Jornal
Entrevista

O pensamento social em Caio Prado Jr.

Subtítulo (se houver)

Raimundo Santos

Professor do Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade CPDA, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Primeira parte

Ruth Vasconcelos - Leio na quarta capa do seu livro a observação da filha de Caio Prado Jr., Danda Prado, alertando para a condição de outsider e de autor de estranho marxismo com a qual o historiador tem sido tratado em algumas áreas. Qual seria essa singularidade que ensejou tal tipo de percepção da obra caiopradiana?

Raimundo Santos - Caio Prado Jr. é um autor de reconhecido lugar na historiografia brasileira, mas ainda tem o seu pensamento político subestimado. O livro justamente busca realçar a dimensão do publicista que foi Caio Prado Jr., sublinhando um aspecto que, hoje, neste mundo de globalização e aparente domínio do mercado sobre as demais formas sociais, chama muito a atenção por sua atualidade. Procedentes minhas conjecturas, tal dimensão requalificaria a contribuição de Caio Prado Jr. na questão agrária e no tema do desenvolvimento, dando inteligibilidade ao que se poderia chamar de ciência política caiopradiana. Penso que o historiador tem uma concepção da economia e da vida política brasileiras bastante singular para os padrões marxistas do seu tempo. O que é que ele traz essencialmente? A ideia de produtivismo - uma palavra certamente problemática - que ele extrai da comparação que faz da nossa modernização com o primeiro industrialismo. É uma proposição que ele retira do tema do capitalismo clássico, um capitalismo que, tendo não poucos defeitos, incorporava a população e lhe dava vida moderna rica em relações socioculturais e políticas. Um capitalismo que, depois, com as correções do Welfare State, do Estado de Bem-Estar, nos seus casos mais bem-sucedidos, inclusive ampliou consideravelmente a inclusão social. Aqui, Caio Prado Jr. via nossa trajetória - oriunda de uma empreendimento comercial, uma colônia de produção movida pela força do trabalho africana vinda de fora - como uma formação social destituída de nacionalidade. Dito em outros termos: éramos uma experiência na qual não se integravam, na relação essencial da economia, a produção e o consumo. Como marxista brasileiro do pensamento social, daí ele partia com a sua preocupação com os temas da nacionalidade e da debilidade da vida política, que vinham dos primeiros clássicos. Mas esse seu equacionamento também se aproximava dos ensaístas dos anos 50: ele falava em reestruturar a economia, para torná-la produtiva e incorporar a força de trabalho de modo generalizado, livre de constrangimentos, cuja valorização abriria caminho para a condição da vida digna, isto é, para um cotidiano de relações complexas, como, aliás, queria Gilberto Freyre, reclamando da mutilação que, em sua fase constitutiva, representara para o povo brasileiro o escravismo.

Ruth Vasconcelos - A atualidade de Caio Prado Jr. proviria do tema do apartheid social com o qual vem se caracterizando o neoliberalismo por acirrar a tendência de exclusão social já grave em uma sociedade como a brasileira?

Raimundo Santos - Surpreende como aquele argumento caiopradiano lembra a discussão sobre o neoliberalismo e como ele sugere um certo tipo de compreensão do próprio governo FHC. Em sua época, a crítica caiopradiana dirigia-se ao industrialismo de "negócios fáceis" que, sob a forma de um "capitalismo burocrático", alimentava-se de um Estado privatizado e que só visava o lucro fácil, estruturando pouco o trabalho. Caio Prado Jr. é um militante da reforma desse capitalismo para dar-lhe sustentabilidade com base no trabalho nacional. Em suas dissertações - na historiografia (a ênfase nas classes subalternas, como se vê logo na abertura de Evolução Política do Brasil); na questão agrária (às vezes parece que a dimensão agrária da revolução nacional em Caio Prado Jr. diz respeito menos a uma definição conotada no agrário do que à ideia de maioria radicada no mundo rural); no industrialismo inconcluso (que mantinha este país como um "país de desocupados") e na vida política débil (não é discreta a sua preocupação com o alheamento cívico de grande parte da população) -, em todos esses temas, Caio Prado Jr. sempre se mantém no ponto de vista da valorização do trabalho. A propósito do desenvolvimentismo dos anos 50, demarcando-se da Cepal, ele chega a dizer em 1954 que, entre a produção e o consumo - se tivesse que escolher entre os dois elementos do processo econômico - escolheria o consumo, a "maioria da população". Só para fechar a ideia: para Caio Prado Jr., a missão do desenvolvimento, do industrialismo, era alargar a ocupação produtiva, acabar com a miséria endêmica (esse é o tema de Monteiro Lobato) e superar o atraso popular enquanto marca genética que se prolongara no Brasil ao longo dos séculos. Sua tese é incisiva e dita ao modo do pensamento social dos primeiros clássicos: com uma população de pobres não se construiria uma grande nação, comparável às do capitalismo europeu e americano.

