Jornal
Entrevista

Para que ensinar filosofia?

Leonardo Soares Quirino da Silva

Desde 1997, o professor Walter Kohan preocupa-se com a filosofia nos ensinos fundamental e médio das escolas brasileiras. Formado em filosofia pela Universidade de Buenos Aires (UBA), Kohan dedica-se à pesquisa e à reflexão que envolve a prática em sala de aula. Em 2002, ele veio para a Uerj, onde se integrou ao Núcleo de Estudos Filosóficos da Infância (Nefi).

Nessa entrevista, o professor fala sobre suas motivações, sua experiência em Brasília e a necessidade de problematizar o ensino de filosofia. Neste particular, ele observa que "a coisa que nenhum professor de filosofia pode renunciar a pensar é: para que ensinar filosofia? O que significa ensinar? Por que isso faz sentido para eles? Que diferença faz?"

Educação Pública - Como surgiu seu interesse em pesquisar e em trabalhar com o ensino de filosofia?

Walter Kohan - Trabalhava em Buenos Aires com Filosofia Antiga. Era professor assistente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e ensinava Filosofia Grega. A prática da filosofia acadêmica, por um lado, era muito gratificante. Mas, por outro, gerava uma sensação de que, em algum sentido, estava de costas para a sociedade. Ela é muito, digamos, voltada para si própria. Tem um discurso muito fechado, técnico, erudito. Então essa prática era gratificante, ensinava, trocava com os alunos, mas também sentia que estava muito restrito a essa possibilidade. Então soube de um professor dos EUA que tinha criado um programa de ensino de filosofia para crianças, o professor Matthew Lipman. Isso foi em 1992. Entrei em contato com ele, que me convidou para ir estudar lá. Desde aquele momento começou a orientar-me mais para os problemas educacionais e a ver na História da Filosofia mais interlocutores do que em temas específicos. E isso se consolidou. Não aplico o programa de Lipman. Fui tomando uma certa distância. Comecei a trabalhar a ideia a partir de outros marcos teóricos. Fui mudando muito.

PEP - Você tem uma metodologia própria hoje? Um programa?

WK - Não, não tenho metodologia nem programa próprios. Aprendi a resistir a ideia de programa. Mas tenho certos princípios de trabalho que venho tentando construir. Eles são ligados, sobretudo, ao que significa pensar, para que ensinar filosofia, a formas interessantes para ensinar filosofia na infância e ao valor político que tem a filosofia na sala de aula. Isso tem crescido. A educação tem sido uma coisa que me preocupa cada vez mais.

PEP - Qual o sentido de ensinar filosofia para crianças?

WK - A expressão "ensinar filosofia" é ambivalente. O Kant, que está ali no Volkswagen, diz que não se aprende filosofia, mas se aprende a filosofar. Embora ele fale em aprender e não em ensinar, de fato é bastante discutível que as pessoas aprendam algo que não se queira ensinar. O que se pode fazer é transmitir conhecimentos filosóficos. Mas não é o que me interessa fazer com crianças. O que fazemos não é tanto ensinar filosofia, mas propiciar certas condições para que a criança filosofe. Isso significa dar uma certa atenção a uma dimensão do pensamento que a filosofia tem trabalhado historicamente, ou seja, a dimensão do conceito - como conceitualizar, o que acontece, a identidade, o mundo -, a dimensão do problema - o que é um problema, qual a relação entre pergunta e problema, por que é importante experimentar, quantas maneiras há de se perguntar, que diferença há entre uma pergunta e outra. Assim, é mais uma questão de trabalhar uma dimensão do pensamento do que passar um conhecimento.

PEP - Mas esta é a proposta do Lipman também, não é? O desenvolvimento do pensamento crítico?

WK - Sim, tem bastante afinidade em um sentido. Uma diferença seria que, para Lipman, o pensar é algo que é composto de habilidades - pensamento crítico, pensamento criativo e de equidade. A lógica é extremamente importante para ele. Prefiro trabalhar com um conceito mais amplo do que seja pensar. É uma coisa em construção: estamos pensando. Certamente não é uma coisa técnica, algo que se operacionalize tão facilmente. Não tem método nem para pensar, nem para aprender a pensar. O aprender é um ato de liberdade. E o pensar também. Então, o que pode ou é interessante para eu fazer é gerar condições para que alguém encontre isso com mais força e que dê sentido a uma assistência. Não mais temos programa, técnica, conteúdo para fazer isso. O que temos são certos princípios. Eles têm a ver com uma certa igualdade, horizontalidade, entre as palavras das pessoas. Nenhuma vale mais do que as outras e a palavra vale pelo que a sustenta, que a fundamenta. Outro é a resistência ao óbvio, ao normal, ao natural. É não aceitar as coisas porque sim ou porque devem ser feitas. Uma certa procura das transformações, de que temos de sair do lugar.

