Jornal
Entrevista

O lugar da poesia da escola

Alexandre Alves

Emiliana Teixeira é professora de Metodologia de Ensino e pedagoga. Há pouco tempo publicou um texto sobre a importância e as formas de trabalhar poesia em sala de aula, mencionado no Poucas e Boas. Esse foi o ponto de partida para a entrevista que ela gentilmente nos concedeu.

Portal: O artigo foi escrito voltado para professores das séries iniciais, em que o mesmo professor trabalha todos os conteúdos (Comunicação, Matemática, Ciências, Estudos Sociais). Nas séries do segundo segmento do Fundamental, os estudos são separados em disciplinas, e aí os professores de Língua Portuguesa ou Comunicação e Expressão tornam-se os responsáveis pela tarefa de falar de poesia. Você considera isso inevitável ou os professores de outras disciplinas podem fazer esse papel?

Emiliana - No momento, sou professora de apoio do Centro de Multimeios; apesar de não estar em sala de aula, trabalho diretamente com os alunos através de projetos, de atendimento na biblioteca. Pelo que observo nas escolas e na prática dos meus colegas professores, posso afirmar que os professores de Língua Portuguesa ou Comunicação e Expressão, Produção Textual sejam os principais mediadores desses conhecimentos, dessa tarefa de tratar assuntos literários, e principalmente, para falar de poesia. Mas isso não quer dizer que outras áreas de ensino não possam explorar assuntos ou trabalhos relacionados ao tema em discussão, podendo, durante uma oficina, por exemplo, promover atividades afins, como concursos de poesia, saraus literários etc. sobre temas diversos, como dengue, AIDS, meio ambiente, enfim, trabalhar os temas transversais.

Portal: De que maneira uma poesia pode ser trabalhada em sala de aula? Que atividades, em geral, podem ser utilizadas?

Emiliana - Em todos os momentos a poesia é bem-vinda, podendo ser trabalhada logo nas séries iniciais, para que as crianças desde cedo possam criar o hábito da leitura e da escrita, enfim, na bela arte de ler e escrever poemas. A poesia pode ser trabalhada de várias formas, vai depender da ocasião e da clientela: a princípio, é interessante fazer um levantamento dos poemas que cada aluno conhece; em seguida, formar grupos e escolher alguém para ler e, após, fazer um mural para exposição dos trabalhos - como citei no meu artigo, brincar com as palavras é uma ótima atividade, buscando trabalhar com a sequência didática, ou seja, aproveitar conhecimentos que os alunos trazem do seu convívio familiar e social, do seu bairro, da sua rua, da sua gente, e montar palavras, buscar rimas simples, não necessariamente com perfeição, claro, pois estão aprendendo ainda; pode ser um trabalho individual ou em grupo, no que diz respeito à produção e a leitura; ficaria interessante também se os alunos trabalhassem a poesia com dramatizações, adivinhações, oficinas literárias através da música, pois a música é pura poesia.

Para isso, é indispensável que o professor, antes de tudo, faça um levantamento de alguns poetas que escrevem poemas tanto adultos quanto infantis, para que os estudantes tenham um primeiro contato com eles e suas obras e para que saibam da existência, percebendo como ler e escrever poemas é muito bacana. Posteriormente, os professores podem explorar esses livros com os alunos, trabalhando, criando, corrigindo, expondo, divulgando e incentivando com elogios, o que é muito importante para que eles se sintam estimulados.

Portal: Que aspectos práticos você destacaria como essenciais num trabalho com poesia?

Emiliana – É indispensável que, de início, o professor conheça muito bem seus alunos, seus gostos, culturas, idade, vontades, necessidades e habilidades, para que possa se sentir seguro com a introdução da poesia em sua sala de aula. Após conversar com eles sobre poesias, falar da harmonia das palavras, das rimas, musicalidade, da grande importância de estudar e conhecer poesias.

Para isso, é necessário que tenha muito amor ao trabalho, que tenha dedicação, sensibilidade e respeito aos alunos, enfim, que tenha compromisso com a educação.

Portal: E as poesias infantis? Podem ser utilizadas?

