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Sobre alunos digitais e professores analógicos

Juliana Maria Carvalho

Professora e redatora

Introdução

De um lado, alunos plugados, hiperconectados, com seus iPhones e smartphones nas mãos, baixando aplicativos, músicas, conversando em redes sociais com a mesma desenvoltura (ou até melhor) do que numa conversa ao vivo em grupo. De outro, professores tentando se integrar a esse mundo virtual, principalmente para compreender sobre o que seus alunos falam e por que dedicam tanto tempo aos seus telefones.

Foi Marc Prensky, em um artigo publicado em 2001, quem inventou o termo “nativos digitais” para designar aqueles que já cresceram cercados por tecnologias digitais. Em contraposição, Prensky criou também o termo “imigrantes digitais”, referindo-se àqueles que têm dificuldade em deixar antigos métodos para trás. Exemplos disso são imprimir e-mails ou não usar a internet como primeira fonte de informação.

Ainda que o uso desse tipo de metáfora seja perfeitamente discutível, creio que seja útil falar um pouco sobre esses dois termos para ilustrar um espaço de oportunidades que se esconde atrás da aparentemente crescente desconexão que se produz entre alunos digitais e professores analógicos em plena orgia da conexão, o que é uma característica própria da nossa sociedade atual.

Avaliando a educação nos tempos atuais, temos a impressão de que as últimas mudanças geracionais, marcadas pelo explosivo desenvolvimento tecnológico, não foram suficientes para modificar nosso sistema educativo, ancorado na era industrial para a qual foi criado.

Lamentavelmente, apesar dos inúmeros conceitos que podemos encontrar frente à denominação um tanto duvidosa de “inovação educativa”, não parece que a aplicação sem critério das infotecnologias e dos modismos cujas iniciais são e-, m-, b-, x-learning, seja suficiente para trazer qualidade à educação. Pensar assim é uma consequência equivocada criada pelo pensamento “logue-se para tudo”. Uma integração efetiva e eficiente dessas tecnologias deveria conduzir a uma situação em que só necessitemos falar de aprendizagem analógica e digital, presencial e virtual durante um tempo, na proporção de cada caso abordado em sala de aula.

Todo discurso tecnológico sobre a mudança de versão da web para Web 2.0 não deveria nos afastar do que sem dúvida pode constituir uma oportunidade para dar um salto qualitativo no uso educativo das tecnologias web. Se quisermos seguir utilizando os mesmos termos e, assim, falarmos de Universidade 2.0, devemos começar pondo em contexto a emergência desse fenômeno que conhecemos como Web 2.0 mais além de sua aparente face tecnológica, para relacioná-lo com o panorama universitário.

Vou tentar esclarecer algumas ideias com a intenção de ajudar aquelas pessoas que queiram articular qualquer tipo de projeto de mudança no âmbito da educação superior, e que se apoiem em um uso intensivo das infotecnologias, especificamente aquelas que se associem à Web de Nova Geração (WebNG), que é hoje a Web 2.0. Minha intenção é articular essa reflexão como um brevíssimo ensaio que, depois de pôr em contexto toda a excitação associada à Web 2.0 como fenômeno midiático, descreva as vertentes organizativas e técnicas que mais diretamente podem incidir sobre as possibilidades de êxito daqueles projetos para, finalmente, terminar formalizando os desafios que se mostram como oportunidades verdadeiras.

Um passo para entrar na rede

A Web 2.0 se manifesta como um fenômeno sociotécnico de natureza multifacetada que ainda está em evolução. Apesar de a educação ter ficado inicialmente de fora do impacto midiático causado pela mudança de versão para Web 2.0, já se fala com certa naturalidade de Educação 2.0, Universidade 2.0 e Learning 2.0, da mesma maneira que ocorre com a Empresa 2.0: uma série de aberrações linguísticas que se unem ao que podemos chamar de ”maldição do logue-se”.

É importante fazer notar a natureza emergente da Web 2.0. Falam que o software social é a primeira revolução no universo da engenharia de software que não se planejou. Não foi desenvolvido por engenheiros. Da mesma forma, é importante pôr em contexto a natureza fenomenológica desse processo emergente. Não devemos esquecer que a Web 2.0 não deixa de ser um passo a mais no processo evolutivo do que não é mais que a parte mais visível da rede, a web.

Trata-se de uma web que caminha em direção a uma Web de Nova Geração (WebNG), que, por definição, está sempre por vir, é um futuro inacabado, “em beta permanente”, tal como reza o lema da Web 2.0. Uma web que pertence a uma nova geração de infocidadãos, uma série de ondas sucessivas de nativos digitais que seguem a geração da rede, e que não somos nós.

