Cultura
Cinema e teatro

Lições de uma guerra de meninos

Karla Hansen

A Guerra dos Botões" é um clássico do cinema, produzido em 1961 pelo diretor francês Yves Robert, que se inspirou no romance homônimo de Louis Pergaud (1912), sobre as tradicionais rixas entre meninos de bairros vizinhos, num vilarejo francês.

Aqui entre nós, e com sua permissão para abrirmos um parêntese: infelizmente, é bem provável que você não consiga assistir a essa obra-prima no conforto de seu lar. Pelo menos na modesta pesquisa que realizamos, não foi encontrado qualquer vestígio da existência do filme francês em vídeo. O jeito, então, é esperar por uma oportunidade em mostras de cinematecas, do Grupo Estação ou de centros culturais - recentemente, o filme foi exibido numa mostra no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo.

Mas, enquanto essa oportunidade não vem, você pode assistir à ótima versão de "A Guerra dos Botões" dirigida por John Roberts e lançada em 1994 pelos estúdios Warner. O que muda, basicamente, além das cores (o original é preto e branco), é a nacionalidade da produção, que leva o cenário e os meninos para a Irlanda dos anos 50. Mas o melhor do filme, a história, o modo de contá-la e a interpretação das crianças, não fica a dever ao clássico francês.

Eles se dividem em "Ballys" e "Carricks" e, desde sempre, brigam por qualquer motivo, avisa a narradora da história (que faz pequenas participações no início e no final do filme). Seja por um possível comprador de uma rifa que os dois grupos estão vendendo, por causa de um novo e desconhecido xingamento ou porque um dos meninos do grupo rival atravessou a linha que marca o limite entre os bairros.

Nossos "heróis" são os Ballys, mais pobres e mais jovens que os "mauricinhos" Carricks. E por serem os protagonistas, os conhecemos melhor: na escola, na família, e também a personalidade de cada um, em especial o seu líder, Fergus, além da sempre prestativa e levantadora da moral da tropa, Marie, na maioria das vezes, a única menina do grupo.

Mas o que é mais interessante é que logo no início do filme diferenciamos os Ballys dos Carricks por suas armas de combate. Os primeiros usam a inteligência, e seus inimigos, a força. Isso fica evidente quando, durante a primeira grande "batalha", os Ballys capturam "Gorilla", um dos líderes dos Carricks. E, ao invés de castigá-lo com golpes violentos, Fergus corta a gravata do gorducho inimigo, depois tira um a um os botões de sua roupa e os cordões dos seus sapatos. Depois, ele deixa que Gorilla vá embora, sentindo-se humilhado, para "se ver" com seus pais.

Fica, assim, sugerido o que em outras cenas vai se tornando mais explícito: os pais e adultos em geral são severos e o castigo físico contra as crianças é frequente. A pedagogia usada pelo professor dos meninos de Ballys, por exemplo, pode nos soar retrógrada pelo excesso de rigidez e, por essa mesma razão, é um ponto a ser refletido pelos educadores. Cabe lembrar, ainda, que o filme retrata uma pequena população do interior da Europa, nos anos do pós-guerra.

A primeira grande batalha também é a virada da história. Ela representa uma verdadeira declaração de guerra dos Ballys, o momento em que as pequenas rixas ficam para trás, e se estabelece o novo troféu de guerra: os botões do inimigo. A partir de então, os meninos de Ballys se organizam como um exército, adotam um velho galpão como QG em que planejam estratégias de ataque, sempre sob a liderança do brilhante Fergus.

Em toda a ação dos meninos, o que sobressai é a força do grupo, força esta que se alimenta dos valores que os mantêm unidos. Eles têm um objetivo comum, uma liderança justa e princípios de lealdade e igualdade democrática. São e se entendem como uma pequena república. Numa cena no pátio da escola, esses ideais republicanos se exemplificam: o grupo precisa de dinheiro para comprar botões, mas uns têm menos que outros. Os meninos são, então, separados entre os que podem comprar e os que não. Mas, como os que têm dinheiro não querem pagar por aqueles que não têm, eles decidem que todos vão trabalhar para comprar os botões.

Não se preocupe se detalho uma ou outra cena do filme, prometo que não contarei o final. Só que, ao chegar lá, você terá saído diferente, outra pessoa, e, arrisco, melhor, como acontece quando nos vemos diante de um bom espetáculo de arte.

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Ficha técnica do filme:

  • Título: A Guerra dos Botões
  • Direção: John Roberts
  • Gênero: Ficção
  • Produção: França/ Inglaterra/ Japão, 1994

Publicado em 15/1/2004