Emiliana – Com certeza, não só podem como devem. Quando se trata de alunos do infantil, estamos lidando com o que há de mais puro e belo. E as poesias infantis não devem ser trabalhadas apenas com crianças, mas também com jovens e adultos. Por exemplo, em Educação de Jovens e Adultos os adultos mergulham no mundo encantado das crianças, concordam em fazer atividades como se fossem crianças e acabam se sentindo realmente crianças, pois se entusiasmam, se divertem e os resultados são os melhores possíveis.

Portal: Você considera válido tratar também da poesia ligada à música, como as histórias da "Arca de Noé" e dos "Saltimbancos", ou as mais recentes, como as da Adriana Calcanhoto, da Palavra Cantada (do Luiz Tatit) e da série "Samba para Crianças", do Zé Renato?

Emiliana – É válido demais, pois a música não existe sem uma bela poesia, ou seja, uma completa a outra. Música e poesia têm tudo a ver; a música não encanta somente pela sua melodia, mas, sim, pela beleza de seus versos poéticos, pela simplicidade das palavras e profundidade de sentimentos.

Lembro-me agora, de um belo poema de Patativa do Assaré, "Triste partida", que foi musicado e interpretado pela voz do grande rei do baião, Luiz Gonzaga, entre outros grandes poetas.

Todo tipo de música é válido, principalmente as cantigas de rodas que, além de resgatar a cultura popular, são fáceis de assimilar; enfim, todo poema cantado se torna mais fácil de aprender.

Não podemos esquecer que a criança, desde cedo, desde o pré-escolar, quando tem seu primeiro contato com as letras, já começa a decorar musiquinhas relacionadas à hora do lanche, hora da saída, de bom dia, boa tarde, de homenagens etc.; o que eu quero dizer com isso é que desde cedo a criança já tem contato com a poesia através das músicas que aprende na escola, e chega em casa cantando, causando muita alegria para seus pais, que ficam encantados.

Portal: Que resultados você considera desejáveis num projeto assim? Como avaliar (para si, como professor, e para a escola) um trabalho com poesia?

Emiliana - Os resultados são sempre gratificantes, com certeza. Tanto o professor como a escola só têm a ganhar, sem falar do aluno, que será o maior beneficiado com esse tipo de projeto, que o ajuda a adquirir conhecimentos, a elevar sua autoestima, contribui para sua cidadania, melhora a leitura e o mais importante: o aluno aprende fazendo.

Projetos dessa natureza devem ser incentivados e desenvolvidos constantemente na escola.

Portal: É possível trabalhar também poesias “adultas” com as crianças? Em que circunstâncias?

Emiliana - Em parte sim, mas não com crianças do pré-escolar ou do Fundamental I, que ainda estão engatinhando no mundo das palavras. Nós sabemos que essas poesias são bastante complexas.

Devemos selecionar bem os poemas e autores a serem trabalhados com as crianças. A partir daí, creio que já se possa ir introduzindo poesias mais complexas, de linguagem mais trabalhada, e aos poucos trabalhando a interpretação, a leitura e a produção de poemas.

Portal: Que autores você prefere utilizar nas suas práticas com alunos?

Emiliana - Todo tipo de poesia é válido, mas  busco valorizar autores locais e apresentar as obras clássicas, de autores famosos e célebres, para que os alunos possam conhecer e apreciar. O importante são os resultados obtidos com esse tipo de projeto.

Sempre que um aluno chega à biblioteca buscando ler poesias, eu faço uma breve análise e indico o tipo que eu achar adequado para ele. Quando percebo que ele não tem condição de compreender poesias mais complexas, como Carlos Drummond de Andrade ou Cecília Meireles, eu indico, para início, a coleção "Literatura em minha casa", que são os livros de EJA. Mais para a frente vou introduzindo uma poesia mais trabalhada, de nível mais elevado. Indico aos professores que leiam e trabalhem todo tipo de poesias, vários autores, como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Camões, Castro Alves, Patativa do Assaré, os melhores poemas de Mario Quintana, poemas satíricos de Gregório de Matos, Chico Buarque e Olavo Bilac entre outros.

Enfim, tudo vai depender da clientela e do tipo de trabalho, a atividade que vai estar sendo desenvolvida com os alunos.

Para concluir, retomando as palavras de Emiliana no artigo, o trabalho com poesia depende da “criatividade do professor”, mas vale a pena fazer com que os alunos se sintam “inspirados, contagiados, motivados a ver com outros olhos aquilo que sempre viram e que nunca perceberam o quanto é belo e encantador”.

10/06/2008