Jornal
Entrevista

50 anos do Manifesto Neoconcreto

Esta entrevista, publicada originalmente no Jornal da UFRJ, celebra o cinquentenário do Manifesto Neoconcreto – um dos marcos da poesia brasileira contemporânea e um dos tópicos trabalhados na Literatura Brasileira ainda no ensino médio. Ao responder às perguntas de Conryntho Baldéz, Cláudia Sampaio conta um pouco da história do manifesto, da poesia produzida no país na segunda metade do século XX e das divergências entre autores hoje consagrados, como Ferreira Gullar, Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos.

Antes de abordarmos o Manifesto Neoconcreto, gostaria que você situasse o nascimento do Movimento Concreto no país: em que época surgiu, que influências sofreu e quais seus principais representantes.

O Concretismo e o Neoconcretismo têm raízes no movimento Construtivista, que surgiu no Brasil na década de 1950. Foi um período extremamente fecundo e polêmico da nossa cultura. O diálogo era intenso entre escritores, artistas plásticos e, mais tarde, músicos (a Tropicália de Gilberto Gil e Caetano Veloso). As artes plásticas tiveram enorme destaque, principalmente no Neoconcretismo. Mas ao responder essas questões, irei me concentrar sobretudo na produção literária, já que essa é minha área de pesquisa. Em São Paulo, o grupo Ruptura, liderado pelo artista plástico Waldemar Cordeiro, uniu-se aos escritores do Noigandres, Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, que iniciavam um processo de questionamento em relação à poesia que estava sendo produzida naquele momento no Brasil. É claro que cada um conta essa história a partir do seu ponto de vista, mas alguns críticos – como Antônio Carlos Secchin – e o próprio Ferreira Gullar consideram A luta corporal, publicado em 1954, um marco na criação do Concretismo. A preocupação com a utilização do espaço em branco na disposição espacial dos poemas e a experimentação com a linguagem produzida por Ferreira Gullar nessa obra, cujo ápice são os versos de “Roçzeiral” (Urr verõens/ ôr/ túfuns/ lerr desvélez várzens), despertou o interesse de Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari, que em 1955 vieram ao Rio encontrar o poeta. Até então, o foco da cena poética no Brasil era a geração de 45, que se contrapunha ao experimentalismo dos Modernistas de 1922, propondo um retorno às formas tradicionais do verso, como o soneto. Péricles da Silva Ramos, Geraldo Vidigal e Ciro Pimentel são alguns nomes dessa geração. Apesar de pertencer cronologicamente a esse período, a produção de João Cabral de Melo Neto se distingue esteticamente da desses poetas e anima a geração posterior: a vanguarda brasileira dos anos 50, sobretudo os concretos. A oposição de João Cabral a uma poesia sentimental, retórica e ornamental era o que despertava maior interesse nos poetas concretos. Movidos pela ideia de uma arte não-figurativa, e em conexão com autores como Ezra Pound, James Joyce, E. E. Cummings e Stéphane Mallarmé, os poetas de São Paulo propunham um “racionalismo sensível”, que Haroldo de Campos sintetiza com o verso de Fernando Pessoa: “o que em mim sente está pensando” ("Ela canta, pobre ceifeira". Cancioneiro).

De fato, o Concretismo fazia a aproximação entre o trabalho artístico e o industrial?

Estamos falando da década de 1950, do intenso desenvolvimento mundial no pós-guerra.

No Brasil, vivíamos os planos progressistas do governo Kubitschek, cuja ascensão ao poder coincide justamente com o lançamento do Concretismo, em 1956. A poesia concreta dialogava com essas inovações: a propaganda, as artes gráficas, tudo que emergia naquele tempo de expansionismo. O poema “Beba Coca-cola” (1957), de Décio Pignatari, é um exemplo. Confirmando a ideia de Ezra Pound, de que “os artistas são as antenas da raça”, acho que o diálogo mais fecundo estabelecido pelos poetas concretos está na aproximação que eles fizeram com a eclosão da tecnologia nas últimas décadas. Há, no trabalho dos concretos, uma ênfase na comunicação não-verbal, resultante da estrutura-conteúdo que seria o próprio poema. Ao contrário do que muitos defendem, inclusive Ferreira Gullar, de que a concepção do “poema-objeto” não provoca a emoção, esta parece ser alcançada justamente pela configuração que privilegia uma concepção não-linear da poesia, inspirada nos ideogramas orientais e na revolucionária concepção da montagem cinematográfica de Eisenstein, tão próximas da linguagem contemporânea constituída pela presença ostensiva do audiovisual e do hipertexto.

