Alberto Tornaghi
Alberto José da Costa Tornaghi. Este o nome que recebi na pia.
Alberto herdei de um avô. José, do outro. Do José veio também o "da Costa". Do Alberto, o "Tornaghi". Foi assim que nasci Alberto José da Costa Tornaghi, meio caminho entre nobre e herói de rádio novela - década de 50, o Albertinho Limonta e Isabel Cristina n'O Direito de Nascer reinavam a imaginação popular na Rádio Nacional. Nem um dia de vida e mais de um século de nome.
O Alberto deixou os seus pouco antes de minha chegada. Pena, não pudemos brincar juntos. Pelo que sei era um sujeito divertido. Foi dentista, advogado e marceneiro. Dele, além do nome, herdei mais um monte: a enorme escrivaninha feita por ele, brinquedos mis saídos de sua bancada de marceneiro, a bancada em si, também feita por ele, minha bancada de eletrônica e a placa com seu nome que marcava sua mesa de trabalho, anuncia, hoje, a chegada à minha casa. Mas a herança mais preciosa, foi essa vontade de fazer de tudo um pouco, de saber de tudo, de gostar de tudo.... e de todos.
Do José me lembro bem, vô Dindinho. Carinhoso e calmo, morava numa divertida casa na Tijuca. A memória do que via o menino é clara como se fosse hoje: era um enorme castelo, com paredes de pedra e muitas escadas, com direito a porão/masmorra e sótão/torre de castelo. Em menino só sentia falta do fosso com ponte levadiça. Tinha até Soberano no seu trono, o Vô! Tinha até Monstro-Dragão, meu meio tio, adolescente quase-adulto, brabo com seu quarto misteriosamente trancado, sempre trancado.
Ainda menino, menor do que posso lembrar, minhas irmãs e irmãos me fizeram Bebeto. Acho que não cabia bem em vida tão nova, um nome com tanta história.
Na primeira oportunidade pai e mãe, fizeram valer sua autoridade e retomaram sua escolha. No avental do jardim de infância trazia bordado: "Alberto José". Um golpe certeiro: até minha professora, que era vizinha e me conhecera Bebeto, se bandeou para turma dos simpatizantes do "Alberto José".
Parecia definitivo: em casa, "Bebeto"; em público, "Alberto José". No primário, professores e colegas, mais econômicos, me fizeram Alberto, só Alberto. No curso da admissão, uma austera professora à moda antiga (antiga já para aquela época) me fez Tornaghi: afinal, naquela escola estava o futuro do país. E Tornaghi segui por ano e meio, importante, até chegar ao Ginásio. Já me sentindo um homem feito, pude escolher como seria chamado por meus pares. Gostei de Alberto, o primeiro da lista de chamada. Durou pouco... Imaginem só que na segunda semana me apareceu um usurpador! Seu nome? Alberto Carlos. Apesar do susto inicial, nada mudou. Já conquistara título de "Alberto da 114" e restou a ele ser Carlos, só Carlos. Como Alberto fui eleito monitor da turma e conquistei a primeira namorada, a mais bonita das meninas (quem ama o feio....). Namorada e eleição; era um homem, era um líder, era feliz.
Durou um ano. No seguinte, mudei para a escola onde estudava meu irmão mais velho. Ele, conhecido como Tornaghi e eu.... Tornaghinho. Perdia em personalidade mas já chegava com grande popularidade. Não chegava a ser grave. Durou algum tempo, quase todo o Ginásio. Aos poucos voltava ser Alberto para os meus e Tornaghinho entre os mais velhos. Bom, bom: dava um certo status andar entre os mais velhos, mesmo sendo "inho".
Chego ao científico, com a sensação de dono de meu nariz, mais adulto do que nunca, meus amigos frequentam minha casa e viro... Bebeto. Este "adulto" já trabalha, conserta rádios e televisões. No trabalho, entre clientes, sério como cabe a um profissional, Alberto José. Para os amigos a intimidade do Bebeto.
Segue a vida, Universidade, dúvidas.. Estudar Engenharia ou Filosofia? Ser Psicólogo ou Geógrafo? Fico ator, faço cinema, escrevo jornal, viro político, quase derrubo a ditadura junto com mais 7.000 nos Pilotis da PUC (os policiais, disseram, eram 10.000), helicópteros ameaçavam voando baixo por sobre nossas cabeças.... Melhor terminar algum curso antes que vire um nada. Escolhi a Física, onde podia ser Bebeto, sem terno nem gravata. Fiz pesquisa, quase escrevi tese e abandonei tudo para viver da paixão: percebi que queria ser educador.
Belo dia, já professor, recebo um recado por meu pai:
- Te ligaram da Secretaria de Educação. Queriam falar com o professor Bebeto.
Meu pai, ficou triste. Queria vivo o nome de seu pai. Minha mãe.., não sei se ligou. Eu... bem eu ... gosto de Alberto, gosto de José, sou feliz como Bebeto mas gosto mesmo, mais do que tudo, é de gente. Se precisar, pode me chamar de psiu mesmo, que eu atendo.
Leia também Vem cá, neguinho!, de Márcio Paschoal.
Pubicado em 4/1/2001