Cultura
Folclore e datas importantes

Entre confetes e serpentinas, o carnaval de Pernambuco é demais!

Thelma Regina Siqueira Linhares

Professora e pesquisadora de folclore

Ainda sob a influência de Momo, e depois de passar esses dias de folia, podemos afirmar que algumas características no carnaval de Pernambuco são inquestionáveis: a alegria e a irreverência do folião, a duração da festa (que ultrapassa o tradicional tríduo momesco) e a multiculturalidade das manifestações desse ciclo.

Pernambuco é a terra do frevo e do maracatu, é a pátria dos bonecos gigantes e dos papangus, tem o maior bloco de rua do mundo e o maior carnaval participativo, entre outras peculiaridades. Quando se questionam preferências é que as divergências aparecem. Qual o melhor carnaval – o de hoje ou o do passado? Qual o melhor frevo de todos os tempos? Qual o bloco mais animado? Quem compôs mais músicas de carnaval? Qual o mais animado ritmo carnavalesco? Difícil de responder, porque gosto não se discute... O importante é viver o carnaval na paz, sem excessos e violências, com responsabilidade, porque dali a 360 dias tem carnaval de novo!... Para alegria dos foliões e folionas.

Nestes tempos carnavalescos, vale a pena dar um passeio pela história para conhecer os antecedentes do carnaval de Pernambuco, desde antes mesmo de o carnaval ter o formato pelo qual o entendemos hoje. Povos antigos festejavam seus deuses com músicas, bebidas e luxúrias. Eram rituais que reverenciavam a terra e sua fertilidade, celebravam a volta da primavera, comemoravam vitórias guerreiras e conquistas de povos. Muitas vezes, as festas estavam associadas a fenômenos astronômicos e a ciclos naturais. Grécia, Roma e Egito – apenas para citar as grandes civilizações da Antiguidade – tinham seus rituais e festejos comemorativos. Na era cristã, a Igreja Católica deu nova formatação aos antigos rituais pagãos, fazendo-os coincidir com datas predeterminadas de seu calendário, na tentativa de punir abusos, moralizar costumes e difundir sua fé. As comemorações começavam, então, no ciclo natalino e terminavam exatamente na Quarta-feira de Cinzas, quando se iniciava a Quaresma, período de quarenta dias de dor e jejum em preparação para a Semana Santa e à Páscoa. Na época das Grandes Navegações, com a conquista e expansão europeia pelos continentes americano e africano, o carnaval – mais precisamente o entrudo – também, foi importado, imposto e depois aculturado pelos povos pagãos conquistados.

No Brasil, o entrudo chegou desde os primórdios da colonização. Festa violenta, de muitos excessos e atrocidades. Verdadeira selvageria e barbárie, em que o encontro de grupos rivais terminava sempre em briga, ferimentos e mortes. No período colonial, as capitanias hereditárias que deram certo – Pernambuco e São Vicente (São Paulo) – podem ser consideradas os polos nascedouros do entrudo brasileiro.

Depois, a Bahia – primeira capital da colônia – e o Rio de Janeiro – capital escolhida para sede do governo da Família Real no Brasil, do Brasil-Império e da República (até 1960) – difundiram as manifestações culturais da época. Por um longo tempo, o Rio de Janeiro monopolizou o carnaval brasileiro, ditando moda em termos de fantasias e concursos, marchinhas carnavalescas e difusão do samba. O desfile das escolas de samba naquele estado é um megaespetáculo, tipo exportação; há décadas desperta interesse dos diferentes meios de comunicação. Também é verdade que hoje o carnaval apresenta várias faces e polos de animação; difundidos pela mídia e explorados pelo turismo, torna-se uma das mais fortes referências de Brasil e de brasilidade.

