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O compromisso social das escolas públicas com as novas tecnologias da comunicação e da informação

Maria Licia Torres

Mestre em Educação pela Universidade Estácio de Sá

Este texto é uma breve reflexão sobre o compromisso social das escolas públicas num mundo globalizado. Pretende destacar a importância das novas tecnologias como uma grande aliada no processo de construção de conhecimento. Como as escolas, os professores conseguem rever e alterar seus métodos tradicionais de ensino, rompendo com modelos preestabelecidos de autoritarismo, enraizados durante séculos em sua história institucional e de vida. A perspectiva de mudar esses paradigmas neste mundo cheio de conflitos e incertezas é apresentada como desafio para o ensino contemporâneo.

Introdução

Atualmente, nada mais é desafiador, para os educadores envolvidos na formação de professores para a educação infantil, das séries iniciais e dos cursos de Pedagogia, do que a discussão sobre o compromisso social da escola pública com as novas tecnologias da comunicação e da informação, já que a sociedade ocidental vive hoje a chamada "crise de paradigmas".

Moraes (2000) define paradigma como "modelo, padrões compartilhados que permitem a explicação de certos aspectos da realidade. É mais do que uma teoria e implica uma estrutura que gera novas teorias. É algo que estaria no início das teorias" (p. 31).

Para Morin (1990), entretanto, um paradigma significa um tipo de relação muito forte, que pode ser de conjunção ou disjunção, que possui uma natureza lógica entre um conjunto de conceitos-mestres, reafirmando que "comporta um certo número de relações lógicas, bem precisas, entre conceitos; noções básicas que governam todo discurso" (p. 287).

Isso quer dizer que não importa qual a definição correta da palavra, mas sim que atualmente, com a crise de paradigmas, falar de uma escola num mundo globalizado, que invade a sociedade em geral, requer, sobretudo, analisar esse novo perfil de educador para a nova geração de aluno que aí está, em uma era de comunicação e informação, na qual há uma grande competitividade e complexidade marcadas por transformações aceleradas que ocorrem da noite para o dia em questões de segundos e de forma imediata.

Entretanto, apesar de todas essas mudanças, os professores continuam enfrentando os mesmos problemas passados, acrescentados aos conflitos atuais em decorrência destas rápidas e profundas modificações sociais, culturais e econômicas.

Essa categoria de profissionais vive hoje, principalmente nas escolas públicas, num cenário de incertezas e dificuldades que os atingem por todos os lados, destacando-se os baixos salários, as condições materiais precárias, a correria em trabalhar em várias instituições ao mesmo tempo para garantir a sua sobrevivência, fatos estes que vêm se acumulando ao longo da história da educação.

Somada a esta realidade surgem, com as tecnologias, outras dificuldades, destacando, entre elas, a indecisão de saber como trabalhar com alunos tão diferentes econômica ou socialmente, numa sociedade fragmentada e desumanizada, além de ter que conviver com o medo e/ou a negação, por não saber utilizar os meios tecnológicos e romper com modelos predefinidos e sólidos desde a sua formação.

A partir dessas reflexões, pretende-se entender e compreender o compromisso social da escola neste contexto, como produtora de conhecimento e formadora de futuros cidadãos.

Para buscar o aprofundamento dessas reflexões a respeito do tema, remetemos a uma pesquisa realizada em quatro escolas públicas do município do Rio de Janeiro. Para isso, delimitou-se o objeto de estudo à definição do trajeto teórico-metodológico pretendido no estudo. Assim, foi traçado um caminho que prioriza a discussão sobre as vantagens e as implicações das novas tecnologias nesses espaços institucionais.

Análise dos achados encontrados nas entrevistas

Na pesquisa que deu origem a este texto, participaram 28 professores que foram entrevistados nos espaços nos quais eles desenvolvem seu trabalho. Entre os referidos participantes, estão diretores, professores alfabetizadores e professores atuantes nas salas de leitura pólo que trabalham no laboratório de informática educativa. A investigação colocou em relevo a escuta desses informantes, ou seja, seus pontos de vista, por meio de entrevistas semiestruturadas e gravadas com a concordância dos participantes.