Ruth Vasconcelos - Nessa visão mais abrangente, qual era a sua ideia de reforma agrária?

Raimundo Santos - Caio Prado Jr. pensa a reforma agrária ao modo da Abolição. Tal como a grande transformação de 1888 constituíra o núcleo básico do povo brasileiro, necessitava-se concluir, no tempo contemporâneo, essa obra como uma grande mudança também a se processar na generalidade do país. A "revolução agrária" deveria alcançar, em primeiro lugar, os numerosos contingentes sociais, que seriam os dependentes de trabalho no mundo rural, ou seja, os que mantinham uma relação de emprego e subemprego nos principais setores da agropecuária. Não eram camponeses sem terra, espalhados e dispersos pelo território nacional. Não; eles eram os assalariados e semiassalariados, em suma, os empregados nas atividades mais importantes da economia agrária. Nesses setores estava distribuída a maioria da população rural na extensão do país e era no seu movimento econômico-emancipatório que iria se sustentar a reforma do mundo rural como um todo. É nesse sentido de generalidade, em lugar das ações "subversivistas" de que falava Gramsci, referindo-se a movimentos camponeses esporádicos, que ele propunha a concentração das forças de esquerda no amplo movimento de reivindicações no lastro da lei trabalhista. Caio Prado Jr. considerava o Estatuto do Trabalhador Rural, editado por Jango em 1963, como uma segunda Abolição. A reivindicação da terra era subsidiária, equacionada dentro daquele movimento geral de valorização do trabalho no mundo rural. A luta pela terra era mais uma frente, na qual se buscava uma alternativa adicional de ocupação, para favorecer os empregados rurais no mercado de trabalho tensionado pela contradição que repartia o mundo rural entre os monopolizadores das condições de emprego e os grandes setores populacionais sem ocupação ou com ocupação precária. Este é o eixo da dissertação agrarista caiopradiana.

Ruth Vasconcelos - Lê-se no seu livro que, às vésperas de 1964, Caio Prado Jr. foi dos poucos a não se entusiasmar com o processo de radicalização das Ligas Camponesas...

Raimundo Santos - Para Caio Prado Jr., o protagonismo que haveria de reformar o mundo rural não seria vivido pelas Ligas Camponesas, que haviam nascido em áreas de grande tensão de conflitos de terra, mas pela organização moderno-sindical que se alargava pelo país num movimento mais substancioso e permanente. Inclusive era este movimento que dava continuidade, nos pequenos centros regionais e locais, à trama organizacional que, com todos os problemas e a fragilidade que tinham o sindicalismo e o associativismo populares, formara-se nas grandes cidades há mais tempo. Desenvolvido em torno do que se poderia chamar de "revolução agrária não-camponesa", esse argumento caiopradiano é apropriado - parcialmente - pelo seu partido. Como se sabe, desde 1952, o PCB abandonou a perspectiva do campesinismo revolucionário, antes bem visível no Manifesto de Agosto de 1950, e caminhou em direção a uma práxis agrária mista, trabalhista e camponesa, expressa na sua orientação de organizar sindicatos de assalariados e semiassalariados para mobilizar as massas camponesas, que ainda permaneciam como figuras estratégicas na imagem de revolução de boa parte dos comunistas. Em todo caso, por esta "réstia de bom senso" (usando aqui a expressão com que Caio Prado Jr. qualificava a ambiguidade do seu partido), o PCB estruturou uma malha sindical rural no país e terminou criando a Contag, em 1963. Aliás, se pode dizer que, desde que foi formada por organizações permanentes, que são os sindicatos, a Contag mantém essa sua vocação, trabalhando o tema do emprego e caracterizando-se pela luta para suscitar e influir nas políticas públicas. Recentemente li declarações do novo presidente da Contag, mencionando a conquista que representou o Pronaf, mas reclamando mais e mais políticas destinadas a fomentar a agricultura familiar. Essa valorização da pequena produção pode parecer uma escolha paradoxal para uma confederação sindical, não fosse o modo como a Contag a tem definido, considerando-a como o fulcro de um programa de estruturação de uma área reformada na economia agrária, de inestimável valor para a transformação do mundo rural.

Segunda parte

Ruth Vasconcelos - E o MST, que se reivindica herdeiro das Ligas e é hoje o grande ator na luta pela terra, estaria muito distante desse não-campesinismo de Caio Prado Jr.? A obra caiopradiana encontraria audiência no atual ambiente intelectual-militante do MST?

