta) ou pequenas flores (que indicam o oposto). Outra característica dos balões é ajudar a mostrar ao leitor a ordem de leitura e a passagem do tempo. Uma exigência fundamental é que sejam lidos numa sequência determinada, para que se saiba quem fala primeiro. Uma boa atitude é incentivar seus alunos a descobrir vários tipos de balões e a criar os seus próprios.

Lapso de tempo

O lapso de tempo é o espaço que liga o quadro anterior ao posterior. Deve ser completado pela imaginação do leitor, fazendo com que a história tenha sequência. Para entender o quadrinho, é preciso entender o que aconteceu antes e o que acontecerá depois. Isoladamente, um quadrinho que faz parte de uma história é difícil de entender, mas duas imagens constituem uma narrativa, desde que sejam colocadas em sucessão ou que o leitor as entenda assim. Nas histórias em quadrinhos, o leitor constrói e confirma a narrativa que faz sentido na história. O lapso de tempo aceitável está no meio de duas imagens que representam continuidade. As transições são possíveis porque o leitor está acostumado a ler o corpo do texto como narrativa. O leitor procura, então, juntar os quadros para formar linearidade. Esta busca para “fechar” a narrativa, ou para “completá-la” estimula a criatividade e faz das HQs importantes instrumentos para a formação de leitores.

Metáforas Visuais

As metáforas visuais são usadas pelos autores para transmitir situações da história por meio de imagens, sem utilização do texto verbal. Quando o personagem está nervoso, sai fumaça da cabeça dele. Quando alguém está correndo muito rápido, aparecem vários traços paralelos e uma nuvenzinha para demonstrar seu deslocamento. Cédulas e moedas indicam que a pessoa está pensando em dinheiro, assim como corações indicam amor. Incentive seus alunos a criar metáforas visuais. Por exemplo, como seria a metáfora visual para alguém triste?

Sugestão de atividades

Língua Portuguesa

Observe a sequência de quadrinhos.

Uma atividade muito comum, mas nem por isso menos valiosa, é apagar os textos dos balões e pedir que as crianças escrevam seus próprios diálogos, fazendo a interpretação das imagens. Tendo como base esse quadrinho, também podem ser trabalhados temas como linguagem informal, compreensão do cenário, coerência das falas com as imagens, convívio entre crianças ou adolescentes.

Um fator importante nesse quadrinho é o contexto. Quem conhece a praia de Copacabana imediatamente vai associá-la à tirinha, pelo desenho do calçadão. Quem costuma frequentar essa praia compreenderá mais facilmente os apuros vividos pelo garoto que vai embora enfaixado, pois sabe que essa praia costuma estar cheia nos fins de semana e feriados. Crianças que moram em ambientes onde não haja praia precisam receber essas informações.

Essa é uma tirinha que apresenta muitos lapsos de tempo. Que situação deve ter ocorrido entre o quarto e o quinto quadrinhos?

Educação Artística

Os alunos podem analisar a linguagem dos quadrinhos e criar seus próprios personagens, balões, quadros e onomatopeias.

Matemática

Os alunos podem ser levados a desenhar histórias explicando operações matemáticas, ou que envolvam tramas cuja solução seja desvendada pela solução de um problema matemático.

História e Geografia

Os quadrinhos de super-heróis trazem muitas referências a fatos históricos, principalmente guerras. Ligas de super-heróis são geralmente compostas por heróis de várias nacionalidades. Algumas histórias da Turma da Mônica fazem referência a fatos históricos do Brasil. Cabe ao professor pesquisar e guardar este material para utilizar quando estiver lecionando sobre o assunto abordado.

Ciências

Os gibis dos X-Men, por exemplo, tornaram popular o conceito de mutação e podem ser usados para iniciar uma aula sobre Darwin. Por outro lado, muitas histórias em quadrinhos falam sobre descobertas científicas. Pesquise os quadrinhos do Quarteto Fantástico, Watchman, Homem-aranha, por exemplo.

Publicado em 19 de maio de 2009