Sua Voz

Milton Santos, o pensador do Brasil

Maria de Lourdes Trindade

Professora de Geografia e conteudista de extensão do Cecierj

Milton Santos...

Toda vez que em sala de aula se diz o nome dele, os alunos comentam:

— Grande jogador de futebol!

E aí é preciso fazer a correção:

— Eu estou falando de Milton Santos, não de Nilton Santos...       

Pois é, cada um com o seu talento, embora em caminhos diferentes. Para começar, Milton Santos nunca participou de peladas e jamais entrou num estádio de futebol, uma de suas frustrações confessas. Mas é importante que o Brasil lembre dele e de suas lições com o mesmo carinho que lembra das brilhantes jogadas de Nilton Santos.

Neto de escravos, Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 1926. Os pais, professores primários, o alfabetizaram em casa. Aos 8 anos, já havia concluído o equivalente ao curso primário. Dos 8 aos 10 anos, aprendeu francês e boas maneiras, sempre em casa, enquanto aguardava o tempo para ingressar no ginasial.

Através dos livros de Josué de Castro, teve o primeiro contato com a Geografia Humana. Para custear os seus estudos lecionava Geografia para o equivalente ao atual Ensino Médio. Depois, incentivado por um tio advogado, cursou Direito. Formou-se, mas não chegou a exercer a profissão.

Fez doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França.

Iniciou, então, uma carreira repleta de desafios, não raro impostos pela sua condição de negro. Rodou o mundo, estudando e lecionando, numa trajetória impressionante. Aprendeu e ensinou na Europa, Américas e África.

Publicou 40 livros e 300 artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.

Foi professor emérito da Universidade de São Paulo e até o fim de sua vida e trabalhou como consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização dos Estados Americanos (OEA).

Milton Santos faleceu em 24 de junho de 2001, vítima de câncer.

Para divulgar a sua obra, o Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SINPRO-RJ) apoiou a realização do documentário "Milton Santos, o pensador do Brasil".

O vídeo

Produzido pela Caliban (calibanproducoes@caliban.com.br), este documentário feito pelo cineasta Silvio Tendler aborda as principais ideias do autor sobre a globalização, a mídia e a formação de opinião, a tecnologia, a participação do intelectual na vida política, as marcas da resistência, as perspectivas dos jovens de hoje, entre outros temas.

Abaixo, alguns trechos das entrevistas com Milton Santos:

É o sonho que obriga o homem a pensar.
Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual do capitalismo globalizado. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças.
Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo, a concorrência se estabelece como regra. Agora, a competitividade toma o lugar da competição. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobretudo porque chega eliminando toda forma de compaixão.
Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. É certo que no Brasil tal oposição é menos sentida, porque em nosso país jamais houve a figura do cidadão. As classes chamadas superiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser cidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos.
Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual.