Cultura
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Carnaval - Século XX

Carnaval - Século XX

A evolução do Carnaval brasileiro

Lorenzo Aldé

Escolas de samba, sambas-enredo e MPB

"No começo não havia samba-enredo, o mais cantado na quadra era o que valia para o desfile", conta o portelense Jair de Araujo Costa, o Jair do Cavaquinho, citado em artigo de Tárik de Souza.

"O começo" a que se refere Jair são os primórdios das escolas de samba. Desde 1928 existia o termo "escola de samba". Ele surgiu quando o bloco Deixa Falar, fundado por Ismael Silva e Bide, entre outros, foi fundado e passou a reunir-se perto da Escola Normal. O Deixa Falar difundiu o samba por vários bairros, e aos poucos a denominação "escola de samba" foi se espalhando por todas as organizações.

Em 1932, o jornal Mundo Esportivo decidiu organizar o primeiro torneio de escolas de samba. O diretor do jornal era Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, importante jornalista esportivo e cujo nome batiza hoje o estádio do Maracanã.

O primeiro desfile aconteceu na praça 11 de junho, pois a avenida Rio Branco já tinha uma agenda cheia no Carnaval, reservada para a passagem dos corsos, ranchos e sociedades. Foram 19 escolas participantes, cada uma podendo apresentar três sambas. A Mangueira foi a vencedora do primeiro desfile de escolas de samba do Rio. O bloco Deixa Falar foi um fiasco, e brigas internas acabaram com a primeira "escola de samba" naquele mesmo ano.

No ano seguinte, o jornal O Globo assumiu a organização do evento, que concedeu o bicampeonato à Mangueira. Mas o destaque foi para o samba da Unidos da Tijuca, que foi apontado como coerente com o enredo, o que leva especialistas a apontá-lo como o primeiro samba-enredo da história.

Os sambas-enredo apresentavam apenas uma primeira parte com letra, a segunda era deixada em aberto pelas escolas, para ser criada na hora do desfile. Aos poucos as composições passaram a ter uma linguagem própria e a ganhar sofisticação musical graças a compositores como Cartola e Carlos Cachaça, da Mangueira, e Assunção e Mano Décio, da Serrinha, que depois viraria Império Serrano.

Reconhecidos pelos grandes intérpretes da música brasileira, os sambas-enredo, através dos anos, ganharam seu espaço e influenciaram as novas gerações:

  • Elis Regina gravou pérolas como Tiradentes, samba-enredo da Império Serrano de 1949, e Carmen Miranda, também da Império Serrano, de 1972;
  • O portelense Paulinho da Viola gravou com Cartola o belo Não quero mais amar a ninguém (originalmente chamado O Destino não quis, composto por Cartola e Cachaça para a Mangueira em 1936);
  • Clara Nunes gravou várias, inclusive Ilu Ayê, de Cabana e Norival Reis para a Portela em 1972;
  • Marisa Monte registrou, em seu primeiro disco, Lenda das Sereias, Rainhas do Mar (Vicente Mattos/ Dinoel/ Arlindo Veloso), samba do Império Serrano em 1976.

... entre muitas outras homenagens.

Mais recentemente, compositores consagrados da MPB prestaram seus tributos ao gênero, como Chico Buarque, que compôs o samba-enredo Vai Passar (1984) e fez diversas canções em homenagem à Mangueira, que o elegeu como tema em 1999. Chico sempre foi um amante da magia do Carnaval, enaltecendo em sua obra as tradições populares da festa, como na marcha Noite dos Mascarados (1966):

Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
Eu sou tão menina, meu tempo passou
Eu sou colombina, eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar,
deixa o barco correr
Deixa o dia raiar que hoje eu sou
da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou,
seja você quem for
seja o que Deus quiser,
seja você quem for,
seja o que Deus quiser

... ou no lindo samba Quem te viu, quem te vê (1966):

Você era a mais bonita
Das cabrochas dessa ala
Você era a favorita
Onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala
Mas a festa continua
Suas noites são de gala
Nosso samba ainda é na rua

Mesmo depois das influências da bossa nova e da Tropicália, a MPB continuou namorando o samba-enredo e reconstruindo os significados do Carnaval.

João Bosco e Aldir Blanc homenagearam o rancho na música O Rancho da Goiabada. O rancho (espécie de marcha mais lenta) foi um dos gêneros que deram origem ao samba, animando os primeiros Carnavais. A dupla criou ainda o samba-enredo O Mestre-Sala dos Mares, eternizado na voz de Elis.

O camaleônico Caetano Veloso compôs animados frevos que embalaram a folia de rua nos Carnavais nordestinos - como Chuva, Suor e Cerveja e Atrás do Trio Elétrico -, foi tema da Mangueira (junto com os outros "doces bárbaros") e gravou o clássico samba-enredo É Hoje:

É hoje o dia
Da alegria
E a tristeza
Nem pode pensar em chegar
Diga, espelho meu,
Se há na avenida alguém mais feliz que eu

Poucos sabem que tanto este sucesso quanto outro, O Amanhã, gravado por Simone (Como será o amanhã/ Responda quem puder / O que irá me acontecer? / O meu destino será como Deus quiser...), foram compostos por um senhor da alta sociedade apaixonado pelo Carnaval:

"O Procurador Federal e advogado Gustavo Adolfo de Carvalho Baêta Neves, morto em 1987 aos 52 anos, encarnou outro caso à parte de fascínio pelo samba-enredo. Com o pseudônimo de Didi (e em muitos casos cedendo a autoria para outros compositores) ele escreveu nada menos de 22 sambas-enredo, entre eles as obras-primas O Amanhã e É Hoje, ambos para a União da Ilha. Foi homenageado pela escola em 1991 através de De Bar em Bar, Didi um Poeta (Franco)", conta-nos Tárik de Souza.

Luiz Melodia e Estácio de Sá, Martinho que tem Vila Isabel até no nome, Nelson Sargento e a Mangueira, Paulinho da Viola e a Portela (e depois a Tradição, fundada por ele e amigos para preservar as raízes azul-e-branco)... nossa música se perpetua ao som de sambas, sambas-enredos, marchas, frevos, bossas e quantas mais variações a inigualável MPB criou, cria e ainda criará.