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Avaliando a avaliação do Enem

Alexandre Alves

O Ministério da Educação divulgou, no último dia 3 de abril, os resultados do Enem de 2007; várias análises são feitas com esses números, parece que tentando comprovar a velha teoria de que contra fatos não há argumentos.

Os telejornais apressaram-se a divulgar a análise de que as escolas privadas são melhores do que as públicas. Entretanto, quando a segmentação é feita levando em conta apenas escolas públicas federais, as escolas técnicas/profissionalizantes e os colégios de aplicação das universidades públicas no Estado do Rio de Janeiro, os resultados são diferentes: os alunos da rede pública alcançaram resultados mais elevados, equivalendo-se às melhores escolas privadas. Mesmo se considerarmos todas as instituições federais (entrando aí colégios militares e o Colégio Pedro II), a média é superior à dos colégios particulares (71,71 contra 66,52).

A afirmação da imprensa só se torna válida se incluirmos toda a rede pública: escolas estaduais, federais, técnicas/profissionalizantes e as vinculadas às universidades públicas. Por esse recorte (todas as escolas privadas e todas as escolas públicas), a média da rede particular é 28% maior (66,43 contra 48,25).

Em seu site, o MEC destacou que, das 20 melhores avaliações da rede pública, oito integram a rede federal de educação profissional e tecnológica: “a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o Colégio Técnico-Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os Cefets de São Paulo, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais e a unidade de ensino de Cubatão”, além do fato de que “a UTFPR e o Cefet-SP continuam entre as 20 melhores instituições de ensino do país no ranking que inclui as escolas particulares”; na comparação com todas as escolas de Ensino Médio do Espírito Santo, o Cefet-ES é o segundo colocado.

É sabido que esse grupo de colégios (federais, técnicos e ligados a universidades) forma uma pequena minoria em relação à totalidade das escolas públicas: neles, o docente é mais bem remunerado e sua formação continuada é incentivada, ainda que as condições físicas possam não ser as ideais.

Além disso, para avaliar com mais justiça os dados do Enem, é importante registrar também que o ingresso nesses colégios se dá através de concursos disputados – ou seja, quem é classificado está levando para lá uma boa preparação anterior. E mais: certamente são estudantes que vêm de grupos familiares que valorizam a educação – se não fosse assim, não se empenhariam em entrar para uma escola considerada de excelência.

Ao mesmo tempo, vale ressaltar que, construindo uma série histórica, a média das notas das escolas públicas no Enem 2007 melhorou 41%, enquanto a das escolas privadas cresceu 35%; como consequência, a diferença entre as médias das duas redes de ensino, que era de 31%, caiu para 28%.

Não é honesto com o panorama educacional brasileiro fazer análises simplistas, como as da imprensa em geral; até porque, como bem lembra o site do Inep ao comentar tais resultados, essa é uma avaliação opcional e realizada em um único momento. Ou seja, nem todos os alunos matriculados compareceram às provas, nem se sabe em que circunstâncias os participantes marcaram o cartão e fizeram suas redações.

Ainda assim, esses resultados servem como orientação para o Estado quando efetivamente der prioridade à educação: deve capacitar e valorizar o professor; oferecer condições adequadas de trabalho; fazer com que todas as famílias reconheçam a importância da educação escolar e a permanência dos estudantes em sala de aula (real ou virtual).

15/04/2008