Foi no século XIX que o entrudo começou a ganhar espaço no Brasil, coincidindo com seu declínio na Europa. Os escravos, molhados, jogavam entre si ovos, laranja podre, farinha, restos de comida. As famílias brancas se divertiam jogando água suja e até xixi nos passantes. Os ricos se divertiam em locais fechados, sob influência direta da moda ditada na corte. A violência, praticada por muitos e independente da classe social, era intensificada no período. A repressão policial era forte, na expectativa de coibir os excessos. Muitas manifestações populares eram consideradas marginais ou ficavam na clandestinidade. Aos poucos, o entrudo foi se modificando, se civilizando. Novos feitios e comemorações foram sendo incorporados. As pequenas e grandes invenções dos séculos XIX e XX foram transportadas para as festas de Momo, contribuindo para tornar o carnaval o que conhecemos hoje: o ciclo de festejos e comemorações mais popular entre os próprios brasileiros e mais divulgado no estrangeiro. Bailes de máscaras, a partir de 1840. Limões de cheiro (pequenas bolas de cera cheias de água perfumada) e frascos de borrachas cheias de vinho, groselha ou vinagre foram precursores dos lança-perfumes, introduzidos em 1885. O corso, um desfile de carros alegóricos puxados a cavalo (charretes, cabriolés e aranhas), popularizou-se a partir de 1889, antes do surgimento do automóvel. A marchinha O abre alas, de Chiquinha Gonzaga, registrada oficialmente em 1889 como a primeira música carnavalesca, literalmente abriu espaço para os diferentes ritmos e canções especialmente produzidos para a festa. O surgimento e a evolução dos meios de comunicações de massa (rádio, gravações em disco, transmissões televisivas, Internet e celular), juntamente com a invenção e modernização dos meios de transporte coletivos, encurtaram cada vez mais as distâncias e facilitaram as idas e vindas de foliões dos quatro cantos da Terra, permitindo que o planeta seja uma aldeia global também na folia.

O carnaval de Pernambuco recebeu todas essas influências históricas, culturais e sociais, personalizado-as. É multicultural. A pluralidade, valorizando ainda mais o carnaval nestas terras do Leão do Norte, tem a diversidade cultural costurada pela alegria e pela  animação, sendo possível observar a miscigenação das raças formadoras do povo brasileiro e, aqui e ali, uma pitada de novas influências refletidas nos ritmos, danças, agremiações, blocos, culinária e bebida típicas.

Quem é de fato, bom pernambucano
Espera um ano pra cair na brincadeira.
Esquece tudo quando cai no frevo
E no melhor da festa
Chega a quarta-feira.

A palavra frevo vem de ferver – "frever", na pronúncia simples do povo –, com significado de fervura, efervescência, agitação, adjetivos para os foliões que se juntavam nas primeiras agremiações e pipocavam ao som das bandas de música que tocavam dobrados, polcas e marchinhas, até surgir o frevo propriamente dito como gênero musical. O frevo é dança e é música; é genuinamente pernambucano. A coreografia da dança recebe o nome de passo e é muito variada: parafuso, saci-pererê, boneco de Olinda, tesoura, saca-rolha, do caroá etc. Passista, independentemente do gênero, é quem dança, em geral acompanhado pela pequena e colorida sombrinha de frevo, que ajuda a manter o equilíbrio. Nos tempos do entrudo, o passista era um capoeirista que jogava capoeira, abrindo caminho – alas – para o frevo passar, protegendo os músicos contra a multidão que frevava frenética.

O nome frevo foi adotado no início do século XX, mas foi na década de 1930 que se definiram as três principais modalidades de frevo: frevo-de-bloco (cuja origem está ligada às antigas serenatas, sendo acompanhado por uma orquestra de pau e corda); frevo-canção (que apresenta uma introdução forte, à base de metais, seguida da canção); e frevo-de-rua (somente instrumental, predominando os metais). A presença da orquestra é essencial para a execução; o compositor de frevo tem de ser músico ou ter parceria ao escrever a pauta musical, pois ao compor tem que definir o que cabe a cada seção instrumental de uma orquestra ou banda. Inspiração e poesia, nesse caso, não são suficientes...

