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Especial

Para gostar de ler

Sergio Henrique Martins

Cidadãos estimulam a leitura criando bibliotecas comunitárias

"Um país se faz com homens e livros". A frase de Monteiro Lobato já tem sua tradução em ações, no trabalho de cidadãos que vêm criando bibliotecas comunitárias no Grande Rio, com poucos recursos mas muita boa vontade. É o caso de Evando dos Santos, que em 1998 começou a reunir livros em sua casa e pô-los à disposição da população, e que vai ver seu conjunto de 25 mil obras abrigado em prédio que Oscar Niemeyer quer projetar. Também é o caso de três rapazes de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que a partir de livros encontrados no lixo fizeram uma biblioteca dentro de um contêiner para combater a exclusão social e a criminalidade.

A história de Evando já se tornou famosa: teve divulgação em jornais e no portal Aprendiz, e até foi contada no Programa do Jô (em 15/11/2001). A notoriedade se justifica. Imigrante nordestino, só aprendeu a ler aos 18 anos, e desde então passou a amar a leitura. O convívio com as letras inspirou-lhe ideias interessantes sobre o ato de ler e a função de uma biblioteca.

Em 1998, Evando foi fazer um trabalho de pedreiro quando deparou com cerca de 50 livros que seriam doados ou jogados fora. Decidiu levá-los - de ônibus! - para sua casa na Vila da Penha. Foi a base da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Meneses, assim batizada em homenagem a seu escritor preferido. Trata-se de um acervo variado, composto de doações, à disposição de qualquer pessoa. O usuário pode pegar quantos livros quiser e não tem prazo para devolvê-los. Na visão de Evando, não haver um forte controle da circulação do acervo é uma qualidade. Ele acha que a burocracia para empréstimo em uma biblioteca convencional inibe muita gente de usá-la. E não vê grande problema se alguém levar um livro e não devolvê-lo - se isto quer dizer que a pessoa considerou a obra boa o suficiente para ficar com ela, melhor. Esta filosofia de livre promoção da leitura levou a Biblioteca a prestar um serviço de entrega de livros em domicílio.

Tudo vale para tornar a Biblioteca um espaço democrático, e o público tem reconhecido isto. Evando estima que, em média, 20 pessoas passem pela Biblioteca todos os dias. A maioria, estudantes do Ensino Fundamental em busca de material para seus trabalhos escolares. Mas há também gente em busca de informação especializada, como um universitário paraense que encontrou na Tobias Barreto um discurso de Getúlio Vargas sobre a Amazônia. De fato, lá estão guardadas algumas obras raras, como a primeira gramática da Língua Portuguesa, de 1539.

A iniciativa de Evando inspirou outras, que criaram mais 13 bibliotecas comunitárias. A maioria está na Baixada Fluminense - como a do comerciante Sidney Lopes em Belford Roxo, que já conta com 1.500 livros - mas já existe um acervo no interior do Rio de Janeiro, em Valença.

O número de bibliotecas desse tipo deve ser ainda maior, pois a ideia de pôr uma coleção de livros à disposição de uma comunidade não é incomum. Sem relação direta com o trabalho de Evando dos Santos foi criada a Biblioteca Comunitária Irmã Carmélia, em Vila Aracy, bairro de Duque de Caxias. Ela chama atenção por funcionar dentro de um contêiner, inicialmente reservado para as operações de limpeza da Baía de Guanabara. Foi criada por três trabalhadores envolvidos nessa atividade: Marco Antônio Honório, o Marcão, e os irmãos Valdir e Walmir Santana. Eles encontraram muitos livros em meio ao lixo que recolhiam, e com o que puderam recuperar desse material fizeram a base de seu acervo.

Os três decidiram estimular a leitura onde moram, a comunidade de Parada Angélica, para dar uma ocupação especialmente às crianças e aos jovens da área. O lugar sofre com a pobreza - social e de acesso cultural - e com a violência do narcotráfico. Marco Antônio pretende que a biblioteca desperte na garotada o interesse pela cultura e, assim, levá-la a lutar por sua cidadania. Nos folhetos de divulgação que distribui para conseguir doações de livros, pôs a seguinte frase: "através da Educação e da Cultura o Homem se conscientiza e se liberta".

Para cumprir seu objetivo, os "bibliotecários" da Irmã Carmélia fazem um esforço muito grande. Já aconteceu de, em busca de uma doação, irem a pé de São Cristóvão ao Alto da Boa Vista, bairros do Rio muito distantes entre si. Isto porque não tinham o dinheiro para todas as passagens de trem e ônibus necessárias. Evando dos Santos também se queixa da falta de estrutura, pois, claro, tem muita dificuldade em transportar de ônibus as dezenas de livros que vai buscar pela cidade.

No caso de Evando, a publicidade em torno de sua história ajudou muito. Ele chegou a receber visita do Ministro da Cultura, Francisco Weffort, que prometeu apoio à construção de um prédio para a biblioteca Tobias Barreto, onde também vai funcionar uma universidade informal, com cursos livres para o público. O edifício deve ser projetado por Oscar Niemeyer, com quem Evando conversou num programa de TV e que se dispôs a ajudar a biblioteca comunitária. Niemeyer viu a grandeza do trabalho de uma gente que, contra as maiores dificuldades, está contribuindo para um mundo melhor. Exemplos, de fato, para todos nós.

Links:

  • Perfil e entrevista de Evando dos Santos, no portal educacional Aprendiz, em edição de fevereiro de 2002.
  • Reportagem em O Estado de São Paulo, de 1999, sobre Evando Santos e a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto. Menciona iniciativas semelhantes de outros cidadãos.
  • Artigo em que o jornalista Engel Paschoal comenta a questão do incentivo à leitura no Brasil, citando algumas iniciativas.
  • Informações sobre o escritor Tobias Barreto de Meneses, com acesso a textos selecionados de sua obra.
  • Reflexões de Luiz Marques, professor de São Paulo, sobre o problema do incentivo à leitura nas escolas brasileiras.

6/8/2002