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Diversão Trabalhosa (Hard Fun)

Por Seymour Papert

(TraduÁão: Leonardo Soares Quirino da Silva)

Com as discussões sobre qual computador será adotado no projeto Um Computador por Aluno do governo federal, as reflexões e práticas pedagógicas de Seymour Papert ganham nova relevância no Brasil. Elas foram o ponto de partida para o projeto One Laptop Per Child (OLPC).

O matemático sul-africano e professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, em inglês) foi a primeira pessoa a ver as possibilidades que o computador oferecia para a educação. No final dos anos 1960, quando trabalhava em pesquisas sobre Inteligência Artificial, ele começou a defender o uso da informática em sala de aula. Foi nessa época que, em parceria com Wally Feuerzeig, ele desenvolveu a linguagem Logo, cujas variantes ainda se encontram em uso em escolas em todo o mundo. Ainda nesse campo, ele desenvolveu com a Lego o Mindstorm, um jogo que permite a criação de robôs e mecanismos automáticos.

Na pedagogia, o professor foi discípulo de Jean Piaget com quem estudou entre 1958 e 1963. Nesse período, ele deu duas contribuições. A primeira foi ter chamado a atenção de Piaget para uso da matemática como instrumento para entender como as crianças pensam. A segunda foi o princípio que leva seu nome – Princípio de Papert – que afirma que “alguns dos passos mais cruciais no crescimento mental estão baseados não em simplesmente adquirir novas habilidades, porém em adquirir novas formas administrativas de usar o que já se sabe”.

Com base no construtivismo, o professor do MIT propôs uma nova teoria para a aprendizagem, o construcionismo. Esta abordagem parte da ideia de que a forma mais efetiva de as pessoas adquirirem um novo conhecimento é quando elas participam desse processo e não quando se tenta “implantar” uma informação em sua mente.

Parte de seus esforços tem sido no sentido de transformar a escola de acordo com sua linha teórica. Para explicar a diferença entre o que propõe e as propostas de reforma do sistema educacional que preconizam o sentimentalismo, a diversão e a facilidade, ele escreveu este artigo, que saiu primeiro no jornal da cidade onde mora e depois em seu site.

Recebo muitas críticas de pessoas que leem esta coluna (e outras coisas que escrevo) como se estivesse advogando para tirar o trabalho duro e a disciplina da aprendizagem. Não os culpo. Sou um crítico das formas pelas quais a escola tradicional força as crianças a aprenderem e a maioria das tentativas de introduzir um currículo mais atraente, menos coercitivo, de verdade terminam por tirar as ganas de aprender. Porém não é justo culpar-me por associação. Toda a minha carreira na educação foi devotada a encontrar formas de trabalho que usem a paixão do aprendiz no árduo trabalho necessário para dominar material difícil e para adquirir hábitos de autodisciplina. Contudo, não é fácil encontrar a linguagem certa para explicar como penso que sou diferente das abordagens para educação do tipo “emocione, divirta, facilite”.

Voltando à metade dos anos de 1980, um aluno de primeira série deu-me uma pérola linguística que ajuda. A Gardner Academy (uma escola primária em um bairro desprivilegiado de San José, Califórnia) foi uma das primeiras escolas a ter computadores suficientes para que seus alunos estivessem com eles um tempo significativo todos os dias. Sua introdução, em todas as séries, foi para aprender a programar na linguagem Logo, em um nível adequado. Um professor escutou um dos alunos usar essas palavras para descrever o trabalho com computadores. “É divertido. É trabalhoso. É Logo”. Não tenho dúvidas de que esse garoto chamou o trabalho de divertido justamente porque era difícil.

Uma vez despertado para o conceito de “diversão difícil”, comecei a ouvi-lo de novo e de novo. Ele é expresso em diferentes formas, todas as quais se resumem na conclusão de que todos gostam de fazer coisas desafiadoramente difíceis. Porém, elas têm que ser as coisas certas adequadas aos indivíduos e à cultura da época. Estes tempos que mudam rapidamente desafiam os educadores a encontrar áreas de trabalho que são difíceis na forma certa: eles têm que estar conectados às crianças e também à áreas do conhecimento, à habilidades e (não esqueçamos) à ética, que os adultos precisarão no futuro.

Escrevi aqui (nesta coluna) sobre adolescentes em uma unidade correcional do estado do Maine superando sua longuíssima aversão a qualquer tipo de aprendizagem escolar ao lhes ser dada a oportunidade de inventar e construir máquinas e robôs sofisticados. Fazer isso requer concentração e disciplina. Requer aprender a lidar com coisas que deram certo para encontrar como resolver o problema ao invés de desistir frustrado. E para alguns desses garotos significou experimentar, pela primeira vez, o prazer de escrever porque eles foram encorajados a escrever sobre algo que estavam fazendo e fazendo com paixão.

A expressão “prazer de escrever” me faz parar. Neste exato momento escrever não é de todo agradável. O bater do relógio diz-me que o prazo está acabando, o que me frustra. Estou sofrendo com a dor de ter que jogar fora todo um parágrafo porque “não ia funcionar”, muito embora tivesse uma frase com a qual estivesse apaixonado. Portanto, talvez “prazer” não seja bem a palavra certa. Tampouco “diversão”. Nós precisamos de um termo melhor para isso e talvez o aluno do primeiro ano primário de San José tenha dado a melhor de todas. Estamos falando aqui sobre um tipo especial de diversão, a “diversão trabalhosa”.

Como fazemos para que escrever se torne uma diversão trabalhosa? Uma forma é desenvolver para as crianças atividades “escrevíveis” que elas adorem fazer. A construção de robôs adquire “escrevibilidade” porque permite uma descrição passo a passo. Sua “escrevibilidade” é aperfeiçoada ainda mais pelo uso de processadores de texto e câmeras digitais. Porém, além da tecnologia, há a atitude na cultura da aprendizagem. Um exemplo do que quero dizer foi-me trazido por um professor que recusou a ideia de que as crianças devem poder escrever sobre o que gostam. “Quando forem trabalhar terão que fazer o que lhes for dito”. Aqui está a origem do fracasso de muitas crianças em aprender a ler e escrever. Naturalmente devemos ensinar às crianças a ter o autocontrole necessário para cumprir ordens. Contudo, ao se confundir aprender essa capacidade com aprender a escrever, frustra-se os dois propósitos.

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Publicado em 13/02/2007