PEP - Você tem isso sistematizado ou não, eles também são abertos?

WK - Acontece que tenho publicado sobre isso. Se lhe dou uma referência, isso depende de que referência lhe dou, porque isso vai mudando. Coisa que escrevi há dois anos atrás não me comprometo muito. Tem um livro que escrevi em 2000, chama-se Filosofia na Escola Pública (Vozes, 2000) [leia uma resenha], que retrata um pouco a experiência em Brasília. O primeiro capítulo é sobre a fundamentação e onde listo as 15 palavras que são importantes para o projeto. Entre elas, estão algumas que lhe mencionei, como resistência e diálogo [As outras são: crítica, pergunta, experiência, criação, participação, insatisfação, sentido, história, sujeito, infância, amizade].

PEP - Como foi o trabalho em Brasília?

WK - Tínhamos três instâncias. Encontrávamos com as crianças na sala de aula, planejávamos as atividades com os professores na escola e, na universidade, fazíamos uma avaliação do que tinha acontecido. Isso continua acontecendo. Este ano faz dez anos e estão querendo fazer um evento.

PEP - Vocês têm resultados quantitativos ou qualitativos do projeto?

WK - Esse segundo sim. Orientei, na UnB, uma dissertação de mestrado sobre o próprio projeto, de Juliana Merçon. Ela fez um trabalho bonito. Juliana acompanhou por um ano uma professora e o trabalho em uma escola com uma turma. E também há relatórios, um monte de coisas. Agora, também sempre resisti às avaliações. O programa Lipman, por exemplo, tem um teste que se chama Teste de New Jersey, que mede as habilidades de raciocínio. Eles pegam, o que chamam de um grupo controle, de crianças, e o grupo com o qual se vai trabalhar. Aí fazem uma avaliação de raciocínio lógico. Trabalham um ano e voltam a aplicar o teste nos dois grupos e voltam a comparar o desenvolvimento das habilidades. O problema é que o que se avalia e o que se mede depende do que se pensa que significa pensar. Se você tem uma imagem técnica, é fácil medir quantitativamente o progresso, as habilidades. Mas como uma imagem mais qualitativa, como se mede, como se avalia um pensamento?

PEP - Mas os professores que pegam esses alunos depois, eles não percebem que há uma diferença entre eles e os que não tiveram esse tipo de ensino de filosofia?

WK - Alguns dizem que sim, mas duvido muito. Não estou acompanhando, mas não há uma diferença que se possa dizer sistemática. Uma vez no Chile teve uma experiência muito engraçada. Estava fazendo um curso de formação de professores. Uma aluna, quando criança, tinha estudado com o programa Lipman. Para ela foi surpreendente. Imagine, uma pessoa que tinha conhecido o programa quando criança e depois queria aplicar isso em seus alunos. Era um testemunho vivo, estava muito engajada, gostou tanto que agora queria ensinar. Eu não conheço...em outros países há - Itália, Espanha, Austrália. Aqui no Brasil, quem trabalha com Lipman é o Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC), pode oferecer essas coisas. A princípio, resisto em trabalhar em escolas particulares. Lá é mais fácil fazer, porque os alunos continuam, os professores continuam. Em escolas públicas, em Brasília, por exemplo, todo ano os professore mudavam de escola. Não era tão fácil.

PEP - Perguntei isso porque o próprio Lipman, quando começou, estava preocupado com a capacidade de abstração dos alunos de graduação. Bom, pensei, se os alunos foram apresentados a esse programa, eles vão ter uma atitude na sala diferente...

WK - Idealmente sim, mas pelo que aconteceu na universidade nos EUA antes de ontem [falava do massacre na Virginia Tech] parece que não aprenderam muito. Essa atitude do Lipman é muito idealista. Por outro, ele tem uma imagem de que a filosofia vai resolver problemas de conduta, o que é controverso. Isso parece mais uma educação moral do que filosofia. Quem diz que alguém com a filosofia vai se tornar, por exemplo, mais solidário? Isso é um problema pessoal, que tem outros aspectos, que se compõe de outra maneira.

PEP - Aqui no Brasil também tem essa expectativa com a inclusão da filosofia no ensino médio e lá no Grupo de Trabalho Filosofar & Ensinar a Filosofar, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) vocês têm uma posição crítica em relação a esta postura. Você pode falar um pouco sobre isso?

WK - Sim, porque é o mesmo discurso, digamos, "a filosofia agora parece que vai formar cidadãos". Isso pressupõe uma visão bastante acrítica do próprio papel do Estado, de sua constituição. Não é nada evidente que as escolas eduquem para a liberdade, para a autonomia. Então, na verdade, a filosofia pode ser colocada em um papel bastante funcional para o sistema e isso não pode ser aceito simplesmente. Há uma coisa que confunde com a questão corporativa - é bom para a filosofia, é bom para nós -, com uma questão mais filosófica.