Raimundo Santos - Aparentemente, o MST, com suas ocupações, estaria longe da tradição caiopradiana. A sua concentração é a terra e a sua referência são as Ligas Camponesas. O MST estaria contraposto ao modelo (digamos, mais caiopradiano) da Contag que consiste num associativismo sindical e se caracteriza pela ênfase nas políticas públicas e pelo agir mediante pressão e negociação. Ultimamente - lembrando o tempo do pré-64, em que os sindicatos agrários, sob influência pecebista, também disputavam áreas de influência das Ligas de Julião - tem havido, até mesmo, uma competição entre as duas entidades, a Contag vendo-se levada a entrar no terreno das invasões e na luta pela terra no estilo do MST. Hoje, eu vejo bem mais nítido que, afinal de contas, o programa do MST, como em Caio Prado Jr., é o emprego e o seu tema de vocação, o do trabalho. Esse movimento agrário apresenta agora a novidade de a luta pela terra ser um teatro de luta, um meio mobilizatório em torno do qual o MST vem exercendo o seu papel de ente incorporador dos desvalidos que, se não têm em mãos recursos produtivos para se tornarem um setor de significação econômica, como os grandes grupos da agropecuária modernizada, representam um lado social altamente relevante, sem o qual, como dizia Caio Prado Jr., não é possível a "grande nação" no mundo rural. Mundo rural, hoje, bem diferente, no qual, como há algum tempo mostram as pesquisas de José Graziano da Silva, a força do trabalho já não se ocupa exclusivamente na agropecuária, estruturando-se também em outras atividades não-agrícolas.

Ruth Vasconcelos - Aí começam algumas coincidências...

Raimundo Santos - Como o ensaísmo dos anos 50, Caio Prado Jr. também pensa a reforma agrária como uma peça estratégica do fortalecimento do mercado interno, mesmo esta já não sendo a condição suficiente para o desenvolvimento, mas sem dúvida uma condição necessária. Observo em A Revolução Brasileira, de 1966, que o historiador pensa a reforma agrária como uma alternativa à exaustão da modernização conservadora, promovida pelo regime autoritário; sua ideia é a de que, em lugar de parte de uma revolução no sentido estrito do termo, a reforma agrária significa, em sua visão construtiva, um mecanismo incorporador de largos contingentes sociais, também revitalizando uma economia dotada de fraca endogenia.

Ruth Vasconcelos - Tanto áreas do governo quanto do próprio MST têm afirmado que, realizando-se a reforma agrária, a mobilização dos sem-terra se atenuaria progressivamente, chegando o próprio MST a se extinguir.

Raimundo Santos - O MST tem a sua imagem construída em torno da mobilização pela terra, mas percebe-se que essa luta não é mais representativa das ações de resistência e de luta pela posse da terra do passado, do camponês assentado num lugar com raízes e tradições, opondo-se a um invasor desde um território determinado; ele mobiliza a promessa da terra para reunir desgarrados, desvalidos... Estive recentemente, no CPDA, na banca de tese de doutoramento de Severina Garcia de Araújo sobre a trajetória dos assentados da fazenda Zabelê (Rio Grande do Norte), oportunidade na qual aprendi como a fase da luta pela criação de condições de trabalho era muito mais difícil do que a conquista da terra e exigia enormes energia e criatividade dos atores sociopolíticos. A formação da área reformada na economia agrária não representa pouca coisa. Todas as numerosas dificuldades que os seus protagonistas enfrentam - principalmente da burocracia governamental e até mesmo alguns fracassos - não deve ofuscar o fato maior de estar ali um emblema: a área reformada pode revelar - está revelando - a fase mais positiva do MST; o seu momento da construção para grandes contingentes sociais do mundo rural.

Ruth Vasconcelos - Li, recentemente na imprensa, notícias sobre a marcha do EZLN até a cidade do México. Poder-se-ia dizer que, ao modo da atitude do subcomandante Marcos que levou o seu movimento agrário ao centro da cidade do México para, sem armas, ali proclamar um novo rumo ao zapatismo (vitorioso, não só por quebrar o isolamento dos indígenas, como por oferecer sobremaneira uma nova força política ao seu país), aqui também o MST estaria prestes a atingir um novo patamar em sua trajetória?

Raimundo Santos - Os indícios dessa tendência a projetar o futuro ainda são poucos. Alguns autores têm falado no fim do impulso que representara a criação do PT há vinte anos atrás e que a continuação desse impulso estaria agora no lastro das ações do MST. Eu diria outra coisa. Não obstante ter incendiado a imaginação de um largo espectro político-intelectual, como elemento disruptivo, chegando a alimentar uma nova utopia campesina, até mesmo em áreas mundializadas, o MST agora está diante do desafio de ter que verbalizar - já dá passos econômicos largos onde tem presença na área reformada da agricultura - um novo discurso, bem mais ao estilo caiopradiano, no sentido do aprofundamento daquela sua outra face de ser construtivo. Eu insistiria em dizer que, depois de uma trajetória tensa, de lutas e conflitos, o MST pode vir a aprofundar aquela sua vocação de ser impulsionador de uma reforma agrária capaz de instituir populações mutiladas em seres mais plenos.

