Classificação Zoológica e Taxonômica - Parte I

Introdução

A sistemática é a ciência da biodiversidade, ou seja, é a área da Biologia que agrupa todo o conhecimento sobre os organismos vivos (sua diversidade e todas as relações entre eles). Uma das atividades da sistemática é classificar a diversidade biológica. Aqui, você terá as primeiras noções sobre sistemática ou taxonomia animal e noções básicas acerca de nomenclatura zoológica.

Objetivos

Taxonomia ou sistemática?

Taxonomia
Do grego taxis = classificação, ordenação + nómos = regra, lei + ia = estado, propriedade. O termo taxionomia seria mais correto.
Sistemática
Feminino substantivado do adjetivo sistemático, derivado do grego systematikós, pelo latim systematicu.

Para alguns autores, existem certas diferenças entre taxonomia e sistemática. Segundo eles, a taxonomia é empírica e descritiva, acumulando informação e gerando as primeiras hipóteses explicativas acerca da classificação dos organismos, enquanto a sistemática é uma ciência de síntese, de abstração de conceitos e de teorias explicativas dos fenômenos observados.

Taxonomia


Alphonse de Candolle

Criado por Alphonse de Candolle (1806-1893), em 1813, o termo taxonomia já recebeu, dentre outras, as seguintes definições:

Mas quase todas essas definições tinham como objetivos:


Systema naturae

Os primeiros naturalistas empregavam o termo sistemática ao se referirem aos sistemas de classificação dos organismos. Por exemplo, já em 1735, o naturalista Carolus Linnaeus o aplicou à sua obra "Systema naturae". Desde então, a sistemática tem sido definida como:

Sinecologia
Subárea da Ecologia que analisa as relações entre os indivíduos pertencentes às diversas espécies de um grupo e o meio em que vivem.

Sistemática como sinônimo de taxonomia

Da mesma forma como é apresentado nesta disciplina, alguns autores consideram a taxonomia e a sistemática áreas idênticas. Para Stephen Gould, a taxonomia é menosprezada com frequência como se fora uma forma "glorificada" de arquivar. Porém, em realidade, trata-se de uma ciência fundamental e dinâmica, dedicada a explorar as causas das relações e similaridades entre organismos. As classificações são teorias acerca da base da ordem natural e não tediosos catálogos compilados com o único fim de evitar o caos.

Nesse sentido, a sistemática é a área da Biologia que estuda a diversidade dos organismos, descrevendo-os, definindo suas áreas de distribuição geográfica, estabelecendo suas relações biológicas e filogenéticas e propondo classificações.

Com o atual empobrecimento da biodiversidade, em grande parte resultado de atividades antrópicas, tem aumentado progressivamente o interesse por essa área, nos últimos anos. Recentemente, a comunidade científica propôs um programa global para o conhecimento e a conservação da biodiversidade, denominado "Sistematics - Agenda 2000" (Figura 9.1). Este programa pretende:

Nomenclatura

Como visto anteriormente, a nomeação da biodiversidade é, também, um dos objetivos da sistemática. Diversos organismos são batizados pela população com nomes que são denominados populares ou vulgares pela comunidade científica.

Esses nomes podem designar um conjunto muito amplo de organismos, incluindo, algumas vezes, até grupos não aparentados (não relacionados filogeneticamente). Veja a seguir alguns exemplos:

Muitas pessoas chamam de insetos os próprios insetos (Insecta), muitas aranhas e ácaros (Arachnida) e até ratos (Mammalia).

Muitas vezes, são chamados de vermes os animais de aspecto repugnante, como minhocas, insetos, aranhas, animais parasitas etc.

O nome barata aplica-se a todas as baratas, mas, em um sentido mais amplo, aplica-se também a alguns besouros ou mesmo crustáceos.

Por outro lado, um nome popular pode ser restrito a uma única espécie, como por exemplo (Figura 9.2):


Figura 9.2: 1 - Lobo-guará, 2 - acará-bandeira, 3- arlequim da mata, 4 - mosca doméstica.

O mesmo nome popular pode ser aplicado a diferentes espécies, como por exemplo (figura abaixo):

Em contrapartida, o mesmo grupo animal pode apresentar vários nomes, como por exemplo (Figura 9.4):


Figura 9.4: 1 - onça pintada, 2 - Libélula, 3 - saúva, 4 - cambaxirra, 5 - uirapuru, 6 - lobo-guará.

Você ainda deve observar que os nomes podem ser regionais, isto é, o mesmo animal pode apresentar nomes diferentes para cada região, tais como:

Peixe Mugil
Confira mais sobre o peixe mugil: http://www.fishbase.org

Figura 9.5: Tatuí, parati
Alguns sistemas nomenclatórios populares utilizam um sistema binominal, tais como:

Você pôde perceber, através dos exemplos citados acima, que a nomenclatura popular varia bastante, apesar de o povo brasileiro falar apenas um idioma (com exceção dos idiomas indígenas). Tente imaginar agora toda essa variabilidade nomenclatória nos inúmeros idiomas e dialetos falados pelos humanos. Agora ficou fácil compreender que, se a nomenclatura popular fosse utilizada pelos pesquisadores, a comunicação entre a comunidade científica se tornaria impossível.