Modelos educativos e formas de aprendizagem

A invasão súbita de blogs, wikis, redes sociais etc. como ferramentas no âmbito educativo, trazendo consigo as promessas de maior capacidade de interação com um usuário final que se encontra, em sua maioria, sob a definição de nativo digital fez ressurgir um monte de tópicos recorrentes das teorias sociopsicológicas da aprendizagem.

Associamos os conceitos do construtivismo e do sociointeracionismo às funcionalidades das novas ferramentas da Web 2.0, o mesmo que em momentos anteriores se fazia com as possibilidades oferecidas pelos computadores pessoais e depois pela própria Internet.

A interminável sucessão de diferentes ondas de “gerações” digitais por trás do conceito inicial de geração web se encontrou com a revitalização das investigações no terreno de redes complexas, assim como no campo das neurociências, animando alguns analistas e pesquisadores de todo tipo, além dos habituais “gurus cibernéticos”, propondo algumas ideias mais ou menos úteis ou provocativas. Além disso, sempre se pode falar da aprendizagem informal, aquela que não está formalizada em um curso, uma comunidade ou grupo temáticos. Afinal, o conteúdo exposto na web está aí para quem quiser ver.

Plataformas institucionais e ferramentas pessoais

A gestão profissionalizada das infotecnologias nas instituições educativas tem feito com que se generalize a existência de plataformas para a gestão de sistemas de informação que apoiam o processo educativo.

Esses sistemas se converteram em uma das principais barreiras para a integração no entorno institucional da onda de plataformas, serviços e ferramentas próprias da Web 2.0 e que os estudantes encontram de maneira natural como usuários de Internet.

O ritmo de adaptação das plataformas organizativas não está, nem de longe, à altura dos requisitos de alguns aprendizes que cresceram em uma cultura de velocidade e imediatismo.

Gerir essa adaptação não será, portanto, um problema de resolução simples. Essa é outra frente aberta que podemos converter em oportunidade se formos capazes de seguir no ritmo da dinâmica web, interagindo com a infotecnologia, dessas pessoas, que são os alunos matriculados em nossas instituições. Esses aspectos, introduzidos aqui apenas superficialmente, constituem algumas das chaves para entender uma situação verdadeiramente complexa que ameaça claramente a atual dinâmica de muitos setores econômico-empresariais, incluindo o âmbito institucional da educação, que se aproxima muito da aprendizagem organizativa. O conhecimento se transformou no recurso mais importante na empresa, acima claramente do capital, o que gera a impossibilidade de associá-lo com o conceito de gestão. “As organizações estão dispostas a se adaptar ao modelo que lhes exige o conhecimento, a aprendizagem e a inovação? Necessitamos de outros tipos de organizações e de pessoas que se façam perguntas e não tenham medo de fracassar”. Insistindo no que chamei no início do texto de “orgia de conexões”, lembro de que, sem dúvida, ela facilita nossa vida atual – e aqui destaco essa Web Social como evolução até uma WebNG, parte mais visível de uma rede que reúne os membros de uma sociedade da informação e, com sorte, algum dia, do conhecimento – deveria servir para recordar “um espaço virtual de oportunidades” que, entre todas, devemos realizar.

A etapa que vivemos e, sobretudo, a superfície blogosférica em que muitos nos movemos diariamente apenas começou a demonstrar essas possibilidades. A maioria das iniciativas organizativas e institucionais em andamento já nasceu fracassada, infelizmente. Isso não significa que temos que deixar de promover a experimentação e a “novidade”; o que devemos fazer é pôr todas essas experiências em contexto.

Não basta usar um wiki para que uma equipe de trabalho colabore; usar um blog para comentar os apontamentos da turma não é suficiente para considerá-lo parte integrante de uma experiência educativa e falar de um edublog; ter mais conexões em uma rede social não implica que tenhamos melhorado nossas capacidades de relação social. A inteligência coletiva não funciona de forma eficaz reunindo informações dispersas em um receptáculo comum – como a Wikipédia – da mesma maneira que a conversação não vai emergir da adição de vozes individuais incoerentes que proveem de uma organização ou de esquemas mentais anacrônicos.

Isso não significa que o fato de dar voz a quem não a tem com certa periodicidade cidadã e/ou participação política não seja útil, assim como é importante promover um conceito de “pró-comum criativo”, chave para uma “economia do conhecimento”, que define uma situação conectada em que o recurso a gerir não só não é um recurso, tampouco é escasso.

