Sua Voz

Conselho de Classe

Giovânia Costa

Professora de Filosofia

A primeira vez que participei de um Conselho de Classe (COC), ainda no estágio docente, foi no Colégio Pedro II, Instituição Federal que sabemos todos, apesar dos problemas enfrentados, está anos luz à frente da situação das escolas da Rede Estadual - basta pensar no orçamento milionário que a intuição federal administra. Bem, mas lá estava eu sentadinha entre os professores e lembrando dos dias de Conselho da minha vida escolar que na verdade eram por mim percebidos como “feriado”, já que não tinha aula. Dei-me conta de que nunca tinha sequer imaginado um Conselho por dentro, e claro, na década de 1970 nem se falava de aluno participar da tal reunião.

Na sala encontravam-se dois representantes de cada turma e a reunião começava com eles. Falaram da pontualidade (ou falta dela) de alguns professores, do problema que a turma estava tendo com o professor “x”, sobre a dificuldade com a matéria tal, elogios a alguns professores que se destacavam e para minha surpresa, um elogio rasgado a um professor que utilizava bem o quadro negro preparando bons esquemas para que pudessem estudar. Até hoje, quando olho para o quadro ao final das minhas aulas me envergonho por estar longe disso e penso: “um dia vou conseguir organizar melhor as minhas anotações”.

É claro que quando não estavam fazendo um elogio, o constrangimento era quase palpável, mas talvez a prática daquela instituição na tentativa de construir um COC mais participativo minimizava a situação e a autodefesa dos professores criticados aguardava sua vez e deixava os meninos falarem. E o alto nível de organização dos alunos, se comparados com outras escolas, mostrava que o esquema de representação funcionava bem. Eles se preparavam com a sua base e faziam bem sua função.Depois dos representantes falarem saíam da sala e aí o “pau comia”. Podíamos então conhecer outras versões.

Só entendi porque os alunos saíam da sala para a continuação do Conselho ao longo do processo. Fiquei impressionada como todos tinham informações pessoais dos alunos e jogavam na mesa para justificar esse ou aquele comportamento. Minha inocência de aluna começava a desaparecer. Aquele sentimento de que era possível esconder algo dos mestres foi embora e não voltou. Era um tal de “fulana piorou porque brigou com o namorado”; “os pais se separaram, ele está em crise”; “está sobre tratamento médico para depressão”; “a irmã está grávida”. E por aí vai. Mas considero que as informações chegavam com suficiente respeito para que os problemas dos alunos pudessem ser melhor compreendidos. Nessa etapa, o Sr.responsável pela disciplina no recreio tinha notícias preciosas. A reunião se prolongava pela tarde afora e cada aluno era discutido individualmente. Muitos reclamavam da condução do COC, das decisões, enfim como em todo processo que prevê uma participação coletiva, alguns saíam insatisfeitos.

Céus, naquela época eu não sabia que tinha visto uma reunião no paraíso! Dadas as condições em que operam as escolas da Rede Estadual sabemos as dificuldades de se realizar um Conselho de forma adequada, e é isso que pretendo trazer para a nossa reflexão de hoje.

Dia do Conselho: sábado. Será que aconteceram mesmo aos sábados? Mais um dia de trabalho para o professor, mal remunerado e estressado que de boa vontade saiu de casa para acompanhar o COC num sábado! É difícil encontrar quem tenha concordado com isso. Se eu estiver errada, por favor, me corrijam. Alunos representantes presentes? Na minha escola não teve. E na sua? Se teve, eles foram realmente ouvidos ou estavam ali só para cumprir a formalidade? Que orientação os representantes vêm tendo para desempenhar melhor esse papel? Encontrei ao longo do ano muita gente que acha um absurdo a participação dos alunos no COC.

Da minha parte, penso que absurdo é que cada aluno não faça também uma avaliação de cada professor ao final de cada bimestre. Porque a organização política da escola não caminha no sentido de fazer Conselho de alunos paralelo ao Conselho de Classe? Não seria essa uma forma de começarmos a criar possibilidades de participação política dessa juventude? De ajudarmos a se revelarem lideranças? Será que é medo que coloca o corpo docente livre de avaliação por parte dos alunos? Medo do quê? Se não é medo, por que os professores não são avaliados?

Na sua escola, os Conselhos que já aconteceram esse ano podem realmente ser tratados como “órgão responsável pelo acompanhamento do processo pedagógico e pela avaliação do desempenho escolar das turmas?”.

Em primeiro lugar, para ser um órgão responsável pelo processo pedagógico há de se ter com clareza que processo é esse. Qual é o projeto da sua escola? O que o Conselho deveria avaliar? Ou será que foi somente um instrumento de medida sobre o desempenho dos alunos se limitando a verificação de frequência, de média suficiente ou insuficiente, comportamento geral da turma, destaques positivos e destaques negativos? Os alunos no COC da sua escola têm nome ou número?

Na teoria o Conselho de Classe deverá possibilitar a interrelação de profissionais e alunos, propiciar o debate sobre o processo de ensino e de aprendizagem, favorecer a integração e sequência dos conteúdos curriculares de cada série/classe e orientar o processo de gestão do ensino, tornando-se uma importante instância de reflexão da escola.

Desculpe-me a quem ofender possa, mas estamos muito distantes disso. Os motivos alheios à nossa competência e que acabam afetando o nosso trabalho são mais do que conhecidos, mas em toda reflexão é importante trazer à tona os reflexos da nossa atuação individual e de que forma ela se soma ao processo.

No Conselho final nos reuniremos para a última decisão: promover ou reter o aluno. É claro que a tarefa de avaliar é uma função do professor, mas pergunto: o Conselho de Classe não deveria ser uma análise do desempenho do aluno em conjunto pelos profissionais da escola? Então, talvez muitos deveriam se abrir mais a escutar os colegas e aproveitar para fazer no Conselho a sua autoavaliação, pois muitos alunos que não vão bem com um determinado professor ou mesmo com vários estão refletindo o desempenho desses professores.

Doa a quem doer, se a escola anda mal é responsabilidade também do corpo docente. Então vamos ver se quem já tomou outra atitude em relação a assumir outra postura diferente do “reclamão” e atua acreditando que o seu fazer faz diferença (tenho certeza que se você está lendo isso e é da turma do Portal da Educação Pública, está dentro dessa concepção), possa nessa reta final ter toda a paciência do mundo para deixar mais lentos os apressadinhos que querem sair logo da reunião e por isso n&atile;o querem discutir muito. Vamos lutar para conseguir dar o recado de quem batalhou sério o ano inteiro pelo crescimento dos seus alunos e coragem para defendê-los se preciso for, ainda que com alguma desavença. Harmonia pode ser a luta dos contrários e o equilíbrio na escola pode vir a nascer da sua postura.

Se prepare bem para o último COC. Ele pode ser decisivo na vida de muitos jovens e você pode fazer a diferença. E não estou aqui falando de promover sem merecer, não. Estou falando de considerar onde o aluno estava e aonde ele chegou. É claro que talvez tenha algum, que apesar do esforço, tenha esbarrado nas dificuldades acumuladas e dependerá de alguém saber ler que esse ano o “cara” merece passar. Pois se ele, esse ano que se esforçou não conseguir, ano que vem já começa perdido e perdemos mais um sabe-se lá pra quem...

Não vamos deixar que os rancores pelo baixo salário, pela falta de condições, pelo excesso de trabalho sejam fatores inconscientes e determinantes na avaliação.

Sem ressentimentos: é hora de olhar para os meninos e pensar no que você deu e o que eles receberam. E não estou falando somente da matéria, não!

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Publicado em 06/12/2005