A questão da luta pela terra não estaria mais sendo pensada como uma questão central em si, mobilizável para operações de poder com vistas ao fim último da fundação de uma nova sociedade, mas como um recurso instrumental para intensificar a inclusão social, num capitalismo e numa sociedade aí existentes, os quais por certo precisariam ser reorganizados, usando o termo preferido de Caio Prado Jr..

Ruth Vasconcelos - Uma última indagação: chama a atenção na leitura do seu livro o desencontro de Caio Prado Jr. com o PCB, nos temas da conjuntura política. Foi assim em 1945, no pré-64 e, o que mais estranha, nos primeiros anos da resistência ao governo militar, quando, no seu livro de 1966, o historiador parecia alheio, desconsiderando a participação do seu partido na articulação das frentes de resistência ao regime de 1964.

Raimundo Santos - No campo da política propriamente dita, ainda não se tem visto uma valorização das ideias caiopradianas. No PCB, aos comentários e respostas de época - sempre de reparo -, continua uma espécie de silêncio, não quanto à importância da historiografia caiopradiana, mas em relação ao papel do militante com o seu pensamento político propriamente dito. Tento reavivar a curiosidade sobre a controvérsia de 1945, ao final da qual, digamos assim, substituiu-se o "Partido Comitê de Ação" (onde estava Caio Prado Jr.) pelo "Partido de Prestes". Até hoje continua pouco avaliado o significado da virada na política do PCB, quando o partido saiu da convergência com liberais de Oposição, no movimento da UDN, para se aproximar de Getúlio no ocaso do Estado Novo. Lembro essa questão da aliança com os liberais nos símbolos das duas grandes "frentes únicas", a de "1945" e a do "MDB", no pós-64. Também acho oportuno recordar a discordância de Caio Prado Jr. com o seu partido no pré-64, quando, voz isolada, o historiador dizia serem necessários "alicerces políticos" fortes para o encaminhamento das reformas estruturais daquela época e reclamava da demagogia governamental e da agitação, em detrimento dos processos políticos substantivos de governo e de organização popular em profundidade.

Sim, à época do pós-64 Caio Prado Jr. foi cobrado por ter uma ciência política obscura e sumamente abstrata, por não dar maior atenção àquelas ações antiditatoriais na forma que elas tinham naquele momento. Em seu livro de 1966, ele se concentra em duas operações básicas. Por um lado, em ajustar as contas com o imaginário revolucionário do pré-64 (sua crítica é demolidora das duas peças-chave da velha mentalidade pecebista, que são as figuras do campesinato revolucionário e da burguesia nacional antiimperialista) e, por outro, em traçar uma alternativa à exaustão da modernização conservadora, já antevista na orientação do novo regime militar (tema retomado nos adendos de A Revolução Brasileira de 1967 e 1977). Ele considerava essa modernização como um neomercantilismo, no sentido de que somente viria dar sobrevida ao capitalismo pouco incorporador da população produtiva e que só favorecia os "negócios fáceis".

Em suma, duas correlações parecem possíveis. Por um lado, se se valoriza a ideia de produtivismo como um programa para concluir o processo de conformação da nacionalidade para contingentes descentrados da vida econômica e desgarrados de relações sociais sólidas e complexas, entende-se melhor o que o historiador quer dizer quando se refere à tarefa da revolução como sendo uma catarse da passagem da classe em si em classe para si, como dissera Caio Prado Jr. já no livro de 1933. Por outro, se se entende que ele concebe a sua ciência política - mesmo atravessada pela linguagem marxista da época - mais a partir das equações do pensamento social clássico, tem-se dela uma outra ideia. Ela seria certamente uma ciência política que não se voltava para a "ânsia desmedida pelo poder" - usando uma expressão de Elias Chaves Neto, ao descrever a divergência de Caio Prado Jr. com a aproximação do PCB com Getúlio em 1945 e com Jango no pré-64 -, mas para uma reestruturação da vida política nacional, a partir do processamento dos conflitos no sistema dos partidos, em moldes democráticos, com governos dotados de ideias políticas de livre curso nas esferas da opinião pública. Como certa vez ele dissera: "para corrigir as defeituosas vias em que se processa a política brasileira".

Entrevista concedida a Ruth Vasconcelos, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, a propósito do livro Caio Prado Jr. na cultura política brasileira (Rio de Janeiro: Mauad/ Faperj, 2002). Publicado na Revista Universidade Rural - série Ciências Humanas, v. 23, nr. 1, jan./jun. 2001