As observações e discussões realizadas se deram a partir de suas práticas docentes no contexto da sala de aula e do laboratório com as novas tecnologias da informação e comunicação.

Dos 28 professores entrevistados, nove atuavam diretamente com os computadores disponíveis nas escolas em todos os segmentos. O período de busca de dados para a pesquisa se deu durante um ano letivo (março de 2001 a março de 2002). Foi analisado, ainda, o projeto da Secretaria Municipal de Educação a respeito da implantação dos laboratórios de informática nas escolas selecionadas por fazerem parte das 30 escolas pólos do município do Rio de Janeiro, delimitando o processo de alfabetização como o enfoque principal para uma análise de conteúdo dos dados coletados.

Após analisar esses dados e transcrever as respostas dos participantes na pesquisa, apareceram quatro temas relevantes na investigação realizada. O primeiro foi ligado às dificuldades na escola, nele os professores manifestaram sua insatisfação com a escola de hoje, comparando-a com a de antigamente. Atualmente, para eles, a sociedade, oferece recursos que atraem as crianças como a televisão, o videogame e outros aparelhos eletroeletrônicos, levando-as ao desinteresse pelas atividades propostas no cotidiano escolar. Na fala transcrita a seguir, percebe-se claramente as dificuldades do professor decorrentes dessa questão:

A escola era diferente. A escola era um lugar maravilhoso para a criança ir, porque não tinha quase nada na vida. Hoje não. Há diversão, há televisão, há tudo. Então, a escola não é uma coisa muito atrativa. Então, a escola era muito diferente e eles aprendiam.

Nesse sentido, Patto (1999, p. 134) alerta para o fato de que, na escola, parece que o tempo não passa, apesar das boas intenções proclamadas pelos políticos e dos esforços que são desempenhados pelos pesquisadores e educadores preocupados com os problemas do ensino público.

Há momentos em que a história se acelera. Seguramente, estamos atravessando esse momento com a chamada globalização. Neste contexto, é importante olharmos para o processo de ensinar. Os professores, mais do que ninguém, possuem a incumbência de criar as sociedades de informação para este novo século. Com tantas exigências, precisamos estar atentos aos docentes, nestes tempos de incerteza, contradições e aceleradas mudanças, visto que se tornam mais vulneráveis a todo tipo de perigos e ameaças, apontando-se como principal a desvalorização de seu importante compromisso para a sociedade.

O segundo tema da pesquisa aborda as contribuições da informática, e surgem depoimentos gratificantes de conscientização dos participantes quanto ao mundo contemporâneo em que vivem e para os objetivos relacionados à presente pesquisa.

Grande parte dos participantes, mesmo os que não conhecem e não utilizam o computador, acredita que o contato da criança com a informática educativa de forma efetiva poderá contribuir bastante para o seu desenvolvimento cognitivo. Os entrevistados indicam, também, a sala de informática como um ambiente estimulador e de descobertas, conforme a fala deste participante:

É aquilo que eu falei novamente, desenvolve muito o gosto pela leitura e pela escrita, a criança fica motivada, aquilo ali é uma espécie de estar na novidade para elas. Chega ali no computador, aquilo parece um brinquedo, é como se você tivesse dado a primeira boneca, a primeira bola pro menino, ela pensa que é um brinquedo, mas na verdade você está fazendo um trabalho sério, e aquilo ali ajuda muito a desenvolver o trabalho.

Segundo Papert (1994), as tecnologias de informação, desde a televisão até os computadores e todas as suas combinações, abrem oportunidades sem precedentes para a ação a fim de melhorar a qualidade do ambiente de aprendizagem, pelo que se refere ao conjunto inteiro de condições que contribuem para moldar a aprendizagem no trabalho, na escola e no brinquedo.

