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O luxo do lixo

Marcelo Bessa

Espaço na Gávea faz de sucata obras de arte

Entervenções: nova exposição no Galpão das Artes
Entervenções: nova exposição no Galpão das Artes

O francês Antoine Lavoisier, considerado o pai da Química, foi quem deduziu, a partir de seus experimentos, a célebre lei da conservação da matéria: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Cunhada no século XVIII, essa frase já se tornou lugar-comum. Embora hoje seja usada às raias da banalidade, ela cai como uma luva para se descrever o Galpão de Artes Recicladas Hélio G. Pellegrino, um espaço artístico-cultural sui generis no cenário carioca. Nesse espaço, nada se perde e tudo - verdadeiramente tudo - se transforma. Mas, se na natureza nada se cria, a mesma coisa não pode ser dita do Galpão. Lá a criatividade impera e se criam muitas, mas muitas coisas.

O espaço, cujo nome é uma homenagem ao arquiteto e artista plástico Hélio Pellegrino, foi criado, em 2002, pela prefeitura do Rio, por meio da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb). O Galpão tem uma proposta ecológica, cultural e social e pretende mostrar ao público a importância do meio ambiente. Reciclar parte do lixo produzido pela cidade e transformá-lo em arte ou em artigos utilitários é a maneira pela qual o espaço fala dessa importância. Desse modo, o Galpão aglutina artistas e artesãos que trabalham com restos e sucata e que veem o luxo no lixo.

O local onde o Galpão das Artes está instalado não poderia ser mais apropriado. Situado sob o viaduto da estrada Lagoa-Barra, na Gávea, em frente ao Planetário e próximo da PUC-Rio, o Galpão é fiel à sua proposta de utilizar materiais rejeitados para transformá-los em objetos artísticos e utilitários. Afinal, quem pensaria que uma sobra de espaço urbano pudesse ser transformada num local que congrega artistas, artesãos e profissionais diversos? Além disso, o espaço sob o viaduto, que comumente é visto como local de moradia das pessoas que vivem nas ruas, remete a outra coisa. De certa forma, sugere que essas pessoas que vivem à margem da sociedade e que se servem, em todos os sentidos, de sobras são mais importantes do que se pensa, pois cabe a elas a coleta e a seleção de grande parte do lixo de que a sociedade se desfaz sem nenhum critério.

Fachada do Galpão das Artes, localizado<br />sob o viaduto da Estrada Lagoa-Barra
Fachada do Galpão das Artes, localizado
sob o viaduto da Estrada Lagoa-Barra

Mas esse lixo, quando coletado e selecionado, pode ter, na maioria das vezes, um fim inimaginável, como, por exemplo, transformar-se numa peça artística. Na Sala Contemporânea, uma sala do Galpão destinada a exposições, há quase sempre uma mostra de arte urbana, especialmente aquela relacionada com resíduos, sobras e coisas afins. Só neste ano, já houve duas exposições ("Totem da Paz e etc...", de Samuel Rodrigues, e "Ferro - no Atômico 26", de Antônio Breves) e, desde 15 de junho, mais uma exposição ocupa o espaço. Desta vez, é a hora do grafite urbano dos rapazes do grupo El Ninho Crew. Também há o Espaço ReForma, que, além de expor peças do acervo do Galpão, também tem peças para venda. Nesse espaço, o público poderá ver (ou comprar) peças de Maria Angélica Hartung, Cláudia Moreira, Jorge de Salles, João Alvez de Oliveira Filho, entre diversos outros artistas. Além das peças criativas e originais, o Espaço ReForma também tem uma atração à parte. Por causa do trânsito intenso do viaduto, o teto do pequeno espaço chega a tremer, como se o teto fosse desabar a qualquer momento.

No Galpão, a arte não está restrita apenas às salas de exposição. Também é possível ver os artistas trabalhando, conhecer seus ateliês e fazer algum curso dos diversos oferecidos (a relação completa dos cursos, assim como a duração e a taxa cobrada, pode ser obtida pessoalmente no Galpão ou por telefone). O Galpão tem três ateliês, que são cedidos gratuitamente a três artistas ou artesãos durante um período acordado com a direção do local. Além do espaço para trabalhar, desenvolver e aprimorar técnicas de utilização de resíduos e sucata, os contemplados podem oferecer cursos. Em troca do espaço, eles se comprometem a estabelecer atividades gratuitas para a comunidade. Nos dois primeiros anos, os selecionados foram Sérgio Marimba, que trabalha com ferro oxidado, Sergio Cézar, que utiliza papelão em sua arte, e Sebastião Feijó, que se destaca pelo uso de vasilhames PET em mobiliário.

