Cultura
Artes Plásticas

O diário de Frida Kahlo

Marcelo Bessa

"Yo soy la fragmentación"


Árvor da esperança,
mantém-te firme, 1946

É unânime entre os críticos que Frida fez sua autobiografia por meio de suas telas. Infância, adolescência, maturidade; o casamento com Diego, as separações; as infinitas cirurgias e a dor constante; sua família e sua ascendência. Tudo está nas telas. "O corpo é o templo da alma. O rosto é o templo do corpo. E quando o corpo decai, a alma não tem outro santuário a não ser o rosto", escreveu Carlos Fuentes. Segundo a lógica poética do escritor, era esse um dos motivos para tantos autorretratos da pintora. Mas, em relação ao seu diário, Hayden Herrera, autor da extensa biografia da pintora publicada na década de 80,Bibliografia vê uma diferença entre Kahlo e outros autobiógrafos e escritores de diários: talvez ela quisesse dar ao fragmentado, ao caótico, e ao efêmero uma completude, ordem e permanência.Bibliografia

Mas são o caos e o fragmento que imperam na vida, no corpo e no diário de Frida: "Yo soy la desintegración", escreveu ela. Poucas datas existem no diário, e são essas poucas que permitem que caderno da pintora seja chamado de diário. A cronologia esperada de um diário desaparece quase que completamente. Fugir do tempo cronológico parece ter sido intencional. O tempo que passa também é o tempo em que seu corpo, cada vez mais agredido por intervenções cirúrgicas, vai definhando. Apagar os vestígios de Cronos, o deus-tempo devorador de seus próprios filhos, é uma forma de enfrentá-lo e combatê-lo.

Ligado, intencionalmente ou não, aos princípios surrealistas, o diário abandona o racional, o consciente manipulável para se render aos delírios e sonhos. A parte educada da mente é posta de lado, tanto nos desenhos como nas palavras. Os primeiros escritos do diário são palavras soltas que cobrem algumas páginas, como se fossem um longo poema da vanguarda moderna. E são as palavras que dominam as páginas iniciais do diário: os "poemas" e líricas, apaixonadas e alucinadas cartas a seu marido, o pintor e muralista mexicano Diego Rivera.

Frida, em seu diário, também se apropria de frases e sentenças alheias, que, de certa forma, significavam algo para ela e permitiam-lhe o preparo e a observação interior. Um dos exemplos é a transcrição dos versos iniciais de "Die moritat von Mackie Messer" [A canção de Mac Navalha], de Bertold Brecht e Kurt Weill, de A ópera dos três vinténs, a que provavelmente assistiu nos Estados Unidos e deve ter impressionado-a bastante. Desse modo, a apropriação de sentenças, frases e poemas alheios parece ter ajudado Frida na "composição" de si própria e também no adestramento de seu desespero físico e emocional.