Vivenciar o carnaval de Pernambuco, experimentando seus ritmos, danças e cores, talvez seja o maior desafio que o folião de fôlego enfrenta. O carnaval aqui é plural, multicultural. E onde quer que se vá – litoral, zona da mata, agreste ou sertão – a alegria será uma constante; a saudade, em breve, uma doce lembrança.

Na madrugada do terceiro dia
Chega a tristeza e
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo, diz adeus à folia...
... A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval.

Atualmente, o que mais caracteriza o carnaval da capital pernambucana é uma tríade de manifestações: o frevo, o maracatu nação e o maracatu rural. A essa pluralidade de ritmos, músicas e danças são acrescentados blocos, caboclinhos, tribos de índios, la ursa, bois e ursos de carnaval e escolas de samba. Além de refletir a dinâmica dos costumes, valores e modismos, o carnaval se reinventa e se recria num ritmo próprio. Assim, já se foi a época dos bailes nos principais clubes sociais, onde o folião se esbaldava em quatro noites de folia, manhãs de sol e matinês para a garotada, sob a batuta dos maestros famosos que comandavam orquestras ao som de frevos, cirandas, sambas e marchinhas de carnaval. Os bailes hoje se restringem a algumas prévias carnavalescas, onde a tradição dos concursos de máscaras e fantasias é mantida.

Ei, pessoal, vem moçada
carnaval começa no Galo da Madrugada (bis).
A manhã já vem surgindo,
O sol clareia a cidade com seus raios de cristal
E o Galo da Madrugada, já está na rua, saudando o carnaval.

O Clube de Máscaras Galo da Madrugada, que fez seu primeiro desfile em 1978 para reviver os carnavais do passado, tornou-se a expressão maior do carnaval de Recife. A agremiação, que mantém o título de maior bloco de rua no Guinness Book há mais de uma década, literalmente invade as principais ruas e pontes do centro da cidade, no sábado de Zé Pereira, arrastando milhares de foliões, brincantes, simpatizantes ou trabalhadores do carnaval ao som de freviocas, orquestras de frevo e trios elétricos que tocam exclusivamente os ritmos de Pernambuco. As águas da bacia do rio Capibaribe servem de passarela para o bloco A Galinha D'Água, que acrescenta mais beleza ao desfile anual do Galo da Madrugada.

É da coroa imperial
É maracatu
Ele é da casa real.

Os maracatus de Baque Virado ou maracatu nação, cujas origens remontam às tradições de coroação dos reis de Congo e Angola, são descritos desde o início do século XVIII. É a expressão mais forte do sincretismo religioso e cultural entre o branco dominador e o negro escravizado. O Rei e a Rainha, ricamente vestidos e coroados, são protegidos por um grande pálio, segurado por um Escravo que o faz girar, simbolizando o movimento da Terra. Acompanhando-os estão as Damas do Paço, algumas segurando as Calungas (bonecas de origem religiosa). Aparecem aí outras figuras da corte: Príncipe, Princesa, Duque, Duquesa, Embaixador e Baianas. Às vezes, são incluídos o Caboclo de Pena (representando o índio brasileiro) e meninos lanceiros vestidos como guardas romanos. A orquestra do maracatu nação é composta por instrumentos de percussão (alfaias, zabumbas, taróis, caixas, ganzás etc.) que tocam num ritmo compassado, que vai acelerando, enquanto uma corneta ou clarim anuncia a apresentação do estandarte. A coreografia do maracatu nação é típica, com movimentos de mãos e braços acompanhando os batuques da percussão. A Noite dos Tambores Silenciosos acontece na segunda-feira de carnaval, em frente à Igreja do Pátio do Terço, quando a percussão de todos os maracatus silencia, à meia-noite, em reverência a Nossa Senhora do Rosário (padroeira dos negros) e a São Benedito, reforçando as origens afro-brasileiras do Maracatu de Baque Virado.