Talvez seja o trabalho de Sebastião Feijó um dos mais conhecidos pelo público. Nascido em São João de Meriti, onde mora até hoje, Sebastião, 57 anos, é biólogo e professor de biologia da rede municipal de ensino. O trabalho com os vasilhames PET começou como um trabalho escolar em 1997. "Na época, não havia muito trabalho com esse material", lembra ele. "Eu não queria trabalhar com PET provocando cortes, como quase todos os trabalhos até então faziam, mas sim utilizar todo o PET. Estudando e testando, cheguei ao resultado de uma cápsula que me permitia a utilização de vários produtos. Com aquela cápsula, havia toda uma arquitetura, toda uma geometria a meu favor. Com ela, poderia fazer qualquer tipo de produto." Assim, com os vasilhames, Sebastião cria cadeiras, mesas, enfim, vários móveis e objetos, tão resistentes quanto similares feitos de outros materiais, como madeira e ferro.

Integrantes do El Ninho em ação
Integrantes do El Ninho em ação

No início, a preocupação de Sebastião era basicamente em relação à questão ambiental, mas logo ele percebeu que seu trabalho também tinha um aspecto econômico-social e artístico. Desse modo, situado entre o utilitário e o artístico, o trabalho de Sebastião vai se espalhando por diversas mostras pela cidade. Em maio, o inventor da movelaria em PET expôs na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Em junho, no Shopping Nova América e, em breve, em várias estações do metrô.

Embora seu trabalho seja patenteado, Sebastião faz questão de passar sua técnica a outras pessoas. Há pouco mais de um ano, foi contratado pela CoopManga, uma cooperativa da comunidade da Mangueira, para dar um curso. Agora, a CoopManga já está desenvolvendo uma linha de produção de movelaria PET. Um dos seus alunos da CoopManga, Roberto Dias da Silva, aprimorou a técnica e, com mais investimento, pôde criar sofás, pufes e camas de dar inveja a qualquer designer. Agora, Roberto é um dos novos três selecionados que ocupam os ateliês do Galpão. Além dele, há Samuel Rodrigues, que utiliza pneus usados, e Moema Branquinho, que trabalha com mosaico.

Para que haja material suficiente para o trabalho dos artistas em suas obras e oficinas, o Galpão das Artes Recicladas aceita doações diversas. Assim, são bem-vindos pneus, garrafas PET de 600 ml, latas e sucatas de todo o tipo. Quem quiser doar, basta passar no local e deixar sua contribuição. E mesmo que não tenha nada a doar, programe-se e vá visitar um local onde consciência ambiental, criatividade e arte convergem de uma forma harmoniosa e original.

O Galpão está localizado na Av. Padre Leonel Franca, s/no, na Gávea, em frente ao Planetário, sob o viaduto da Estrada Lagoa-Barra. Tel: 2249-2286. Horário de funcionamento: das 10 horas às 19 horas, de terça-feira a sábado.
E-mail: eventos.comlurb@pcrj.rj.gov.br.
Site: http://www2.rio.rj.gov.br/comlurb/emp_evento.htm

Contatos com Sebastião Feijó - Tels.: 2756-0990 ou 9457-6456; e-mail: feijofabio@ig.com.br

Grafite em exposição


Grafites invadem a Sala Contemporânea

De 16 de junho a 31 de agosto, há mais uma exposição no Galpão das Artes. Dessa vez, o grafite do grupo El Ninho Crew toma conta do local. Formado por quatro rapazes que estudam Desenho Industrial na PUC-Rio - Danilo Lucas, 23; Luís Otávio, 23; João Rodrigo, 24; Mateu Velasco, 23 -, o grupo já se destaca na paisagem carioca de muros e afins. São deles os grafites no viaduto que dá acesso ao Túnel Rebouças, além de outros na Rocinha, Cosme Velho, Humaitá, Gávea, entre outros bairros cariocas.

A exposição Entervenções envolve, além do grafite, design, ilustração, fotografia, gravura e um projeto de revitalização urbana do espaço em frente ao Galpão. Os grafites estarão espalhados, além da Sala Contemporânea, por diversos locais dentro do Galpão e também se estenderão para fora do espaço, até mesmo partes do muro embaixo do viaduto. Afinal, se grafite é a arte das ruas, nada mais coerente do que isso. Assim, mostra-se aos visitantes que na rua também há e se faz arte.


Trabalho do El Ninho na Rocinha

O grupo também desenvolverá no Galpão, utilizando o grafite, um projeto social de expressão pela arte com crianças e adolescentes de comunidades carentes do entorno, em especial do Minhocão e da Rocinha.

Quem quiser ver diversos grafites do El Ninho pode acessar o fotolog do grupo: http://www.fotolog.net/elninhocrew.

15/6/2004