Chaves (1988) acredita que a escola atualmente deve desmistificar o uso do computador, mostrar à criança o seu potencial e as suas limitações. "Ensinar a utilizá-lo e a dominá-lo são funções a que nenhuma escola pode atualmente se furtar. Amanhã será muito tarde" (p. 21).

Para Papert (1994) o desenvolvimento educacional das crianças, portanto, depende rigidamente da aprendizagem da leitura de uma forma adequada. O uso de uma máquina do conhecimento sugere que essa suposição básica pode não necessariamente ser verdadeira para sempre e, de fato, pode começar a ceder dentro de uma década ou duas. Ele não sugere que a linguagem escrita tende a ser abandonada, mas que um novo pensamento seja necessário acerca da posição que lhe é designada como requisito para o acúmulo, por parte dos estudantes, de conhecimentos úteis ou pelo menos como a primeira via a ser descoberta para as crianças quando iniciam sua educação formal.

Lévy (1998) acredita que as crianças aprenderão a ler e escrever utilizando-se de editores de texto. Saberão produzir sons e imagens com os computadores e acrescenta que "os procedimentos intelectuais, os caminhos do pensamento serão para elas uma matéria-prima perceptível a ser continuamente transformada".

Dessa forma, o computador seria o elemento maior de ligação entre o social e o individual. Um dos autores que mais estudou este processo foi Vygotsky (1996). Para ele, a linguagem é socialmente formada, e, aos poucos, a criança a incorpora por meio daquilo que vivencia na família.

O terceiro tema está ligado às dificuldades com a informática que se expressa nas falas dos participantes como uma das condições essenciais para alcançar a qualidade no trabalho a ser realizado com o computador e na aprendizagem com os alunos. Nele, os informantes abordam a preocupação com as políticas públicas em inserir as máquinas nas escolas e com a atualização dos professores para aprenderem a lidar com o computador sem deixá-los entregues à própria sorte, cometendo erros ao aplicar a informática técnica, e não a educativa.

A falta de preparação do professor foi considerada uma das maiores dificuldades, além do pequeno número de computadores nos laboratórios. A quantidade insuficiente de computadores e o grande número de alunos por turma obrigam o educador de laboratório a dividir a turma em dois grupos ou, então, a restringir o uso dele apenas aos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. Atualmente, encontramos, em média, 27, 28 e 30 alunos por turma, o que impossibilita, conforme as suas queixas, um trabalho de qualidade, gratificante e prazeroso. Pode-se perceber na fala do participante como essa falta de preparo do professor dificulta o desenvolvimento e o conhecimento dos computadores nas escolas.

Pouquíssimas vezes, porque são muitas turmas, tem que fazer escala, as turmas são enormes. Infelizmente os professores dessa escola não tiveram cursos, as professoras da sala de leitura não tiveram. Eu estou fazendo particular, por fora. Então, agora eu vou conhecer realmente este tipo de trabalho que de repente eu possa fazer com os meus alunos na informática. Que até então, foi mesmo com a ajuda de outro professor. Então, eu trabalhei pouco, não trabalhei muito não.

Valente (2003) afirma que a preparação do professor para as tecnologias da informação não pode se restringir apenas à passagem de informações sobre o uso pedagógico da informática, mas oferecer condições para que ele possa construir conhecimento sobre as técnicas e, também, entender por que e como poderá integrar essa ferramenta em sua prática pedagógica. Outro fator importante que Valente sinaliza é que a formação desse profissional para trabalhar com o computador deve acontecer em seu local de trabalho, utilizando a sua própria prática como um objeto de reflexão e aprimoramento, além de servir de contexto para a construção de novos conhecimentos.

De acordo com Papert (1994), a escola não virá a usar os computadores "adequadamente" porque os pesquisadores lhe dizem como fazê-lo. Ela virá a usá-los bem (se o fizer algum dia) como uma parte integral de um processo de desenvolvimento coerente. "Como bons professores desenvolvimentistas, os pesquisadores podem contribuir melhor quando entendem as mudanças na Escola como um desenvolvimento e apoiam isso transferindo as ideias que foram bem-sucedidas para entender transformações nas crianças" (p. 43).

