Jornal
Entrevista

Desvendando a deficiência intelectual

Entrevista com Marina Almeida, consultora em Educação Inclusiva

Tatiana Serra

Quem nunca ouviu, nunca disse ou pelo menos nunca pensou algo como: “as pessoas com deficiência intelectual são doentes; elas são muito dependentes e só têm ‘condições mentais’ de trabalhar em instituições especializadas”; “elas são como crianças e vivem num extremo: ou são agressivas ou são muito ‘grudentas’”? Isso já deve ter lhe ocorrido, ou não?

Há muitos mitos sobre a deficiência intelectual, mas felizmente há ainda mais verdades sobre ela. Para aprender a lidar melhor com os portadores dela, é preciso entender o que ela significa: não se trata de uma doença, e sim de uma “condição”, que pode, sim, ser consequência de uma doença.

Para saber mais sobre a deficiência intelectual e sobre como lidar com seus portadores, desvendando mitos e verdades, conversamos com Marina Silveira Rodrigues Almeida, psicóloga, pedagoga, psicopedagoga e consultora em Educação Inclusiva do Instituto Inclusão Brasil.

Revista Educação Pública – O que é deficiência intelectual?

Marina Almeida - Deficiência intelectual ou atraso mental é um termo que se usa quando uma pessoa apresenta certas limitações no seu funcionamento mental e no desempenho de tarefas como as de comunicação, cuidado pessoal e de relacionamento social. Essas limitações provocam maior lentidão na aprendizagem e no desenvolvimento dessas pessoas.

Revista Educação Pública – O que pode ocasionar a deficiência intelectual?

Marina Almeida - Os investigadores encontraram muitas causas da deficiência intelectual. As mais comuns são: condições genéticas; problemas durante a gravidez; problemas ao nascer; e problemas de saúde, como sarampo ou meningite, quando não são tomados todos os cuidados necessários. A má nutrição extrema ou a exposição a venenos como mercúrio ou chumbo também podem originar problemas graves para o desenvolvimento mental das crianças.

Nenhuma dessas causas produz, por si só, deficiência mental. No entanto, constituem riscos, uns mais sérios outros menos, que convém evitar tanto quanto possível. Por exemplo, uma doença como a meningite não provoca forçosamente atraso mental; o consumo excessivo de álcool durante a gravidez também não; todavia, constituem riscos demasiado graves para que não se procurem todos os cuidados de saúde necessários para combater a doença, ou para que não se evite o consumo de álcool durante a gravidez.

Revista Educação Pública – Quando vimos deficientes intelectuais inseridos na sociedade nos damos conta do quanto é possível que eles sejam independentes e capazes. Imagino que essa independência dependa do grau de deficiência e de como essa pessoa foi estimulada e preparada.

Marina Almeida - Os prejuízos no funcionamento adaptativo são usados como referência, já que é a maneira como cada um enfrenta as exigências próprias da vida e o grau em que põe em prática a independência pessoal, de acordo com sua idade e com as experiências socioculturais no contexto onde está inserido.

Sendo assim, sofre influências de vários fatores, dentre eles: características pessoais, oportunidades sociais, motivação, educação, treinamento, bem como suas necessidades práticas e suas condições médicas gerais.

Atualmente, deve-se levar em conta o grau de comprometimento funcional e não a classificação que leva em conta o QI, qual seja retardo leve, moderado, severo ou profundo. O importante é saber em que área a pessoa com deficiência intelectual necessita de apoio, observando critérios qualitativos (adaptativos) de avaliação que consideram mais a pessoa sob o ponto de vista das oportunidades e autonomia do que sua classificação (QI).

A discriminação em relação à pessoa deficiente ocorre por conta do contexto social, e não pela deficiência que apresenta; de sua limitação, e não das dificuldades inerentes à deficiência. Isso é o que temos encontrado nos empresários em geral quando precisam cumprir a lei de cotas.

Verificamos sérios mitos e estereótipos nesse impedimento da contratação. Citaremos alguns: não é bom para a imagem da empresa ter pessoas com deficiência intelectual; elas não se relacionam bem, cometem demasiadamente erros, não interagem com as equipes de empregados, apresentam dificuldades de arrumar postos de trabalho/vagas onde possam desempenhar-se com sucesso, não são competitivos e atrapalham a produção dos resultados da empresa etc.

Notamos que essas observações são baseadas em mitos e preconceitos em relação à pessoa com deficiência intelectual como alguém desprovido de maturidade, autonomia e independência.

Numa visão geral, o processo de exclusão historicamente imposto às pessoas com deficiência deve ser superado por intermédio da implementação de políticas inclusivas, ações afirmativas e pela conscientização da sociedade acerca das potencialidades dessas pessoas.

Para fins da inserção das pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho, defendemos os princípios do Emprego com Apoio.

O deficiente intelectual, podendo ser uma pessoa com síndrome de Down, deverá ter as mesmas oportunidades para obter seu emprego; porém, dentro de sua singularidade, deverão ter respeitadas suas necessidades por meio dos níveis de apoio necessários para sua efetiva inserção no mercado de trabalho e redes de apoio necessárias para promover sua autonomia.