Para a ciência, os organismos são batizados com outros nomes, denominados nomes científicos. Os Códigos Internacionais de Nomenclatura foram elaborados com a finalidade de permitir a comunicação entre a comunidade científica. Os seguintes códigos regulamentam a nomenclatura científica biológica:

O sistema pelo qual os nomes científicos são compostos e aplicados a cada unidade taxonômica animal, existentes na natureza ou extintos, é denominado nomenclatura zoológica. Para reger esse sistema foi elaborado, em 1961, o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, que, atualmente, encontra-se em sua quarta edição, publicada em 2000. Ele é um documento adotado pela comunidade zoológica internacional. Por uma questão histórica, ainda hoje ele também é utilizado para os protozoários (reino Protista). O objetivo do código é promover a estabilidade e a máxima universalidade dos nomes científicos dos animais e assegurar que o nome de cada táxon seja único e distinto. Dessa forma, o nome correto de um táxon:

O que é espécie? Responder a esta questão, aparentemente, é bastante simples para as pessoas comuns, mas a Biologia ainda não conseguiu encontrar uma resposta satisfatória para ela.

A criação do código não cerceou a liberdade de pensamento do zoólogo, uma vez que não importa qual o conceito de espécie ou subespécie adotado por ele. O zoólogo deve observar, estudar, fazer experiências e tirar suas conclusões. Qualquer que seja o conceito adotado, se ele disser que um determinado táxon é uma espécie, o código regulamenta apenas a forma de nomeá-la.

Portanto, a Zoologia se ocupa dos animais, e a Nomenclatura, de seus nomes.

Em termos nomenclatórios, espécie é, geralmente, o táxon (ou grupo taxonômico) de nível mais baixo utilizado nas classificações. De acordo com Mayr, "a espécie-táxon é um objeto natural reconhecido e definido pelos taxonomistas e a espécie-categoria é o lugar, em uma classificação, dado à espécie-táxon".

Para que você possa entender melhor o significado da nomenclatura zoológica, é importante examinar os conceitos de táxon e categoria.

Táxon

Táxon é um determinado grupo de organismos, baseado em uma definição. Cada um dos nomes citados a seguir são nomes dados aos taxons:

Categoria

Categoria taxonômica é um determinado nível hierárquico no qual certos taxons são classificados. São categorias taxonômicas: domínio, reino, filo, coorte, classe, ordem, falange, seção, família, tribo, gênero, espécie, bem como outras categorias suplementares necessárias. A cada uma das categorias, até seção, pode-se, ainda, acrescentar os prefixos super, sub e/ou infra, criando novas subdivisões, como por exemplo: superfilo, subfilo, superclasse, subclasse, infraclasse, superordem, subordem, infraordem. Às categorias família, tribo gênero e espécies, pode-se acrescentar os prefixos super e/ou sub, gerando novas subdivisões, como por exemplo, superfamília, supertribo, subgênero, subespécie etc. Vários taxons que você conhece representam estas categorias taxonômicas, como por exemplo.



Figura 9.6: a - Anta (Tapirus terrestris) , b - homem (Homo sapiens), c - hárpia (Harpia hapyja) , d - arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), e - jiboia (Boa constrictor), f - abelha (Apis mellifera), g - onça pintada (Panthera onca), h - solitária de porco (Taenia solium)

Resumo

Os termos taxonomia e sistemática têm sido usados de forma distinta por alguns pesquisadores; entretanto, atualmente podem ser utilizados como sinônimos, correspondendo ao ramo da Biologia que estuda a diversidade orgânica, estabelecendo suas relações biológicas e filogenéticas e propondo classificações. A nomeação desta biodiversidade é também objetivo da sistemática ou taxonomia e tem por objetivo uniformizar a nomenclatura para a comunicação entre os cientistas. A nomenclatura científica se faz necessária, pois a nomenclatura popular utiliza-se muitas vezes de um mesmo nome para várias espécies ou de nomes diferentes para uma única espécie devido a diferenças regionais. A nomenclatura científica é regida por diversos códigos, como, por exemplo, o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, que tem por objetivo promover a estabilidade e universalidade dos nomes científicos dos animais e assegurar que o nome de cada táxon seja único e distinto.

O conceito de táxon é aplicado a um grupo de organismos baseados em uma definição, como Animalia, Insecta etc. Categoria é o nível hierárquico no qual os taxons são classificados, o táxon Animalia é da categoria de Reino; Insecta é da categoria de Classe. São categorias taxonômicas, em ordem de hierarquia: domínio, reino, filo, coorte, classe, ordem, falange, secção, família, tribo, gênero e espécie. Cada uma das categorias pode ser subdividida com o acréscimo dos prefixos super, sub e/ou infra.