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Aprendendo nas escolas do MST

Mara Lúcia Martins

As escolas do MST nasceram da necessidade dos filhos dos militantes - que se autodenominam sem-terrinhas - estarem resguardados quanto à alfabetização e educação, uma antiga reivindicação do Movimento. Mas para que essa educação não se perdesse do ideal da luta pela terra, ela foi associada à ideia de construir nessas crianças uma consciência revolucionária. A realidade escolar, vivida nas lonas pretas fincadas no chão de barro, está presente em associações de palavras como lápis e enxada e, principalmente, na noção de que a união sempre trará os sonhos desejados.

São cerca de 1.800 escolas - 1.100 são reconhecidas pelos conselhos estaduais de educação e cultura -, espalhadas pelos assentamentos ou acampamentos do MST, com crianças na faixa de 7 a 14 anos de idade. Até 2002, as escolas do MST abrigavam cerca de 160.000 alunos e empregavam 4.000 professores, além dos 250 educadores que trabalham nas chamadas Cirandas Infantis - educação de crianças até 6 anos ou na faixa da alfabetização.

As crianças que lá estudam são filhos de trabalhadores, agricultores, desempregados ou pessoas, muitas vezes, excluídas da sociedade. Os sem-terrinhas vivem dentro dos assentamentos e acampamentos, onde passam, às vezes, pelos confrontos com a polícia e com grupos que são contra o Movimento. O medo pode ser um sentimento constante diante dessa instabilidade de vida, mas as crianças conseguem ainda ser criativas: estudo, brincadeira e realidade muitas vezes estão misturados e é comum ver uma criança construindo seu próprio brinquedo, uma retroescavadeira, por exemplo, sem esquecer seu grito de guerra ("Sem-terrinha em ação, pra fazer a revolução!").

Projeto pedagógico

Para realizar um projeto pedagógico foi formado, em 1987, um setor de Educação, cuja cartilha o MST destaca alguns dos seus preceitos pedagógicos: (1) relacionar teoria e prática; (2) combinar métodos de ensino e de capacitação; (3) educar para o trabalho; (4) vincular educação e cultura; (5) incentivar a auto-organização dos estudantes; (6) gerir democraticamente as escolas; (7) criar coletivos pedagógicos; (8) incentivar atividades de pesquisa (9) associar interesses coletivos e individuais, entre outros.

O MST considera que o método pedagógico ideal é de Paulo Freire, que vai muito além do conteúdo normal das matérias, e envolve um vínculo com a cultura e as bandeiras levantadas pelo Movimento. Em cada escola do MST, seja em assentamento ou acampamento, sua bandeira tem que estar presente ao lado da bandeira nacional. É para, mais uma vez, lembrar que os tempos são de luta.

Como são as aulas

Um dos coordenadores de educação do MST, Dirceu Queiroz dos Santos explica que, na matemática, por exemplo, os alunos utilizam o próprio processo de produção para compreender a disciplina. "Em um dos acampamentos do Estado de São Paulo, os estudantes mediram a área onde um parque ia ser construído e calcularam quanto material seria utilizado. Usaram a teoria da disciplina na prática", diz Santos, relacionando a luta do Movimento com as suas próprias experiências pessoais.

As dinâmicas aulas também trazem, à vezes, situações diferentes das encontradas nas salas de aula convencionais. Uma repórter da revista Veja (Monica Weinberg) assistiu uma aula de um assentamento do Rio Grande do Sul e verificou que sempre são citados assuntos ligados ao objetivo do movimento, com vídeos e onde é mostrado o modelo que o MST gostaria de ver esparramado no território nacional. "A pequena propriedade é oprimida pelos grandes latifúndios", diz um dos filmes. E a mesma fita é usada para ensinar aos alunos que os produtos transgênicos "contêm veneno". No fim da exibição do filme, o professor pergunta quem da classe come margarina. A maioria das crianças levanta o braço. Tem início a explicação: "Margarina é à base de soja, que pode ser transgênica e, por isso, ter ve-ne-no". Ao final da aula os alunos fazem mais um grito de guerra: "Traga a bandeira de luta / Deixe a bandeira passar / Essa é a nossa conduta / Deixe fluir para mudar".

Em que princípios se baseia a educação do MST

Dentro dos princípios filosóficos do MST a educação - chamada de Educação de Classe - é um dos itens principais (junto com transformação social, cooperação, valorização e formação do indivíduo e formação da sociedade por meio de valores humanistas e socialistas). No boletim do MST está escrito que: "A ligação entre processos educativos, políticos, econômicos e culturais para que os estudantes sem terra tornem-se militantes de fato é outra preocupação pedagógica do MST. A escola não pode negar sua relação com a política. Deve, portanto, alimentar a indignação diante de situações de injustiça e impunidade que estão sendo, atualmente, difundidas pelos meios de comunicação e pela sociedade". Sempre será enfatizado na aprendizagem dos sem-terrinha o estudo da história e o da economia política e, também, a participação dos trabalhadores sem terra em lutas sociais de outras categorias.

O ensino, no entanto, às vezes, não é um ensino reconhecido pelo Ministério da Educação. Os professores que vêm de fora do movimento encontram muita resistência por parte dos líderes: nos acampamentos só é permitida a presença de professores do movimento e nos assentamentos já pode ser incluído o "professor de fora". O que demonstra claramente que onde há ainda o perigo os estranhos são afastados. A formação do professor varia de acordo com a necessidade e pode variar desde aqueles que não tem nenhuma formação e nem completou o ensino fundamental até o que é professor reconhecido pelo magistério completo.

O índice de alunos fora das salas de aula ainda é muito grande - calcula-se que 20.000 crianças não estão matriculadas em nenhuma escola. Estes números são uma grande preocupação do Movimento: "Quando não há professores cedidos pelo Estado os mais experientes são acionados para repassarem o saber, assim como é orientado que o professor formado deva formar outras pessoas para difundir com mais amplidão a educação", explica Dirceu Santos.

Leia também: O lugar da escola na pedagogia do MST

Visite: http://www.mst.org.br/setores/educacao/educar3.html