Cultura
Artes Plásticas

O diário de Frida Kahlo

Marcelo Bessa

Cartas para Diego


Carta para Diego Rivera

É de forma semelhante que atuam as várias cartas escritas no diário para Diego e poucas outras para amigos. O pensador francês Michel Foucault, num ensaio sobre a escrita de si, observou que é na prática epistolar que o narrar de si se desenvolve. As cartas funcionam como um adestramento de si próprio pela escrita, pois, ao escrevermos a alguém, também relemos o que foi escrito. Assim, a correspondência atua tanto no receptor quanto no emissário. E, escritas no diário, as cartas podem oferecer infindáveis leituras já que para sempre estarão gravadas nas páginas particulares do diário. Além disso, Janet Malcolm, jornalista e escritora americana, já observou que uma carta escrita, não enviada e guardada é simbolicamente remetida ao seu destinatário.

As cartas a Rivera são constantes no diário, atravessando os anos. O amor de Frida por ele torna-se mais claro ao lermos as poéticas cartas: Rivera era sua vida. A comparação, que está próxima do lugar-comum e clichê românticos, justifica-se, por exemplo, num trecho de uma das anotações finais do diário: "Anos. Esperando com angústia guardada, a coluna partida, e o imenso olhar, sem caminhar, pelo grande caminho. Movendo minha vida enclausurada em aço. Diego!" (o destaque é de Frida). Na sua tortura física, a luz e a esperança são Rivera.

Esse trecho faz, claramente, referência ao seu estado de saúde. Frida já estava debilitada fisicamente, após sofrer inúmeras cirurgias na coluna - sem sucesso - nos últimos anos, como atesta a referência à "coluna partida", que também é o título de um autorretrato de 1944, em que, no lugar da coluna, tem um pilar de estilo jônico todo partido, e seu corpo, como São Sebastião, crivado de tachas e pregos.


Pés, para que os quero...

Frida explicita, apesar da agonia das dores, sua fé na cura, ainda que remota. Por anos, espera com angústia, mas espera. Essa esperança traduz-se num verso de uma canção preferida que se tornou o seu lema: "Árvore da esperança, mantém-te firme!". Esse verso, aliás, foi o título de uma tela de 1946, na qual há duas Fridas. Uma delas, sob o sol escaldante, sobre uma maca num deserto seco e com o solo cheio de rachaduras, está deitada de lado, com os cabelos soltos, nua e com um lençol branco que cobre parte de seu corpo, no qual se veem dois cortes sangrentos de uma operação na coluna. A outra está no mesmo cenário, só que sob a luz lunar. Sentada na beira da mesma maca, ostentando exuberantemente um vestido vermelho, a outra Frida, saudável e bela, segura um desnecessário colete de coluna numa das mãos e na outra uma bandeirola em que se lê os versos da canção-título.

"E o imenso olhar, sem caminhar pelo grande caminho", escreveu Frida em seu diário, destacando as palavras. Na página seguinte, há um desenho, datado de 1953, que apresenta dois pés até a altura da panturrilha. Deles, saem espinhos diversos, e o pé direito apresenta uma rachadura que o desliga do resto da perna desenhada. Embaixo os dizeres: "Piés para qué los quiero si tengo alas pa' volar" [pés para que os quero se tenho asas para voar]. E são justamente essas páginas que iniciam as anotações e desenhos mais pungentes do diário. Em agosto de 1953, Frida teve de amputar a perna direita até a altura do joelho. Daí, os dizeres angustiados. Mas, além da amputação, seu estado de saúde em geral deteriorou bastante. E é, em urgência e fúria, que inicia, de 1953 a 1954, as anotações mais duras e belas, até a última do diário que é uma carta de agradecimento aos médicos que a operaram. Provavelmente escrita no hospital, assim ela termina: "Espero alegremente a saída - e espero nunca mais voltar - FRIDA". A forma como terminou seu diário, que sugere um duplo sentido, indica a possibilidade de ela não ter morrido de embolia pulmonar, como atesta a causa mortis, mas sim por suicídio em virtude de uma overdose de remédios. 

Para que, então, ler O diário de Frida Kahlo? Para cultuar a dor ou o sofrimento? Com certeza, não. Estranhamente o mal-estar dá espaço a uma outra sensação, mais singela e delicada. Ela vem do reconhecimento de uma artista que soube, de forma magistral, dar forma à sua dor e transformá-la em arte. E esse é um outro motivo que faz seu diário ser bastante curioso. E belo.