PEP - Tem uma abordagem correta para se trabalhar isso? Tem como se formar sujeitos pensantes?

WK - Não, mas há condições que, por um lado, impossibilitam e, por outro, há condições que não garantem, mas que podem possibilitar. E a condição que penso sine qua non para qualquer coisa que se procure com pensamento é, a princípio, tratar de si próprio. A coisa que nenhum professor de filosofia pode renunciar a pensar é: para que ensinar filosofia? O que significa ensinar? Por que isso faz sentido para eles? Que diferença faz? Há um monte de questões, como se diz, que a filosofia vai construir para a cidadania que foram respondidas.

PEP - Na verdade, então, a parte da preocupação do GT é baixar um pouco as expectativas com o ensino de filosofia, não é?

WK - Tornar isso uma questão sobre a qual se precisa pensar.

PEP - Como a aula de filosofia pode contribuir para formar cidadãos, é isso?

WK - Para que vou ensinar filosofia? No que vai contribuir? Qual o sentido do que faço? Agora, para os professores, o que está se apresentando como um grande problema é como ensinar filosofia - que recursos, que materiais, que textos. A questão que queremos colocar é um pouco anterior: para que? O que me proponho? Com isso se espera que tomem posições mais críticas.

PEP - Vocês fazem pesquisas também sobre ensino de filosofia nas séries iniciais. Como estão essas pesquisas?

WK - Nesse momento, há vários locais no Brasil que estão adotando a filosofia nas séries iniciais como Ilhéus (BA), Salvador (BA), Brasília (DF), Estremoz (RN) e Cariacica (ES). No Rio tem, mas não estamos acompanhando de perto. Nosso grupo aqui trabalha em diversos níveis. Temos pessoas que fazem pesquisas de mestrado e doutorado aqui. Por um lado, temos atividades de extensão - cursos, eventos. Por outro, há professores que participam de seminários de trabalho, fazem uma coisa mais tangencial, menos sistemática. Temos, ainda, alguns projetos, como uma especialização no ensino de filosofia. Não queremos fazer um curso pago, mas estamos tendo problemas em conseguir apoio financeiro para fazê-lo gratuito. Em Brasília, por exemplo, organizei uma. É um projeto que temos pronto.

PEP - Como funciona essa especialização?

WK - A equipe que tínhamos em Brasília era de professores dos ensinos fundamental e médio. Uma parte era com professores convidados que ofereciam módulos e tinha uma parte de prática ou estágio acompanhado pelos professores do curso. Era um espaço de formação que procurava sistematizar as práticas de ensino de filosofia. Esta não é uma área, digamos, que interesse muito aos departamentos de filosofia. É difícil encontrar um mestrado na área que aceite um projeto sobre ensino. O que estávamos oferecendo era um espaço de formação para que os professores sistematizassem seu trabalho específico, suas práticas de ensino.

PEP - No início de abril vocês fizeram uma oficina de formação. Como funcionam essas oficinas?

WK - Este é um curso particular, que fazemos uma vez por ano. Ele é menos vinculado a uma experiência prática concreta. É restrito a 30 vagas, porque o local não comporta mais, algumas são pessoas que estudam no Nefi ou fazem graduação em pedagogia. Também tinham algumas pessoas da Argentina, do Chile e de outros estados do Brasil. As oficinas funcionam mais como uma atualização. Como grupo, colocamo-nos a pensar, a ler, a refletir, a problematizar sobre as questões de trabalho de uma forma que seria impossível no dia-a-dia da universidade. Na última, por exemplo, convidamos um professor argentino, Ricardo Sassone, que é diretor de teatro e filósofo, que trabalha a questão do corpo. Então, o tempo todo, discutimos como trabalhar o corpo no ensino de filosofia - como o corpo pensa, a linguagem corporal - e como integrar isso. Como grupo estávamos pensando sobre isso e ele veio ajudar a elucidar um pouco essa questão, porque muitas pessoas se interessaram. Ano que vem será outra coisa. Mas, as oficinas não têm o mesmo caráter dos cursos de formação de professores. Recentemente, demos um curso em Cariacica (ES) de três dias em que, o tempo todo, exploramos a dimensão filosófica em sala de aula.

PEP - Como os professores recebem isso?

WK - Bem, de uma forma geral. Também, para ser sincero, não trabalhamos com ninguém que não queira trabalhar. Este é um princípio desde o projeto em Brasília. Os professores, quando querem, saem do programa. Eles não têm nenhuma obrigação de ficar. Eles vêm quando interessa e saem quando deixa de interessar. Em geral os professores veem nisso uma oportunidade de refundar sua prática, de problematizar sua prática, de encontrar outro início.

2/5/2007