O urso do carnaval tem uma composição muito simples: o urso (um homem vestido por um velho macacão coberto de estopa que usa uma máscara feita de papel-machê) e o domador (que segura a corda que prende o urso). Dançam ao som de música própria ou de antigos sucessos do carnaval. Em geral, a orquestra de urso de carnaval é formada por sanfona, triângulo, ganzá, pandeiro e reco-reco. Pode haver um tesoureiro, que arrecada dinheiro entre os espectadores da folia.

Na versão infantil, a la ursa é pura brincadeira. As crianças batem em latas e cantam o refrão em coro uníssono e animado. Felizes, conseguem apurar alguns reais no final da diversão.

A la ursa quer dinheiro
Quem não dá é pirangueiro...

O boi do carnaval é uma transformação do bumba-meu-boi do ciclo natalino. Com nova coreografia e colorido exuberante, algumas figuras são personagens populares do carnaval pernambucano: bois, burras, cavalo marinho, mateus, catirina e babau comandados pelo capitão e tirador de loas trazem alegria e medo à criançada.

O samba é outro ritmo do carnaval pernambucano e recebe influências de frevo, maracatu, capoeira e escolas de samba. Na década de 1930 apareceram as primeiras escolas de samba do estado. Os grupos de afoxé são cada vez mais populares no carnaval de Pernambuco, embora venham perdendo as influências dos rituais do candomblé. Seus integrantes, principalmente homens, passavam por uma preparação espiritual antes dos desfiles, o que já não acontece hoje. A presença da percussão (com atabaques, agogôs e xerês) é essencial, e muitos cantos são na língua nagô.

A programação oficial do carnaval do Recife define vários polos de animação, de acordo como a preferência do folião. No centro, destacam-se: Polo Recife Multicultural (Marco Zero), Polo das Fantasias (Praça do Arsenal), Polo Mangue (Cais da Alfândega), Polo de Todos os Frevos (Avenida Guararapes), Polo de Todos os Ritmos (Pátio de São Pedro), Polo Afro (Pátio do Terço), Polo das Agremiações (Av. Dantas Barreto), Polo das Tradições (Pátio de Santa Cruz). Destaca-se, ainda, o carnaval nos bairros, nos chamados polos descentralizados: Santo Amaro, Chão de Estrelas, Casa Amarela, Nova Descoberta, Alto José do Pinho, Várzea, Ibura e Jardim São Paulo.

Olinda esse meu canto
Foi inspirado em seu louvor
Entre confetes e serpentinas
Venho lhe oferecer
Com alegria o meu amor.
Olinda!
Quero cantar
A ti, esta canção
Teus coqueirais
O teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração
De amor a sonhar
Minha Olinda sem igual
Salve o teu carnaval.

Olinda faz seu carnaval no sobe e desce das ladeiras. Na primeira capital do estado, patrimônio da humanidade e terra dos bonecos gigantes destacam-se os inúmeros artistas plásticos e de artesãos que buscam inspiração ou lá residem. Nas ladeiras e no casario colonial, sua sempre linda vista do horizonte atrai turistas o ano inteiro, particularmente no carnaval. E mais: a partir da virada de um novo ano, Olinda já se transforma para o carnaval. Nessa época, prévias animadas de seus principais blocos e agremiações revezam-se nas semanas pré-carnavalescas. O destaque fica para o desfile das Virgens do Bairro Novo, um dos primeiros blocos de homens travestidos. O Homem da Meia-Noite, fundado em 1932, abre oficialmente o carnaval olindense à zero hora do sábado de Zé Pereira. Considerado o pai dos bonecos gigantes, serviu de inspiração para o artista plástico Sílvio Botelho, que já criou centenas desses bonecos, sendo inclusive o idealizador do Encontro de Bonecos Gigantes em Olinda, tradição, que acontece na manhã da terça-feira nas ladeiras de Olinda, reunindo todos os gigantes em desfile e arrastando milhares de foliões de todas as idades. Destaque para Marin dos Caetés, Vassourinhas, Pitombeira e Elefantes. O bloco Bacalhau do Batata há décadas estica o carnaval para quarta-feira de cinzas, para servir a quem trabalha no período do tríduo momesco; é o pré-cursor do quero mais carnaval, que se espalha cada vez mais nos vários cantos do Brasil. Olinda, enfim, é a cidade que tem o maior carnaval participativo, que se organiza irreverentemente em inúmeros blocos, agremiações, grupos ou eu-sozinho. Basta querer. Os nomes dos blocos, troças e agremiações olindenses merecem destaque pela originalidade e irreverência.

