Jornal
Especial

Colégio Estadual Prof. Horácio Macedo

Karla Hansen

Uma escola em busca da excelência

Ouvimos falar do Colégio Estadual Professor Horácio Macedo (CEPHM), pela primeira vez, numa entrevista com a subsecretária de planejamento pedagógico da Secretaria Estadual de Educação (SEE), Alba Cruz, cuja pauta era avaliação (leia no Jornal). Segundo a subsecretária, o Colégio era o único no estado que havia alcançado a pontuação máxima, em quatro anos consecutivos de aplicação do programa Nova Escola, que avalia o desempenho das escolas da rede pública estadual, tendo como principais critérios o desempenho dos professores e o rendimento dos alunos.

Tal informação despertou, imediatamente, nosso interesse e curiosidade. Qual seria a fórmula do sucesso do Horácio Macedo? Que fatores contribuem para o bom desempenho de seus professores e alunos? Afinal, o que faz com que o colégio se destaque num cenário marcado por altos índices de reprovação nas escolas da rede pública? Alba Cruz acabava de nos presentear - sem, talvez, ter consciência disso - com uma nova e bela pauta para o Portal da Educação Pública.

Com o número do telefone, o endereço e o nome da diretora do colégio (Julieta de Macedo Moreira) na mão, saímos da entrevista com a subsecretária, a fim de agendarmos uma visita, o mais breve possível. Ocorre que - fomos informados pela direção - o colégio está em plena atividade e em fase de fechamento dos trabalhos do projeto político-pedagógico deste ano. Sendo assim, combinamos de fazer um novo contato, a partir de 15 de outubro, para realizarmos a tão esperada visita, com a vantagem de que, nessa ocasião, já poderemos ver e divulgar os trabalhos dos alunos.

Para efeito de pesquisa, no entanto, recebemos da direção um relatório - e algumas fotos - que descreve, minuciosamente, a organização administrativa, pedagógica etc, dessa instituição de ensino. Tomando por base esse documento, começamos a entender porque o CEPHM tem se destacado como um pólo de ensino de qualidade.

Perfil do CEPHM

O Colégio Estadual Professor Horácio Macedo está, localizado no bairro de Maria da Graça, na zona norte do Rio de Janeiro (RJ). Ele foi implantado no ano de 2000, a partir de um convênio firmado entre a SEE e o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow (Cefet -RJ). Desde então o CEPHM ocupa parte de um prédio cedido pelo Cefet, no campus de Maria da Graça, que foi adaptado especialmente para abrigar a nova unidade escolar. Pelo acordo, o CEPHM é responsável pelo ensino médio formal e o Cefet-RJ, pelo ensino técnico profissional.

Trata-se de uma experiência inédita no estado: pela primeira vez, três esferas de governo - municipal, estadual e federal - se unem em torno de um projeto educativo que tem, como principal meta, a inclusão social por meio de ensino de alta qualidade para jovens de comunidades de baixa renda, ainda que, para ter acesso a isso, eles tenham que passar por uma peneira fina.

Os alunos são encaminhados ao Colégio da seguinte maneira: cabe às secretarias estadual e municipal de educação indicar estudantes da rede pública de ensino que tenham obtido conceito máximo (médias entre 90 a 100) em todas as disciplinas, ao longo do último ano do ensino fundamental. Ainda pelos critérios do convênio, o aluno deverá ter 13 anos completos na oitava série (ou 15 até o final do ano) e ter cursado a escola pública desde a 5ª série.

A partir do 2º ano do ensino médio, o estudante poderá iniciar o curso técnico no Cefet-RJ, após uma análise de suas médias no primeiro ano, considerando o número de vagas disponíveis para os diversos cursos oferecidos pelo Centro Tecnológico. O Cefet disponibiliza 10% de suas vagas aos alunos do CEPHM e também realiza concurso, por intermédio do qual os estudantes podem conquistar uma vaga no curso técnico profissional. Vale destacar, que o colégio é a única unidade escolar do estado que tem parceria com o Cefet.

Atualmente, o CEPHM atende a 610 alunos (18 turmas) divididos em dois turnos: manhã e tarde. A maioria deles vem de famílias de baixa renda, são moradores de bairros próximos à Maria da Graça que, por sua vez, é cercado por duas grandes comunidades pobres: as favelas do Jacaré e Bandeira 2. São, também, moradores de bairros mais afastados como Méier, Jacarepaguá, Rocinha (Gávea) e até de outros municípios como Maricá e São Gonçalo.