Revista Educação Pública – É preciso se policiar para não ser preconceituoso e tratar essas pessoas como eternas crianças. Falando sobre os adolescentes com deficiência intelectual, em especial, como devemos lidar com eles?

Marina Almeida - Lidar com a diversidade, seja ela com pessoas com deficiência, racial, social, econômica ou religiosa, não é fácil. Mas é tarefa de quem educa, pais ou professores. Porque aprender a viver em comunidade é saber lidar com as diferenças de qualquer natureza. Na era da globalização, o grande desafio reside na valorização de diferentes culturas para que elas se completem e se ajudem.

O preconceito nasce do medo e da ignorância. O exercício da tolerância só é possível por meio do conhecimento e passa pela consciência de que não somos donos da verdade. Mas uma pergunta é necessária: qual é nosso papel? Reproduzir a violência ou ajudar os nossos filhos numa análise crítica diante dos fatos e ter em nós como modelos respeitosos frente às diferenças?

Constantemente esquecemos que as crianças e adolescentes tiram lições mais proveitosas da nossa postura diária diante dos fatos do que de longos discursos teóricos. E isso acontece desde muito cedo. Eles observam nossa relação com a empregada, com o porteiro, com os funcionários da escola.

Nessa observação levam em conta não somente a forma como nos dirigimos a eles nos fatos mais corriqueiros, mas a maneira como lidamos com suas ideias a respeito do mundo. Tudo é registrado, ainda que inconscientemente: nossas inquietações, contradições – e quem não as tem? Mais importante do que evitar as contradições é conseguir conversar sempre com os filhos sobre o polêmico e sobre o já estabelecido, mantendo fortalecida uma dimensão afetiva, respeitosa e ética nas relações humanas.

A partir do reconhecimento de que temos preconceitos, é mais fácil mudar nosso comportamento e perceber que existem muito mais coisas que nos unem do que coisas que nos separam.

As pessoas com deficiência são pessoas como nós: têm sonhos, medos, esperança, raiva... Chegue perto delas e você vai comprovar isso.

Revista Educação Pública – Como deve ser um ambiente escolar que ajude a criança ou o adolescente com deficiência intelectual a se adaptar aos seus professores e colegas e vice-versa?

Marina Almeida - Nenhuma sociedade se constitui bem-sucedida se não favorecer em todas as áreas da convivência humana o respeito à diversidade. Para que haja um ensino produtivo e eficaz há de se considerar as características e peculiaridades de cada aluno. O sistema educacional deve direcionar as respostas que dará a cada um e a todos os seus alunos.

A escola deve ser o espaço no qual se deve favorecer a todos os cidadãos o acesso ao conhecimento e o desenvolvimento de competências, a possibilidade de apreensão do conhecimento historicamente produzido pela humanidade e de sua utilização no exercício efetivo da cidadania.

Escola inclusiva é aquela que garante a qualidade de ensino a cada um de seus alunos, reconhecendo e respeitando a diversidade e respondendo a cada um de acordo com suas potencialidades e necessidades.

Uma escola somente poderá ser considerada inclusiva quando estiver organizada para favorecer cada aluno, independentemente de etnia, sexo, idade, deficiência, condição social ou qualquer outra situação.

Você sabe lidar com alunos portadores de deficiência intelectual? Leia as dicas da professora Marina Almeida para professores e alunos.

Aprendizagem cooperativa: o professor coloca os alunos em grupos de trabalho, juntando alunos com dificuldades em determinada área com alunos mais habilidosos nesse assunto. Na aprendizagem cooperativa, os alunos trabalham juntos para atingir determinados objetivos. A descoberta de interesses mútuos permite a eles explorar assuntos junto com colegas que têm interesses comuns. As estratégias de aprendizagem cooperativa melhoram as atitudes diante das dificuldades de seus colegas com ou sem deficiência e, simultaneamente, eleva a autoestima de todos.

Estratégias de aprendizagem criança a criança: oferecem a oportunidade de compreender melhor as pessoas que, por qualquer motivo, são diferentes (maneira de vestir, crenças, língua, deficiências, raça, capacidades). Quando as crianças compreendem que toda criança é diferente, deixam de fazer brincadeiras cruéis e podem se tornar amigos.

Ensino por colegas: método baseado na noção de que os alunos podem efetivamente ensinar seus colegas. Nesse método, o papel de aluno ou de professor pode ser atribuído a qualquer aluno (com deficiência ou não) e alternadamente, conforme as matérias em estudo ou as atividades a desenvolver. Diversos estudos demonstram que os alunos que fazem o papel de professor podem, às vezes, ser mais eficazes que os adultos para ajudar a desenvolver a leitura ou ensinar conceitos de matemática. Pode ser que isso aconteça porque eles têm mais familiaridade com a matéria que está sendo ensinada, por compreenderem melhor a frustração dos colegas ou por usar vocabulário e exemplos mais adequados à sua idade. Além disso, a aprendizagem por intermédio dos colegas pode ser também positiva para as crianças que ensinam, melhorando seu desenvolvimento acadêmico e social.

