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Avaliação Educacional

Maria Cândida Trigo

O que é a avaliação educacional em sentido amplo

Uma das tarefas que mais realizamos na nossa vida cotidiana é a tarefa de avaliar, nos seus mais variados sentidos, que pode ir desde a análise simples de "que roupa usar para sair", avaliando se está frio ou calor, ou até mesmo que atividades desenvolveremos hoje. No nosso dia-a-dia, de acordo com as necessidades, possibilidades e desejos, estamos fazendo escolhas ou tomando decisões, caracterizando o que denominamos de uma avaliação informal. Esta é a avaliação que fazemos, quase que automaticamente, mas existe outro tipo de avaliação - avaliação formal ou sistemática - que é regulamentada por outros dados. Ela exige objetivos bem definidos, critérios selecionados e está direcionada para um processo ou um resultado de uma situação, atividade ou um dado específico, e deve levar em consideração o contexto onde ela se realiza. É neste tipo de avaliação que se insere a avaliação educacional.

No sistema educacional, a avaliação é usada para a coleta de informação, necessária aos diversos componentes do sistema (os responsáveis pela determinação das políticas educacionais; os diretores de escolas; os professores; os alunos) em sua tomada de decisões.

A avaliação educacional pode ser considerada como um dos temas que, ao serem abordados, sempre requerem um exercício de "olhar para o passado" para entender o que reserva o futuro. "Enfim, terá de ser o instrumento do reconhecimento dos caminhos percorridos e da identificação dos caminhos a serem perseguidos" (Luckesi, 1995, p. 43).

Os diversos conceitos de avaliação

Começou-se a falar na avaliação aplicada à educação com Tyler (1949), considerado como o pai da avaliação educacional. Ele a encara como a comparação constante entre os resultados dos alunos, ou o seu desempenho e objetivos, previamente definidos. A avaliação é, assim compreendida, o processo de determinação da extensão com que os objetivos educacionais se realizam.

Outros autores - Bloom, Hastings e Madaus (1971) - também relacionam a avaliação com a verificação de objetivos educacionais. Em função da finalidade da avaliação, consideram três tipos de avaliação: uma preparação inicial para a aprendizagem, uma verificação da existência de dificuldades por parte do aluno durante a aprendizagem e o controle sobre se os alunos atingiram os objetivos fixados previamente. Os tipos de avaliação referidos representam, respectivamente, a avaliação diagnóstica, a avaliação formativa e a avaliação certificativa.

Também Noizet e Caverni (1985) e Cardinet (1993) se referem à avaliação como um processo de verificação de objetivos, em que a produção escolar dos alunos é comparada a um modelo. Para o último autor, o processo de avaliação contribui para a eficácia do ensino, porque consiste na observação e interpretação dos seus efeitos. No limite, permite orientar as decisões necessárias ao bom funcionamento da escola.

De Ketele (1993) referencia, também, a avaliação ao processo de verificação de objetivos previamente definidos. Segundo este autor, é no próprio processo de ensino-aprendizagem que surge a avaliação, funcionando como um mecanismo que verifica se os objetivos pretendidos são efetivamente atingidos.

Atribuindo à descrição do processo um papel importante na avaliação, Stufflebeam (1985) refere que é preciso, primeiro, identificar as necessidades educacionais e só depois elaborar programas de avaliação centrados no processo educativo, para que seja possível aperfeiçoar este processo. O modelo C.I.P.P., sugerido por este autor, procura definir a avaliação como um processo racional onde existe um contexto (C), uma entrada ou input (I), um processo (P) e um produto (P). A informação recolhida com a avaliação permite aos agentes educativos reunirem dados para tomarem decisões, subsequentemente.

Comparar a avaliação a um sistema de comunicação é a perspectiva apresentada por outros autores, como Cardinet (1993), que considera a avaliação como um sistema de comunicação entre professores e alunos, por meio de um processo sistemático de coleta de informação.

Para além da verificação de objetivos, Scriven (1967) considera que na avaliação há uma descrição com um julgamento, ou seja, são apreciados os objetivos de ensino. Este autor foi o primeiro a definir os conceitos de avaliação formativa e somativa, que serão abordados mais adiante.

Perrenoud (1978, 1982), por seu lado, considera que a avaliação participa na gênese da desigualdade existente ao nível da aprendizagem e do êxito dos alunos. Segundo ele, avaliação escolar, na sua forma corrente, é uma avaliação de referência normativa. A função reprodutora da escola, para o autor, concretiza-se através de práticas avaliativas de referência normativa que reproduzem as desigualdades sociais.

Entende-se, hoje, que a avaliação é uma atividade subjetiva, envolvendo mais do que medir, a atribuição de um valor de acordo com critérios que envolvem diversos problemas técnicos e éticos.

Características e funções  da avaliação

A avaliação caracteriza-se de acordo com vários aspectos:

Quanto à forma pode ser: (i) escrita, com respostas curtas (as que requerem a marcação de alternativas de respostas) ou discursivas (aquelas em que os alunos constroem e redigem uma resposta); (ii) oral; (iii) por observação e anotações sobre o objeto; (iv) por análise documental; (v) por monitoramento do objeto de estudo, estando ele sob influência da inserção ou retirada de um fator ambiental.

Quanto às funções:

De acordo com a sua finalidade, pode-se identificar os seguintes tipos de avaliação:

Quanto a quem avalia: de acordo com quem a realiza, existem três tipos de avaliação: a autoavaliação, a heteroavaliação e a avaliação mista ou coavaliação:

Autoavaliação: neste caso, quem emite o juízo de valor sobre o que é examinado é o próprio objeto da avaliação, ou seja, o avaliador é o próprio avaliado.