Valente acredita que, para implantar as transformações pedagógicas na formação de professores, é necessário superar as dificuldades em relação ao domínio do computador e ao conteúdo que o docente ministra, porque os avanços tecnológicos têm provocado desequilíbrio e uma confusão no processo de formação, tornando o professor um eterno "principiante" em relação ao uso do computador.

Para Leite e Sampaio (2000), é importante alfabetizar tecnologicamente o professor, alertando que esse conceito de alfabetização não pode ser fechado e acabado, pois as novas tecnologias estão em permanente mutação, em constante aperfeiçoamento e diversificação. Nesse sentido, deve se dar a formação do professor para utilizar as tecnologias. Desta forma, sabemos que o compromisso da educação no mundo contemporâneo não pode ser mais uma ação repetitiva, monótona e repressiva, como vem acontecendo na pedagogia tradicional, mas sim preparar os sujeitos sociais para um futuro competitivo, em constantes e aceleradas mudanças.

Demo (1998) alerta que as tecnologias estão presentes cada vez mais na sociedade. Sua utilização é fundamental, pois a educação constitui-se "na mais eficaz instrumentalização para a cidadania" (p. 23) porque possui a capacidade de desenvolver conhecimento próprio sobre a tecnologia e democratizá-lo. Tanto o autor como alguns professores precisam dominar a tecnologia para enfrentar o desafio de dominar também os rumos da sociedade "para que ela seja, ao mesmo tempo, moderna e humana" (p. 31).

Leite (2003, p. 15) acredita que, diante desse quadro, o domínio do professor em relação às tecnologias deve estar concentrado no campo crítico e pedagógico, o planejamento deve acontecer levando-se em consideração os objetivos a serem atingidos e o conhecimento que se tem sobre os alunos.

Piaget, citado por Papert (1994), lembra que as ideias piagetianas ampliaram o entendimento sobre a evolução do pensamento das crianças e que parece óbvio quando entendemos. Todo funcionamento mental, disse Piaget, possui duas facetas: assimilação (mudar sua representação de mundo para encaixar-se aos seus modos de pensar) e acomodação (adaptar seus modos de pensar para encaixar-se ao mundo). Segundo Papert, "a primeira resposta da Escola ao computador foi, muito naturalmente, de assimilação". Assim, a escola não se deixou mudar sob a influência da nova tecnologia; "ela viu o computador através da lente mental das suas próprias formas de pensar e fazer" (p. 43).

O quarto e último tema está ligado aos obstáculos para alfabetização que aparecem como um problema na construção da lecto-escrita e do prazer de ensinar e aprender. Das entrevistas realizadas, uma das maiores dificuldades no processo de aprendizagem apresentadas foi a falta de preparação do profissional. Muitos declaram uma frustração muito grande quando as crianças não conseguem atingir suas expectativas, e outros justificam esse obstáculo encontrado com diversas respostas: diferentes métodos de alfabetização que são utilizados nas escolas; falta de um coordenador pedagógico para orientar e ajudar neste processo; diversidade dos alunos, porque eles, hoje, não são mais os mesmos de antigamente, a escola mudou, os programas mudaram e os valores estão diferentes atualmente. No entanto, de acordo com as falas dos professores alfabetizadores, a alfabetização é vista como algo gratificante, porque trabalham com crianças, que são vistas como uma pedra bruta que ajudam a lapidar.

Na fala deste entrevistado, pegar alfabetização assusta um pouco, mas, com a prática e a diversidade que existe nas turmas, o professor consegue ir se adaptando à nova situação e a sua clientela:

Olha, no início, pegar alfabetização assusta um pouco, mas depois você vai pegando prática, vai e tenta daqui, joga dali, vê o que deu certo, o que não deu, até porque para uma turma uma coisa dá certo, para outra não dá. Então, para você algumas coisas dão certo para todas, e outras você vai adaptando de acordo com a sua clientela.