Apoio entre amigos: é uma forma específica de aprendizagem com colegas na qual o envolvimento acontece principalmente com assuntos extraescolares. Por exemplo: um amigo pode ajudar um aluno com deficiência física a se sentar na carteira ou pode acompanhá-lo antes e depois das aulas.

Círculo de amigos: é uma estratégia para que os alunos de uma turma recebam um novo colega com deficiência e aprendam a conhecê-lo e ajudá-lo a participar de atividades dentro e fora da escola. Inicialmente, organiza-se uma espécie de “comitê de boas-vindas”, formado por alunos que diariamente poderão fazer visitas ou manter conversas por telefone com o novo colega e saber das suas experiências no novo ambiente escolar. O professor funciona como facilitador para criar o círculo de amigos e pode dar apoio, orientação e conselhos, à medida que o resto da classe vai sendo agregado ao círculo inicial.

Revista Educação Pública – Muitas vezes o educador precisa impor limites e até mesmo questionar e criticar seus alunos. Mas como fazer isso com os alunos com deficiência intelectual?

Marina Almeida - Da mesma maneira que faz com os demais alunos: com regras, sanções e elogios nas situações que logram sucesso.

Revista Educação Pública – Costumamos dizer que lidar com o ser humano é uma arte e um aprendizado diário. Você considera que o lidar com as pessoas com deficiência intelectual é se deparar com outro paradigma? O que o educador pode obter como aprendizado desse convívio?

Marina Almeida – Aprendemos muito com essas pessoas, como por exemplo:

  • a lidar com as diferenças individuais;
  • a respeitar os limites do outro;
  • a partilhar processos de aprendizagem.
  • a compreender e aceitar os outros;
  • a reconhecer as necessidades e competências dos colegas;
  • a respeitar todas as pessoas;
  • a construir uma sociedade mais solidária;
  • a desenvolver atitudes de apoio mútuo;
  • a criar e desenvolver laços de amizade;
  • a preparar uma comunidade que apoia todos os seus membros;
  • a diminuir a ansiedade diante das dificuldades.

Revista Educação Pública – Podemos dizer que educar é estimular os alunos a pensar sozinhos, a buscar suas próprias respostas, a questionar etc. Com relação a essas funções, quais são os diferenciais da educação de alunos com deficiência intelectual?

Marina Almeida - Quando recebemos um aluno com deficiência, somos estimulados a rever nossa prática e a buscar outras formas de ensinar. A cooperação em sala de aula pode ser um fator importante para a inclusão das pessoas com deficiência, pois permite interação e troca entre os alunos. O desenvolvimento de algumas estratégias pode ser decisivo para criar um ambiente de cooperação em que aqueles alunos que têm mais habilidades em alguma matéria possam ajudar aqueles com menos habilidades.

Educação Inclusiva pressupõe que todas as crianças tenham a mesma oportunidade de acesso, de permanência e de aproveitamento na escola, independentemente de qualquer característica peculiar que apresentem ou não. Para que isso ocorra, é fundamental que as crianças com deficiência tenham o apoio de que precisam, isto é, acesso físico, equipamentos para locomoção, comunicação (tecnologia assistiva) ou outros tipos de suporte. Mas o mais importante de tudo é que a prática da Educação Inclusiva pressupõe que o professor, a família e toda a comunidade escolar estejam convencidos de que:

  • o objetivo da Educação Inclusiva é garantir que todos os alunos com ou sem deficiência participem ativamente de todas as atividades na escola e na comunidade;
  • cada aluno é diferente no que se refere ao estilo e ao ritmo da aprendizagem, e essa diferença é respeitada numa classe inclusiva;
  • os alunos com deficiência não são problema. A Escola Inclusiva entende esses alunos como pessoas que apresentam desafios à capacidade dos professores e das escolas para oferecer uma educação para todos, respeitando a necessidade de cada um;
  • o fracasso escolar é um fracasso da escola, da comunidade e da família que não conseguem atender as necessidades dos alunos;
  • todos os alunos se beneficiam de um ensino de qualidade, e a Escola Inclusiva apresenta respostas adequadas às necessidades dos alunos que apresentam desafios específicos;
  • os professores não precisam de receitas prontas. A Escola Inclusiva ajuda o professor a desenvolver habilidades e estratégias educativas adequadas às necessidades de cada aluno;
  • a Escola Inclusiva e os bons professores respeitam a potencialidade e dão respostas adequadas aos desafios apresentados pelos alunos;
  • é o aluno que produz o resultado educacional, ou seja, a aprendizagem. Os professores atuam como facilitadores da aprendizagem dos alunos, com a ajuda de outros profissionais, tais como professores especializados em alunos com deficiência, pedagogos, psicólogos e intérpretes da língua de sinais.

07/06/2011