Os gregos e os deuses

A importância da tradição oral para a civilização grega

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Devemos historicizar a disseminação da tradição oral entre os gregos. Essa questão é o cerne da reflexão que vamos propor na atividade em torno da Odisseia, de Homero.

"Historicizar" a tradição oral não significa localizar o aparecimento da escrita como um marco mais evoluído do ponto de vista linear. É bom lembrar, também, que o processo histórico não produz apenas mudanças, ele é constituído também de permanências.

Para compreendermos o lugar da tradição oral na cultura grega é preciso retomar o momento da entrada dos Dórios na Península Balcânica. Este povo indo-europeu foi responsável pela destruição da civilização Micênica e pela ocupação de Esparta na região do Peloponeso. Nesse contexto, a escrita caiu em desuso e houve uma significativa redução da vida urbana e do comércio. Muitos Aqueus fugiram para as ilhas do Mar Egeu e para as costas da Ásia Menor, onde fundaram várias cidades. Após as invasões dóricas, o conhecimento sobre a civilização Micênica passou a ser transmitido apenas por tradição oral pelos Aedos (cantores e poetas inspirados pela musa, que os impelia a cantar a glória dos homens). Estes percorriam a Grécia narrando fatos e histórias da época Micênica. Os aedos recorriam às repetições, que facilitavam o processo de memorização. Destituída do suporte da escrita, a memorização estava reduzida à simples transmissão oral.

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É preciso atenuar as conquistas da escrita nas províncias do mundo grego. Devido à relativa raridade do objeto livro e ao pequeno número de letrados, os livros eram mais escutados do que lidos. Os filósofos, os médicos, os historiadores, todos se dedicavam a recitações públicas. O livro era escrito no interior de um amplo sistema cultural, cuja transmissão continuava a se fazer de forma oral e auditiva. A cultura tradicional nunca precisara da escrita para se fazer ou se dizer, pois se encontrava na memória comum a toda comunidade, seus princípios de organização e suas modalidades de aprendizagem.

Provavelmente, certas sociedades, mais do que outras, preocupam-se em colocar em ação meios não escritos de fixar sua tradição, seja confiando-a parcialmente aos profissionais da memória - virtuoses dos procedimentos mnemotécnicos - seja assegurando, por meio dos rituais, uma repetição regular, senão imutável, das palavras, das narrativas ou dos cantos litúrgicos.

Essa necessidade de sempre redizer e repetir é que confere à oralidade o seu modo próprio de criação.

A produção oral, por sua vez, se não for recebida imediatamente, captada por ouvidos atentos e salva do silêncio que a espreita desde o primeiro momento, acaba condenada ao esquecimento, destinada ao desaparecimento imediato, como se nunca tivesse sido pronunciada. Para poder penetrar e tomar seu lugar na tradição oral, uma narrativa, uma história ou qualquer obra falada deve ser entendida, isto é, deve ser aceita pela comunidade.