A autoavaliação tem um enorme potencial formativo e permite que as pessoas e as organizações conheçam suas potencialidades e limitações, além de permitir a reflexão sobre a própria realidade, que é um passo essencial no processo de sua transformação.

Por exemplo, a autoavaliação docente é um bom ponto de partida para a melhora dos processos de ensino-aprendizagem; a avaliação da aprendizagem pelos próprios alunos permite que eles descubram seus erros, o que gera mais facilmente o conflito cognitivo necessário para toda aprendizagem.

A heteroavaliação: ao contrário da autoavaliação, a heteroavaliação é realizada por uma outra pessoa ou por uma equipe. Pode ser executada, por exemplo, pelo professor ao avaliar seus alunos, pelo diretor de uma escola ao avaliar o trabalho docente, por uma Secretaria Municipal ou Estadual de Educação ou mesmo pelo Ministério da Educação, ao avaliarem escolas ou redes. 

É muito útil para conhecimento de aspectos do processo com os quais os avaliadores e os avaliados estão muito envolvidos, pois o avaliador lança um olhar externo sobre o objeto da avaliação, podendo assim contribuir com visões diferentes das do avaliado sobre a função da educação, os padrões de desempenho desejável e os métodos de avaliação.

Como exemplo de heteroavaliações podem ser citadas as avaliações feitas pelos professores em sala de aula, os vestibulares, as avaliações dos sistemas nacionais de educação ou as de programas educacionais, entre outras.

A coavaliação: neste processo participam tanto agentes externos (como os gestores e financiadores) quanto aqueles que executam quotidianamente a educação formal. Este tipo de avaliação possibilita a formulação de diferentes pontos de vista sobre a valoração do objeto avaliado e o contraste de resultados.

A avaliação dos sistemas de ensino, por exemplo, deve se basear também na avaliação das escolas por si próprias. Neste caso, além de ser avaliada por agentes externos, cada escola deve se autoavaliar em função de seus programas, projetos, materiais pedagógicos, recursos, professores, gestão, pessoal de apoio, alunos e infraestrutura.  "A avaliação deve passar de um discurso de descrição e julgamento para um discurso de diálogo"  (Nevo, 1988).  Toda a comunidade da escola deve ser preparada para poder combinar os produtos das heteroavaliações e autoavaliações.

Principais características da avaliação e seus focos intra e extraescolares

Principais características Avaliação com foco em objetos dimensionais no âmbito da escola Avaliação com foco em objetos dimensionais em âmbitos extraescolares
Quanto à forma Geralmente realizada por meio de testes escritos ou orais, podendo ser utilizadas outras formas Na maioria das vezes é aplicada na forma de testes escritos e questionários socioeconômicos, mas também pode ser realizada de outras formas, como a investigação documental
Quanto à função Geralmente a função somativa tem sido enfatizada, mas acredita-se que o ideal é a aplicação das outras duas funções (diagnóstica e formativa) em complementação a esta Pode apresentar quaisquer funções inclusive reunindo as duas ou as três numa única avaliação
Quanto à relação sujeito-objeto Pode-se concretizar como autoavaliação, heteroavaliação ou coavaliação Assim como a avaliação no âmbito escolar, pode apresentar as três relações entre sujeito e objeto
Quanto ao foco de interesse Os processos e resultados das ações de ensino-aprendizagem Os processos e resultados da educação enquanto fenômeno social
Quanto à amplitude/extensão Investiga e atende aos interesses da comunicade escolar imediata (pais, alunos, diretores, professores, corpo de funcionários da escola) O universo que investiga e os interesses a que atende amiúde são muito extensos, voltando-se para a sociedade como um todo ou para parcelas da mesma

Os diversos tipos de avaliação educacional

O mais tradicional objeto da avaliação educacional é o aluno, que, durante todo o ano escolar, é avaliado por seus professores. No entanto, os focos de interesse da avaliação são cada vez mais diversificados, tornando mais frequentes e mesmo comuns, no cotidiano da sociedade, as referências à avaliação de cursos, de escolas, de instituições, de professores, de diretores, de rendimento dos alunos, de desempenho dos sistemas de ensino, de materiais didáticos, de currículos, de experiências e inovações educacionais, etc. Considerando o desenvolvimento e a produção acadêmica da área, é possível afirmar que quase todos os aspectos da educação e também fatores a ela relacionados são passíveis de se tornar objeto de avaliação.

A existência deste leque tão grande de interesses e possibilidades na área da avaliação educacional torna imprescindível, em qualquer projeto de avaliação, a delimitação e a definição precisa do objeto a ser avaliado. A precisão e qualidade da resposta à pergunta o que avaliar definem o nível e a abrangência da avaliação, assim como os indicadores a serem considerados, os dados a serem coletados e como todas as informações serão analisadas.

 Assim, o processo de avaliação pode abranger o sistema educacional de um país, ou uma rede de ensino, ou um grupo de escolas, ou uma escola, ou uma turma de alunos, ou até mesmo um único aluno.    

 O entendimento de que todo processo educacional é composto por diferentes aspectos e sofre influências de fatores externos a ele faz com que os projetos de avaliação sejam abrangentes e tenham diversos objetos de interesse, para os quais existem instrumentos específicos de avaliação, como por exemplo: a aprendizagem dos alunos, os condicionantes socioeconômicos e culturais dos alunos, o perfil do professorado, a prática docente, as condições de funcionamento das escolas, as características da gestão escolar e o clima organizacional, entre outros.

Por isso, é tendência atual da avaliação educacional o desenvolvimento de projetos que buscam articular, compatibilizar e utilizar distintos modelos, ferramentas e instrumentos, de modo a melhor apreender os multifacetados aspectos do processo educacional, objeto da avaliação.