Cultura
Folclore e datas importantes

A história e as histórias de São Sebastião

Karla Hansen

Um mergulho na história

Feriados são dias bem-vindos pela maioria dos trabalhadores e estudantes
— com exceção de alguns comerciantes — porque criam oásis de ócio entre dias úteis da semana, como aconteceu, desta vez, com o feriado municipal de São Sebastião. E para alegria de todos, o dia de sol e a temperatura amena de terça-feira fizeram as honras ao padroeiro da cidade maravilhosa.

Mas além do “bem-bom” do dia ensolarado e livre ou do momento de devoção dos fiéis, no caso de dias santos como esse os feriados têm outra virtude: a de nos conectar com a história.

Nesse sentido, o dia 20 de janeiro nos inspira a dar um mergulho na história de São Sebastião que, à parte os atributos conferidos pela Igreja Católica, foi um dos personagens interessantes do Império Romano.

Oficial cristão nas legiões romanas

Sebastião nasceu na França, no final do século III depois de Cristo, e ainda pequeno mudou-se com a família para Milão, onde cresceu e foi educado sob princípios do cristianismo. Nessa época, a região era dominada pelo Imperador Diocleciano, que, como seus antecessores, perseguia os cristãos por estes serem considerados inimigos do Estado.

Quando jovem, Sebastião se alistou no serviço militar de Roma e tornou-se, em pouco tempo, um dos oficiais prediletos do Imperador e comandante de sua guarda pessoal. Mas, secretamente e valendo-se de seu alto posto militar, Sebastião fazia visitas frequentes aos cristãos que se encontravam presos para serem levados ao Coliseu, em que seriam devorados por leões ou mortos em lutas com os gladiadores, para o puro deleite dos romanos. Com palavras de consolo e de ânimo — fazendo-os acreditar na salvação da vida após a morte, segundo os princípios do cristianismo —, Sebastião ajudava os prisioneiros a enfrentar o martírio que os aguardava.

Mas a fama de benfeitor dos cristãos logo se espalhou e fez com que Sebastião fosse denunciado ao Imperador por um soldado. Diocleciano, que perseguia e expulsava os cristãos de seu exército, foi mais tolerante com o oficial predileto. E mesmo diante de tal traição, o Imperador ainda tentou fazer com que Sebastião renunciasse ao cristianismo. Diante do Imperador, Sebastião não negou a sua fé e foi condenado à morte, sem direito a apelação. Diocleciano, então, deu ordem a seus soldados para o alvejarem com flechadas e depois o deixarem sangrar até morrer. Vem daí a imagem imortalizada do santo, amarrado a um tronco e com o corpo perfurado por flechas.

Mas não é desta vez que Sebastião vai morrer. À noite, algumas mulheres — lideradas por Irene, esposa do mártir Castulo — foram ao lugar da execução para tirar o corpo e dar sepultura a Sebastião. Qual não foi seu espanto ao verem que Sebastião estava vivo! Elas, então, o levaram e cuidaram de suas feridas. Já restabelecido, o determinado Sebastião voltou a disseminar o cristianismo, só que dessa vez sem se esconder. Ao invés disso, ele voltou a se apresentar a Diocleciano para lhe pedir que deixasse de perseguir os cristãos. Ignorando os pedidos de seu ex-oficial, o Imperador ordenou que Sebastião fosse espancado até a morte e que seu corpo fosse jogado nos esgotos de Roma, para que não fosse venerado como mártir pelos cristãos. Era o ano de 287 d.C. e uma mulher chamada Luciana, mais tarde canonizada como Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas.

Quase 400 anos depois, o Imperador Constantino, que entrou para a história por ter se convertido ao cristianismo, construiu uma basílica para abrigar os restos mortais de Sebastião, onde se encontram até hoje. Nessa época, Roma estava sendo assolada por uma terrível peste e conta-se que a epidemia simplesmente desapareceu a partir do translado das relíquias do mártir, que passou a ser venerado como santo padroeiro contra a peste, a fome e a guerra.

São Sebastião no Brasil

A devoção a São Sebastião chegou ao Brasil com os portugueses, que além de devotos do santo eram seguidores da mística que girava em torno de D. Sebastião, rei de Portugal, que morreu muito jovem, numa batalha na África, em 1578. Essa crença dá origem ao Sebastianismo, que não tem nada a ver com a história de São Sebastião, mas sim com D. Sebastião e com uma série de lendas em torno de sua vida e morte, entre as quais a de que o rei não teria morrido e retornaria num dia de nevoeiro para ocupar novamente o trono e fundar um império universal sob a regência portuguesa.

São Sebastião do Rio de Janeiro

Como se sabe, São Sebastião é um santo muito popular no Brasil. Ele é o padroeiro do município do Rio de Janeiro, dando seu nome à cidade, desde sua fundação, por Estácio de Sá (1° de março de 1565). Reza a lenda que, na batalha final que expulsou os franceses que ocupavam o Rio, São Sebastião foi visto de espada na mão entre os portugueses, mamelucos e índios, lutando contra os franceses calvinistas. Além disso, o dia da batalha coincidiu com o dia do santo, celebrado em 20 de janeiro.

Pesquisando mais

A pesquisa sobre São Sebastião nos levou ao Império Romano, à fundação da cidade do Rio de Janeiro e também à guerra do Contestado, pela demarcação de fronteiras entre os estados de Santa Catarina e Paraná, considerado um dos mais importantes movimentos sociais do Brasil, ocorrido entre os anos 1912 e 1916.

Contestado era o nome da região em que ocorreu o conflito e onde já existia uma predileção pela imagem de São Sebastião. Mas foi durante a guerra que São Sebastião passou a ser associado a um Exército Encantado, do qual seria o comandante. Sua imagem foi-se aproximando do cotidiano dos rebeldes. Infundindo confiança na vitória, conferindo poder às ordens dos líderes, São Sebastião e seu Exército representaram, para os rebeldes, a garantia da vitória sobre a "ordem do demônio", representada pelas tropas oficiais do exército brasileiro.

Veja esta canção

No ano de 2000, Gilberto Gil e Milton Nascimento lançaram a canção “Sebastian”, em que associam a imagem castigada do santo padroeiro do Rio de Janeiro à violência urbana que também castiga a bela cidade.

SEBASTIAN

música de Gilberto Gil, letra de Milton Nascimento

Sebastian, Sebastião
Diante da tua imagem
Tão castigada e tão bela
penso na tua cidade
Peço que olhes por ela
Cada parte do teu corpo
Cada flecha envenenada
Flechada por pura inveja
é um pedaço de bairro
é uma praça do Rio
Enchendo de horror quem passa
Oô cidade, oô menino
Que me ardem de paixão
Eu prefiro que essas flechas
Saltem pra minha canção
Livrem da dor meus amados
Que na cidade tranquila
Sarada cada ferida
Tudo se transforme em vida
Canteiro cheio de flores
pra que só chorem, querido,
Tu e a cidade, de amores.

Ponto final

Quem pensava que o melhor de São Sebastião era o dia feriado fica, agora, sabendo que além do ócio (criativo ou não) ou da devoção, o 20 de janeiro é um dia cheio de boas histórias para saber e para contar, que começam na Roma Antiga, atravessam o Atlântico e chegam até os nossos dias!