Paulo Freire (1996) exerceu um papel fundamental para o esclarecimento do processo de alfabetização. Na sua concepção, esse processo é um meio para a conscientização do homem como criador de cultura, para a abertura de horizontes e o abandono de uma posição passiva diante da sociedade a partir do momento em que se apodera da escrita e a utiliza como um meio de expressão e libertação. Por isso, para ele, ler a palavra é ler o mundo, pois, através do contato com o mundo escrito, o sujeito apreende mais a sua cultura e nela se insere com um poder maior de atuação.

Hoje sabemos que a alfabetização está baseada no letramento, responsável pelo desenvolvimento de capacidades diversas aliadas à produção de conhecimento que possibilitem o indivíduo expressar a sua cultura e ter acesso a outros padrões culturais e sociais, permitindo uma leitura crítica da própria realidade e, com ela, o acesso à participação e atuação social de maneira mais crítica e consciente.

Nesse sentido, o trabalho diversificado em sala de aula constitui-se em uma alternativa capaz de atender às diferenças individuais, envolvendo os alunos em diversas atividades, criando um trabalho amistoso e atraente, no qual todos tenham a oportunidade de trabalhar a cooperação, o respeito e a convivência em grupo.

Entre os teóricos interacionistas que defendem essas ideias, destacamos Vygotsky (1996) pela sua relevante contribuição sobre o desenvolvimento e a aprendizagem. Em seus estudos, o aluno é considerado um ser histórico e social que interage com o meio físico e com o patrimônio sócio-histórico, como a linguagem, valores e normas. Também ele observa que, através da convivência com diversas pessoas, num processo pessoal de experiência mental e reflexiva sobre esses mesmos patrimônios, revendo-os e reconstituindo-os, visando incorporá-los aos conhecimentos já adquiridos, a criança desenvolve todas as suas potencialidades.

É importante explorar neste texto o compromisso da escola pública com os meios multimídias que oferece o computador, pois ele reúne todos os outros recursos de informação e comunicação como a televisão, o videocassete, o rádio, a carta, o fax, o jornal, com uma versatilidade e rapidez que os outros ainda não atingiram.

Para Tajra (2000), uma primeira alternativa na incorporação da tecnologia no contexto escolar é verificar os pontos de vista dos docentes em relação aos impactos causados na educação por essa tecnologia. Segundo, discutir com os alunos como eles se dão com os diversos instrumentos e o que eles provocam em suas vidas cotidianas. A terceira e última alternativa é integrar esses recursos de forma significativa no espaço educacional, questionar o objetivo desejado, avaliar as suas contribuições, implicações e limitações dessa nova ferramenta.

Enfim, não se deve esquecer que o computador faz parte diretamente desta nova geração que o aceita com muito mais facilidade e fascínio. Qualquer tipo de resistência ao seu uso verifica-se apenas entre as pessoas mais velhas, principalmente do corpo docente, que se assustam com tanto potencial realizado pela máquina. Isso mostra claramente o despreparo dos professores no uso de meios audiovisuais em suas práticas pedagógicas.

O compromisso da escola num mundo globalizado

A instituição escolar sempre teve a responsabilidade legitimada com o compromisso social. A formação de cidadãos para o mercado de trabalho, separando a sua atividade material da intelectual, gerou o domínio das classes dominantes sobre os excluídos, que, pelo seu trabalho árduo e excessivo, não conseguiam se dedicar com mais afinco aos estudos.

Isso quer dizer que os indivíduos, ao desempenharem um compromisso social, não só estarão abrindo uma entrada para as camadas cognoscitivas, mas também para o conhecimento que tal compromisso exige deles. Essa entrada permite ao homem perceber-se enquanto produtor do mundo social, o que implica uma exteriorização (a sociedade é um produto humano), a objetivação (a sociedade como realidade objetiva) e a interiorização (o homem como produto social).

