Cultura
Artes Plásticas

O diário de Frida Kahlo

Marcelo Bessa

Toque de voyeurismo


Capa do diário publicado
de Frida Kahlo

Em 1995, houve o lançamento, nos Estados Unidos, de O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo (no Brasil, foi publicado no mesmo ano pela editora José Olympio). Esse diário é bem curioso. Escrito nos últimos dez anos da vida da pintora (1944-1954), ele foge um pouco do que se espera de um diário. Sarah Lowe, comentarista da edição, afirma que ele é "uma expressão profundamente pessoal de seus sentimentos, e ela jamais o escreveu pensando em publicá-lo". E continua: "O diário de Kahlo pertence, desse modo, ao ramo do diário íntimo, um registro pessoal que certa mulher escreveu só para si mesma". Mas o formato que se espera de um diário íntimo inexiste - ou existe apenas parcialmente - no texto de Frida. Nele, não há lugar para as banalidades do cotidiano, para as aparentemente insignificâncias da vida, tampouco para "revelações". É mais um caderno de anotações, onde a pintora liga desenhos e esboços feitos com os mais variados meios (lápis, aquarela, guache etc.) a poemas e algumas cartas líricas. Por isso, aproxima-se, também, dos diários "artísticos".

Em relação à motivação do leitor, há alguma diferença? Sarah Lowe aponta que ler o diário íntimo de Frida é "um ato de transgressão, um empreendimento com inevitável toque de voyeurismo". No entanto, não é só a leitura de um diário íntimo - de Frida ou de qualquer outra pessoa, até o mais comum dos mortais - que apresenta essa transgressão. A leitura de todo e qualquer diário (íntimo ou literário) é um ato transgressor em que o voyeurismo impera. Um bom exemplo é a grande vendagem do diário de Frida. Para um público leitor que desconheça sua biografia ou sua obra, o diário deixa um pouco a desejar. Os elementos biográficos estão dispostos aleatoriamente, e os desenhos nele não são tão belos, bem-feitos e pungentes como suas telas, e isso impede que o leitor neófito em relação ao universo artístico e biográfico de Frida consiga apreendê-lo. Além disso, pouco há do cotidiano da pintora, ou seja, o texto foge do que se espera de um diário em sentido estrito. Se fosse lançado com o título de Caderno de anotações e desenhos de Frida Kahlo talvez não tivesse provocado tanto interesse no público. Certamente, a palavra "diário" é uma boa isca para leitores.

Mas, além do pacto voyeur existente em toda leitura de diários, há algo a mais na fascinação pelo diário de Frida. Escrito nos dez últimos anos de sua vida, o diário acompanha também seu declínio físico. Todas as mazelas físicas vividas por ela - e que foram retratadas em suas telas - estão fragmentadamente fixadas lá, com um dado a mais: o imediatismo da transcrição de um fato ou de um determinado sentimento que só um diário é capaz. Se, nas telas, essas mazelas eram trabalhadas e apuradas por meses ou anos, elas são, no diário, expressas sem muito apuro e no momento exato. A dor da carne é transposta para o papel imediatamente. Talvez, mais do que um voyeurismo por parte dos leitores, haja também um leve sadomasoquismo, no qual a visão da dor extrema é conjugada com o mais fascinante e prazeroso espetáculo.

Mas essa mistura de dor e prazer, horror e beleza, também é uma tônica de suas telas. Sobre o horrível desastre sofrido por Frida aos 18 anos - o qual seria responsável por muitos dos sofrimentos físicos posteriores -, Carlos Fuentes escreveu:

Em setembro de 1925 um bonde chocou-se com o frágil ônibus em que ela se encontrava. Frida quebrou a coluna vertebral, uma clavícula, várias costelas, além da pélvis. Sua perna atrofiada [pela pólio] sofreu 11 fraturas. Seu ombro esquerdo ficou para sempre deslocado, enquanto um dos pés tinha ossos esmagados. Um pedaço do delgado corrimão do veículo penetrou em suas costas e foi sair na vagina. Curiosamente, o mesmo impacto que deixou Frida nua e ensanguentada também cobriu-lhe o corpo com uma camada de ouro em pó que escorreu pelo rasgão de um pacote conduzido por um artista: haverá algum retrato de Frida mais terrível e mais belo do que esse?

A paradoxal descrição - dura e poética - do acidente de Frida traduz-se também nas telas da artista, que tanto seduzem o público. A beleza das telas surge da representação do próprio corpo macerado da artista. Nelas, há pescoços com coroas de espinhos, fetos abortados, corações sangrando e ossos fraturados, corpos cortados e desmembrados. Imagens simbólicas? Sim, com certeza, mas muito do que lá está faz parte da biografia da pintora. E é essa mistura do artístico-simbólico com o real e o vivido que tanto fascina o público.