Um exemplo ilustrativo é um livro-blog (iblog ou blook). É óbvio que, da produção coletiva de um conjunto de autores, por mais brilhantes que estes possam ser, não surgirá uma obra que se possa considerar, em seu conjunto, uma totalidade brilhante. E isso continuará acontecendo porque sabemos que os autores não têm um “cérebro 2.0”. Seguem sendo imigrantes digitais, nos termos de Prensky. O mais relevante dessa experiência será a dinâmica que se tem gerado na rede para a construção de uma obra coletiva, demonstrando as possibilidades em um dos muitos âmbitos, o editorial, de forma que, na superficialidade de nosso discurso, vamos seguir chamando as tecnologias de Web 2.0. Essas são algumas possibilidades que deveremos comunicar adequadamente a organizações e pessoas em todos os níveis, nesse e em outros setores, com o tempo e o ritmo que requeira uma mudança efetiva, duradoura, sustentável. O que vamos fazer no âmbito da Educação Superior, por exemplo? É necessário construir uma visão compartilhada de uma universidade renovada que deveria fugir da retórica de mudança de versão.

Seja o que for, essa renovada universidade, essa universidade reinventada não nascerá das mudanças administrativas/organizativas derivadas do panorama político ou do impulso de gerações diferentes de aprendizes que demandam instituições à altura de sua própria circunstância digital. Nascerá em um entorno sociotécnico complexo que contemplará essas duas dimensões e algumas mais. Não haverá o “um”, e sim o outro. Logo, essa visão compartilhada, sine qua non para um processo de gestão da mudança com êxito, vai necessitar de um enfoque holístico, sistêmico.

Não bastará essa visão; vamos ter que seguir promovendo ações alheias que englobem todos os níveis, oferecendo-lhes certa coerência contextual. Devemos utilizar as ferramentas e serviços gratuitos da web externos ao âmbito organizativo para respaldar as iniciativas, ainda hoje individuais, no que se refere à introdução do software livre e suas potencialidades nas instituições educativas; porém não devemos esquecer que o cenário institucional deve considerar uma série de plataformas tecnológicas que suportam a sua operação, cuja evolução é necessária e tem seus próprios condicionantes. Também não podemos negar a realidade administrativa do processo educativo e sua regulação normativa baseada majoritariamente em uma avaliação somativa e de acreditações.

No caso concreto da universidade, além do aluno e do professor, temos outro espaço de atuação interessante: a investigação. Este âmbito, que se converte na base para a formação de futuros educadores, apresenta uma dinâmica muito distante de sua suposta razão de ser, a geração e compartilhamento de conhecimentos. É um âmbito apoiado de fato na ocultação de informação que é um enorme beneficiário potencial da conectividade e capacidade de comunicação exibidas pelas infotecnologias da Web 2.0. Trata-se, de alguma maneira, de usar essas tecnologias não apenas para a divulgação científica, mas também para integrar disciplinas, projetos de pesquisa em diferentes estados e trocar informações que auxiliem na investigação.

Conclusão

A oportunidade que se apresenta a nós é fenomenal. Da mesma maneira, os desafios são também colossais. Como sempre, a decisão está em nossas mãos. Podemos seguir ancorados em nossas organizações pré-industriais e ver como essa onda passa por cima de nós. Também podemos deixar nos levar pelas inovações apoiadas na superficialidade de um fenômeno que ameaça rememorar desastres passados e uma intelectualidade irreflexiva construída com aforismos fora de contexto. Em ambos os casos poderemos fracassar.

O entorno que temos que manejar é complexo, as infotecnologias cujo uso reivindicamos em busca da simplicidade e a inclusão do cidadão médio também são cada vez mais complexas, o mesmo que suas inter-relações com o tecido social. Qualquer aproximação com um grau menor de complexidade estará fadada ao fracasso, em qualquer âmbito. Neste breve artigo só quis introduzir alguns pontos de reflexão úteis acerca de uma possível aproximação de um âmbito, o da Educação Superior. Ainda assim, minhas considerações pretendem ser o mais genéricas que as circunstâncias me permitem. A intenção é não só sua utilização pelo maior número de pessoas possível, na maior variedade de âmbitos que se queira, e sim insistir também na natureza não específica da mudança que estamos vivendo.

No caso concreto da universidade, quis ressaltar alguns dos itens em que se poderia planejar uma mudança mais ou menos eficaz, como são os da inovação tecnológica e as plataformas institucionais frente aos contextos pessoais e os dos novos modelos de aprendizagem-educação que surgem em um entorno hiperconectado.

Uma mudança que se pode iniciar ou incitar mediante ações em todos os níveis, contemplando um cenário em que se deve incluir estudantes, educadores, pesquisadores etc. e sua interação com os entornos pessoal/familiar e laboral/empresarial, cuja dinâmica ajuda a compor um contexto sociotécnico, insisto, cada vez mais complexo, em que não cabe aceitar soluções simplificadoras sem critério que nos levem ao simplismo mais vazio – ao que, infelizmente, estamos habituados.

Publicado em 19 de fevereiro de 2013