Assim, a instituição se manifesta em contradições, pois, ao mesmo tempo em que produz ideologias que fogem sorrateiramente da realidade social, com seus conflitos, suas lutas, também pode revelar a alienação e denunciar a lógica capitalista que a produz.

A mudança esperada atualmente requer que se busque adequar a relação do sujeito com o conhecimento aos novos tempos, isto é, passar de uma educação conservadora, baseada na transmissão da informação, por meio de disciplinas estanques, descontextualizadas e fragmentadas, para uma aprendizagem interdisciplinar, promovendo uma visão holística das necessidades do estudante (diagnóstica), o seu progresso, utilizando as novas tecnologias da comunicação e informação no espaço institucional.

Entretanto, durante muito tempo as mudanças almejadas nas escolas públicas têm acontecido de forma lenta e quase imperceptível em relação aos outros segmentos da sociedade, como o comércio, a indústria e a saúde.

O mercado de trabalho, hoje, exige dos trabalhadores uma melhor qualificação, pessoas capazes de trabalhar em equipe, assumir responsabilidades, tomar decisões, buscar soluções para problemas que surgem durante o processo de produção, ser crítico, criativo, com capacidade de pensar e de aprender a aprender, o que significa atualmente que o poder está no conhecimento. Dito de outra forma, quem detém o conhecimento detém o poder.

Por isso, a educação deverá estar preparada para esse novo paradigma que surge com as novas tecnologias da informação. Nesse sentido, para Valente (1999), "a educação não pode ser mais baseada em um fazer descompromissado, de realizar tarefas e chegar a um resultado igual à resposta que se encontra no final do livro texto, mas do fazer que leva ao compreender, segundo a visão piagetiana" (p. 38).

Certamente, esse processo educacional não pode continuar tão-somente a transmitir conhecimentos, mas é importante proporcionar a cada aluno a possibilidade de construção do conhecimento, vivenciando e desenvolvendo as suas competências e habilidades individuais.

Mudanças de modelos num mundo de incertezas e conflitos

Falar em mudanças e rupturas nos modelos tradicionais de aprendizagem requer uma avaliação e reflexão por parte dos professores com a discriminação da educação do povo brasileiro, que merecem a atenção e investimentos de todos os governos (municipais, estaduais e federal).

É importante esclarecer que mais uma vez a história se repete num mundo globalizado. A emergência exige preparar a sociedade da informação para que não sofra com os seus impactos, o desemprego em massa, distinguindo os incluídos no mundo da informação dos excluídos digitalmente. A revolução tecnológica pode cada vez mais consolidar as desigualdades sociais e, também, aumentá-las, deixando um distanciamento cognitivo entre os usuários da rede e os desconectados desse mundo informacional que nos chega com a velocidade da luz.

Para Silveira (2001), é importante lutar pelo direcionamento dessa revolução tecnológica, porque sem luta, para ele, é quase certo que o fosso entre "info-pobres e info-ricos" se alargará vertiginosamente. Tal distanciamento não acontecerá somente entre as nações e regiões desenvolvidas e não-desenvolvidas do planeta, mas também nas periferias dos planetas ricos, que poderão criar barreiras ainda mais intransponíveis em suas carências.

Segundo o mesmo autor, essa exclusão digital acontece quando as pessoas são privadas de três instrumentos básicos: o computador, a linha telefônica e o provedor de acesso, obtendo como resultado dessa privação "o analfabetismo digital, a pobreza e a lentidão comunicativa, o isolamento e o impedimento do exercício da inteligência coletiva" (p. 18).

Por isso, é importante incluir as pessoas sem exceção na sociedade de informação para que possamos oferecer maiores possibilidades de cidadania aos menos favorecidos. Para isso, quanto mais oportunidades forem oferecidas aos cidadãos de exercerem os seus direitos, mais teremos pessoas conscientes nas reivindicações de seu meio social excludente e desigual.