Tem mais que estar nessa
Fazendo misura na ponta do pé
Quando o frevo começa
Ninguém me segura.
Vem ver como é
O frevo madruga
Lá em São José
Depois em Olinda
Na praça do Jacaré
Bom demais, bom demais
Bom demais, bom demais
Menina vem depressa
Que esse frevo é bom demais.

Em Bezerros, ao som de orquestras de frevo, acontece o grande encontro de centenas de papangus. A brincadeira surgiu no início do século passado, quando casados foliões fugiam de casa, escondidos pelas máscaras, para brincar o carnaval. Para manter as energias, comiam angu (comida típica nordestina, à base de milho) na casa de amigos e parentes. Com o passar do tempo, o grupo de papangus foi aumentando, mas o segredo da identificação do folião foi preservado, mantendo-se até hoje. Pessoas de todas as idades divulgam e mantêm a tradição; muitas confeccionam suas próprias máscaras, e Bezerros tem motivo próprio na temática de seu artesanato.

A ciranda é a referência cultural da Ilha de Itamaracá, terra de Lia. Embora a ciranda não seja típica do ciclo carnavalesco, seu ritmo e sua dança marcam presença, tornando-se mais uma riqueza do carnaval de Pernambuco. Para dançar, é só entrar na roda, dando as mãos. Se a roda ficar muito grande, forma-se outra menor, imediatamente.

Comprovando também a multiculturalidade das festas de Pernambuco, é indiscutível a origem indígena dos caboclinhos (ou cabocolinhos), tão marcantes no carnaval de Goiana. Está no figurino, em que penas multicoloridas são usadas em tangas e cocares e em adereços diversos como colares, pulseiras, braçadeiras e tornozeleiras. O grupo de caboclinhos é formado por homens, mulheres e crianças com papéis definidos: cacique, mãe-da-tribo, pajé, matruá, porta-estandarte, perós (meninos e meninas), caboclos-de-baque, cordão de caboclos e de caboclas. Todos passam apressados, em fila, ao som das preacas (arco e flecha). Na exibição, contam com um pequeno grupo de músicos, que toca inúbia (um pequeno flautim de taquara), caracaxá, tarol e surdo. A coreografia consiste em abaixar-se e levantar-se com agilidade, apoiando-se nas pontas dos pés e calcanhares sob a marcação característica das preacas. Canindés e carijós são as tribos de caboclinhos mais antigas de Pernambuco, fundadas em 1897.

