Cultura
Cinema e teatro

Do sonho à incerteza

Carolina Matta Machado

""Anna dos 6 aos 18" é um documentário em que o diretor russo Nikita Mickhalkov confronta o fim da União Soviética (de 1980 a 1991) à infância e adolescência de sua filha (Anna). É através da narrativa que a menina constrói, que Mickhalkov desenvolve a história da ex-União Soviética, e em cima disso critica, lamenta e participa do desenrolar da história da sua "grande e infortunada terra natal", como define no final do filme.

Inicialmente, o diretor já deixa transparecer seu descontentamento (que sem dúvida também era comum a grande parte da intelectualidade soviética) com a pressão e a censura da era de Brezhnev (além de repressiva, segundo Hobsbawm, em Era dos Extremos, a era de Brezhnev também representou uma época em vigorou a incompetência e a corrupção, onde a URSS operava basicamente por um sistema de patronato, nepotismo e suborno. O governo parecia tapar os olhos e colocar panos quentes nas crises e no declínio que assolavam a economia naquele momento.).

E Mickhalkov pode ser considerado um herói por conseguir filmar, clandestinamente, "Anna dos 6 aos 18". Os rolos de filmes e equipamentos eram conseguidos no mercado negro, a edição precária, mas nada compromete o filme, belo, dolorosamente realista e fundamental.

Como "roteiro", o diretor parte de cinco perguntas simples que foram feitas à sua filha dos 6 aos 18 anos da menina, o que Anna mais amava, o que ela mais odiava, o que mais a amedrontava, o que ela mais queria naquele momento e o que ela mais esperava. Todo ano, ele refazia as mesmas perguntas e, traçando um paralelo entre o crescimento da menina e a mudança das respostas, pôde acompanhar, através dos olhos femininos e infantis de sua filha, a realidade da URSS.

Em 1980, quando ainda tinha apenas 6 anos de idade, Anna respondeu que tinha medo de bruxa, que o que ela mais odiava era uma espécie de sopa que a família tomava (borscht) e que o que ela mais queria naquele momento era um crocodilo.

No entanto, no ano seguinte, as ideias de Anna já tinham mudado - e amadurecido- substancialmente. A menina estava começando a frequentar a escola e como faziam as outras crianças de sua idade começou a integrar uma espécie de liga jovem comunista. A partir daí, suas respostas já não refletiam mais a mesma ingenuidade e sinceridade que costumava ter quando não saía de sua casa e não se preocupava com a questão do direito à propriedade, uma constante para grande parte dos camponeses e pequenos proprietários.

A partir da entrada de Anna na escola e da tomada de consciência do seu pertencimento a uma nacionalidade soviética, passou a ter, como seu próprio pai destacou no filme, o ego tomado pelos ideais socialistas. Assim, não respondia mais o que queria mas o que deveria responder, refletindo a opinião do povo soviético, que agia conforme o "ensinado", o "esperado", já que não reconhecia mais outra forma de governo.

Quando respondeu às mesmas perguntas, aos sete anos, Anna disse que tudo que mais queria era ser inteligente e se comportar bem. No entanto o que ela mais queria era o mesmo que todos - dar boas respostas. O medo de ser diferente atormentava uma juventude que tinha como objetivo (ou melhor era induzida a ter como objetivo) o comunismo. Ser diferente não era a escolha certa.

Durante vários anos, as preocupações, desejos, sonhos e medos da menina espelharam a realidade do país, e mais especificamente, a política soviética. A cada morte sucessiva de um líder (Brezhnev, Andropov e Chernenko), Anna acompanhava e sofria como se concordando que a obrigação de todo povo fosse mesmo sofrer e lamentar a perda daquelas figuras. Quanto a isso, muito apropriadamente, Mickalkov inseriu no filme uma narração em off que lembrou o episódio da morte de Stalin. Segundo o diretor, foi a primeira vez que ele viu crepe preto no espelho: todos estavam sofrendo em sua casa, mas sua mãe não havia chorado, ela permaneceu apenas respeitosa.

Como o filme foi dedicado a mãe do diretor, fica implícita sua identificação com a postura e a época dessa mulher. Para ilustrar a morte de Brezhnev, por exemplo, colocou os soviéticos divididos em dois grupos: os iludidos e quem os iludia.

E foi só quando sua filha respondeu que tudo o que ela mais queria era que o povo se lembrasse do líder morto, que Mickalkov teve a comprovação da força que o Estado estava exercendo sobre Anna, sua "heroína". Entrando na adolescência Anna temia a guerra e desejava a paz.

Crítico do comunismo soviético, o diretor conseguiu colocar sua terra natal como protagonista de um filme. Patriota, evocou as qualidades da Rússia Czarista, enquanto tecia duras críticas ao regime comunista.

Acompanhando a corrida armamentista da década de 80, a chegada ao poder e a abertura proposta por Gorbachev, a Guerra no Afeganistão, e finalmente a queda do regime, o diretor conseguiu demonstrar - do lado de dentro - como foi a época do "Urso soviético vermelho" (que conforme descreveu, ao falar da Olimpíadas, era simplesmente Michka, amigável e oco).

As críticas são exemplificadas e pontuadas por imagens emocionantes. Numa certa parte do filme, por exemplo, ele mostra os membros do Partido cantando os hinos e as canções oficiais e diz "O povo nunca cantava essas canções oficiais, as palavras proféticas do Hino russo."

No final do longa, Anna está com 17 anos e está se preparando para ir estudar num colégio fora do país, então o diretor decide fazer as mesmas perguntas para ela, pela última vez. Eles estão no campo, perto de casa, no mesmo lugar em que o diretor fez as perguntas pela primeira vez, e ao tentar esboçar alguma resposta, a menina chora ao falar de seu país. Decepcionada com o passado histórico e insegura quanto ao futuro de sua terra, Anna não conseguiu evitar o choro.

O diretor então deixa a pergunta no ar: "O que faria uma garota de 17 anos, que não tenha nada faltando em sua vida, chorar ao falar de seu país?". E começa a ensaiar as mesmas perguntas para sua filha caçula, Nadia, para deixar no ar a esperança de um novo começo, menos duro e menos calcado em respostas prontas - para o sistema e para a vida."

Ficha técnica do filme:

  • Título: Anna dos 6 aos 18
  • Direção: Nikita Mickhalkov
  • Gênero: Documentário
  • Produção:

Publicado em 29/10/2002