O corpo docente é formado por 50 professores, todos com grau de escolaridade superior com especialização. De acordo com o relatório a que tivemos acesso, todas as pessoas que compõem a força de trabalho do colégio - professores, profissionais de apoio, terceirizados e servidores - são considerados educadores.

A Unidade Escolar é dirigida, desde a implantação do colégio, pela professora Julieta de Macedo Moreira, tendo sido, num primeiro momento, indicada pela SEE e, depois, eleita pela comunidade em duas eleições consecutivas. Durante os cinco anos de sua gestão, o CEPHM participa, seguidamente, de concursos como o "Prêmio Gestão", em 2003 a escola recebeu o selo "Escola Solidária" e recebeu pontuações máximas concedidas às escolas participantes do programa Nova Escola.

A escola como uma empresa

Chama a atenção, no relatório, o fato de o CEPHM considerar os alunos, seus pais e/ou responsáveis como "clientes", cujos objetivos e anseios são identificados pela Instituição por meio de pesquisas de opinião e reuniões feitas no decorrer do ano letivo com a direção da escola. Ainda de acordo com o relatório são descritas como necessidades dos "clientes", por ordem de prioridade: o ensino gratuito e de qualidade, a excelência do projeto político-pedagógico, o ensino integrado ao mundo do trabalho e o desenvolvimento de práticas socioculturais e de lazer.

A ideia de que uma instituição de ensino pode ser administrada como uma empresa ou um negócio, também é nova, na rede pública de ensino. Sendo uma empresa, a direção estabelece como "clientes", os alunos e seus familiares e como "produto", o ensino-aprendizado do ensino médio - ainda que este seja um produto gratuito.

Indo adiante, vemos que é na qualidade do produto ensino-aprendizado que o CEPHM faz a diferença. Conforme descreve o relatório, ele se configura por meio de ações da organização pedagógica, que "tem como objetivo proporcionar ao aluno uma oportunidade de educação integral e humana, visando a sua participação crítica e transformadora na sociedade".

Nesse contexto, destaca-se o projeto pedagógico, "que caracteriza todo o trabalho desenvolvido pela comunidade educativa". E fazem parte dessa comunidade educativa professores, alunos, funcionários, e, também, pais e responsáveis.

Parceiros da comunidade educativa

De uma maneira mais ampla, participam das atividades pedagógicas do colégio diversos parceiros, que contribuem para garantir o alto grau de qualidade do ensino do CEPHM.

O primeiro e mais importante deles é o Cefet-RJ. Por ser uma instituição de qualidade educacional reconhecida em todo o país, o Cefet é um "motivador e incentivador" para toda a comunidade escolar. Além dele, o colégio conta, ainda, com outros parceiros de peso, como a Universidade do Estado do Rio (UERJ), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a General Electric, o Serviço Social de Comércio (Sesc), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com os jornais "O Globo" e "Extra" - com a inclusão do colégio no projeto "Educando o Cidadão para o Futuro" - e Nestlé, por intermédio do "Projeto Viagem Nestlé".

No que diz respeito a atividades socioculturais e artísticas e ao acesso a novas tecnologias, os alunos do CEPHM podem se considerar privilegiados. Diferente da grande maioria dos estudantes da rede pública, eles têm acesso, por exemplo, a uma biblioteca com um acervo totalmente informatizado, de 3.710 volumes. Entre os espaços "alternativos", vemos que os alunos também dispõem de salas especiais para atividades de exibição de vídeo, educação artística, leitura e jogo de xadrez, exposição, informática (uma sala com seis computadores conectados à Internet), ginásio etc. O Colégio também fornece merenda escolar aos estudantes dos dois turnos.

Outro dado importante é a existência de aulas de reforço, por meio do programa "Faça Parte", criado na escola. São três salas - uma para cada série do ensino médio - especialmente destinadas ao programa. Neste setor também se incluem as aulas de recuperação paralela, nas quais além do acompanhamento individual dos alunos pelos professores, os estudantes são incentivados a formar grupos de estudo e a participar do trabalho de monitoria, como uma ação solidária, em que alunos que dominam determinados conteúdos ajudam outros colegas com maior dificuldade.

Em linhas gerais, o relatório nos apresenta uma experiência educacional realmente diferenciada, que se caracteriza pelo esforço e coesão de todos os participantes na busca por um ensino de excelência, por meio do qual se promove a inclusão social de jovens historicamente desfavorecidos e excluídos. Os resultados, reconhecimentos e prêmios recebidos pelo CEPHM só confirmam e legitimam esse esforço conjunto. Resta-nos, agora, ver tudo isso de perto.

26/9/2005