O maior encontro de maracatus de Pernambuco acontece na segunda-feira de carnaval em Nazaré da Mata, que recebe por isso o título de “Terra dos Maracatus Rurais”. Grupos de outros municípios, vão até a cidade, lotando caminhões e ônibus e caminhando pelos canaviais da Zona da Mata. Os maracatus rurais recebem outros nomes: maracatus de baque-solto, maracatus de orquestra ou maracatus de trombone. Suas origens e histórias são ainda pouco conhecidas. Acredita-se que surgiram da fusão de folguedos diversos da cultura do interior do estado – em especial da zona canavieira – e foram conquistando espaço e status no carnaval pernambucano. Há neles até mesmo certo sincretismo religioso, quando, antes da saída dos grupos, são feitas homenagens aos orixás. A boneca preta é calçada pela madrinha, isto é, consagrada e batizada com rezas e defumadores. Alguns caboclos de lança e de pena desfilam atuados, isto é, protegidos pelas magias de cultos a Jurema e outras entidades afro-indígenas. O cravo branco ou vermelho preso entre os dentes simboliza esses rituais religiosos. O colorido das fantasias e dos adornos e o som produzido pelos chocalhos são os principais elementos visuais dos maracatus rurais. O personagem mais característico é o Caboclo de Lança, que tem o rosto pintado de urucum e segura uma lança de madeira torneada cuja ponta, aguda e comprida, tem cerca de 30cm. Ele a segura com as duas mãos e movimenta para cima, para baixo e para os lados, afastando a multidão enquanto corre, salta e dança num duelo imaginário. Usa ceroulão (calça de chitão), fofa (calça frouxa com franja por cima do ceroulão), meias de jogador de futebol, camisa de mangas compridas e de cor viva e uma grande gola toda bordada com milhares de lantejoulas e missangas, normalmente confeccionada por quem a usa. O surrão, armado por galhos, sustenta quatro ou cinco chocalhos e marca o ritmo e o andar do Caboclo de Lança. Um lenço é amarrado à cabeça e, sobre ele, um chapéu de palha ornado de fitas de papel celofane multicoloridas ou de uma única cor, muito vistoso, tornando leves os movimentos. Óculos escuros, um galho de arruda atrás da orelha e um cravo branco entre os dentes completam o visual do Caboclo de Lança. Durante a exibição, o maracatu rural evolui rapidamente em círculos em que os Caboclos de Lança correm por fora; as Baianas e Damas de Buquê dançam em outro círculo no interior. No centro ficam o Estandarte, a Boneca, o Rei, a Rainha e os Caboclos de Pena (Tuxaus). Um coro feminino acompanha a orquestra composta por percussão (ganzá, tarol, cuíca, surdo e zabumba) e alguns instrumentos de sopro (gonguê, saxofone, corneta e trombone).

O primeiro bloco de Caiporas saiu em pesqueira, em 1962: homens, mulheres e crianças vestindo terno e gravata, com um enorme saco de estopa na cabeça. O que era motivo de medo passou a ser motivo de alegria e brincadeira. Segundo a tradição, tochas sobrenaturais apareciam em cima das árvores, assustando e pregando peças nos caçadores e seus cães. Para acalmar as assombrações (caiporas) e fazer boas caçadas, muitos deixavam fumo e cachaça nos troncos das árvores, alimentando a lenda.

A rivalidade entre os clubes é a marca de Vitória de Santo Antão; nasce nos desfiles dos carros alegóricos de cada uma das mais de cem agremiações, com suas fantasias luxuosas e continua nos inúmeros bailes, especialmente nos dois principais: o Camelo e o Leão, em que os integrantes agem como torcedores fanáticos, especialmente no domingo e na terça-feira de carnaval, quando acontecem os principais desfiles.

Os caretas são responsáveis pela originalidade do carnaval de Triunfo. Fantasiados e mascarados, os caretas são pessoas de todas as idades que usam chicotes que estalam no ar. Anualmente é realizado concurso que elege o careta mais bem caracterizado.

Além dos maracatus rurais e das cirandas, as Rodas de Coco vêm se incorporando aos festejos carnavalescos de Abreu e Lima.

Ninguém pode resistir
O frevo desses que faz,
Demais a gente se distinguir
Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber
Se você vai brincar
Ah! meu bem sem você
Não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar.

Por esses exemplos, é fácil perceber como o carnaval de Pernambuco é criativo e multicultural; além dos grupos locais, é comum a participação de agremiações visitantes, aproveitando, sempre com animação e originalidade, todos os ritmos do carnaval de Pernambuco, com um colorido especial. Essa diversidade está presente também em Arcoverde, onde se destacam o samba de coco, os bois e o forró. Alguns grupos e artistas têm projeção nacional.

Nada melhor do que finalizar este artigo com os versos de um frevo pernambucano que traduzem a filosofia de vida do povo daqui. Afinal, entre confetes e serpentinas o carnaval de Pernambuco é demais!

Quando a vida é boa
Não precisa pressa
Até quarta-feira
A pisada é essa
Prá que vida melhor
Fale quem tiver boca
Eu nunca vi coisa assim
Oh que gente tão louca.
 

Publicado em 3 de março de 2009