Quais foram as principais divergências entre os concretistas e os artistas que lançaram o Manifesto Neoconcreto?

O confronto entre as duas tendências do Concretismo brasileiro já se colocara desde a I Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956. Era a oposição entre uma arte “racional” e “fria”, de que os artistas paulistas (Noigandres e Ruptura) eram acusados pelos do Rio (grupo Frente), contra uma arte mais “intuitiva” e “humana” que estes defendiam. Isso justificou a ruptura entre os dois segmentos e a posterior criação do Neoconcretismo. A proposta do Manifesto Neoconcreto era resgatar a emoção que, segundo Gullar, se esgotara com a radicalização do Concretismo. Percebe-se que essa concepção é uma visão disseminada pela crítica, de modo geral. A dicotomia entre poesia “humanista” e “racionalista” ainda ganha contornos sociológicos na risível e tradicional disputa entre Rio de Janeiro e São Paulo, propagada pela ideia de que o Rio é emoção e São Paulo, razão. O livro que motivou o encontro entre Gullar e os poetas paulistas, A luta corporal, acabou sendo questionado por seu próprio autor; segundo ele, aquele tipo de experiência que “desintegrava a linguagem” não mais o interessava. Gullar passa a entender a poesia concreta como uma “tentativa de construir a poesia sem discurso”. De modo geral, essa é a principal crítica dele aos movimentos de vanguarda e o motivo declarado de sua ruptura com o Concretismo. O estopim para o rompimento aconteceu com o texto “Da fenomenologia da composição à matemática da composição”, em que Haroldo de Campos propõe uma relação entre poesia e matemática, segundo as ideias de Ezra Pound, um dos autores preferidos dos paulistas, que sustentava ser a poesia "matemática inspirada".

Qual foi a importância e qual o alcance da publicação do Manifesto Neoconcreto, em março de 1959?

A primeira exposição de arte Neoconcreta, onde foi lançado o Manifesto, aconteceu em março de 1959, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Reynaldo Jardim, editor do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que apoiava o Movimento, convidou o artista Amilcar de Castro para diagramar a edição do SDJB que publicou o Manifesto Neoconcreto e anunciou a exposição. A primeira página desse número acabou se tornando um marco na renovação gráfica da imprensa brasileira. Esse foi um dos pontos positivos do manifesto escrito por Ferreira Gullar. Além, é claro, de toda a discussão envolvida no contexto de seu surgimento, importante para a construção do pensamento que temos hoje no Brasil sobre poesia, que ultrapassa a discussão entre “emotiva” e “racional”, e ainda o entendimento de que a autonomia da arte está no plano estético – não no ético ou político. Creio que o precioso legado desse período foi incitar a reflexão sobre a recepção na obra de arte: os bichos de Lygia Clark, os parangolés de Hélio Oiticica, os livros-poemas de Gullar e as esculturas vazadas de Franz Weissman, por exemplo. Contudo, a ressalva que faço é em relação ao descrédito que os neoconcretos deram à teoria ao difundir a noção de que esta é inimiga da arte e que ao artista bastam a intuição e a espontaneidade.

Para quem se interessar em conhecer mais sobre esse momento da nossa cultura, indico o livro de Ronaldo Brito, Neoconcretismo (1985), um dos raros sobre o assunto. Além, é claro, da leitura do Manifesto Neoconcreto e dos poemas publicados em Experiência neoconcreta: momento limite da arte, que Ferreira Gullar lançou em 2008 juntamente com um ensaio sobre sua participação nesse movimento, após um silêncio de quase 50 anos. Teoria da poesia Concreta, dos irmãos Campos e Décio Pignatari e Alguns aspectos da teoria da poesia concreta, de Paulo Franchetti, também são obras importantes para a compreensão do que foi o Concretismo no Brasil. Em minha dissertação de mestrado, Na vertigem da vida. A poesia de Ferreira Gullar (disponível na internet), dedico o capítulo inicial “Gullar e o concretismo: uma revisão” ao estudo da relação entre Ferreira Gullar e o Concretismo, tendo a poesia de João Cabral de Melo Neto como denominador comum. Isso na tentativa de responder à suposição de uma ligação entre a potência lírica de Gullar e o diálogo com as vanguardas, principalmente pelos movimentos aos quais ele esteve diretamente ligado: o Concretismo e o Neoconcretismo. Essa possível rentabilidade estética talvez tenha sido esmaecida pela crítica negativa de Gullar ao Concretismo e por suas concepções em relação à vanguarda artística, sobretudo nas ideias apresentadas em Argumentação contra a morte da arte e Vanguarda e subdesenvolvimento (1969).

17/03/2009