As tecnologias da informação e o processo de aprendizagem

Hoje, as tecnologias computacionais estão provocando mudanças incontroláveis em quase todas as atividades da sociedade comerciais, industriais, científicas e empresariais.

A situação em que a escola pública vem utilizando o computador ainda está sendo calcada no ensino tradicional e técnico, pelo desconhecimento da diversidade que essa máquina oferece. O fato de ela estar dentro das escolas não significa uma mudança bem definida, mas sim um paradoxo ameaçador de reproduzir indivíduos que não privilegiam a pesquisa, a colaboração que esse meio proporciona à educação.

É importante frisar que corremos um grande risco com o uso de novas tecnologias na educação: reproduzir modelos didáticos tradicionais com a ajuda da tecnologia que ultrapassa o ciberespaço virtual. Mais do que discutir qual a melhor ou a ideal forma de utilizar essa máquina na aprendizagem, é importante indagar o que se considera atualmente como aprendizagem, as condições favoráveis para ela acontecer e como criar esse ambiente estimulador.

Somente a partir dessas considerações, pode-se pensar como os computadores serão usados e em quais condições pedagógicas serão adequadas à aprendizagem das crianças.

Isso significa que é importante para o professor uma formação mais intensa, um envolvimento mais amplo de toda a instituição escolar, como os dirigentes, responsáveis, alunos e principalmente os professores, para assegurar uma qualidade em seu uso e na sua prática educacional, conseguindo, assim, uma aprendizagem condizente com a atualidade.

Pierre Lévy (1998) reforça a ideia de aprendizagem no mundo das telecomunicações e da informática, afirmando que é necessário elaborar novas maneiras de pensar e de conviver com as relações estabelecidas entre o homem, o trabalho e a própria inteligência, que estão dependendo "de uma incessante metamorfose de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, visão, audição, criação, aprendizagens são capturadas por uma informática cada vez mais avançada" (p. 7).

Ainda segundo Levy, o governo escolheu material pouco apropriado aos usos pedagógicos, e a formação dos professores para a sua utilização se deu de forma bastante limitada, como se não houvesse diferentes maneiras e formas de o computador ser um dispositivo técnico que nos coloca em interação com o mundo e pelo qual o percebemos, não apenas em um plano empírico, mas também em um plano transcendental, "pois, hoje, cada vez mais concebemos o social, os seres vivos ou os processos cognitivos através de uma matriz de leitura informática" (p. 15).

Conforme podemos perceber, é importante ter presente que as novas tecnologias apresentam desafios organizacionais na escola, onde romper com modelos preestabelecidos não é uma coisa muito fácil e rápida, mas também apresentam desafios institucionais mais amplos ao sistema educacional em geral, como mudar toda a sua postura sobre o processo de ensinar e aprender; rever todo o seu currículo; definir o seu compromisso ante a sociedade atual e qual a sua emergência; entender que ter acesso à rede de informação é o primeiro passo que precisa ser dado; compreender que todas as camadas da sociedade precisam estar devidamente qualificadas para acompanhar o desenvolvimento das novas tecnologias de informação. Com isso, a escola poderá estar preparando alguns gênios das tecnologias, escondidos pelo desconhecimento da máquina e de seu uso.

Quando vemos a quantidade e a qualidade das sugestões referentes à educação no Brasil e as confrontamos com o processo real, vem-nos à mente um conceito de impotência que utilizamos para caracterizar a perda da governabilidade na administração pública em geral, pois, quando boas ideias surgem, pessoas bem-intencionadas querem mudanças. Entretanto, com o poder formal, não conseguem os resultados pretendidos. Por isso, é preciso avaliar de forma mais ampla os mecanismos de decisão e a dimensão institucional do problema para que uma verdadeira ruptura no processo ensino-aprendizagem aconteça realmente de tal forma que não possa promover mais um mecanismo de exclusão, agora denominado por vários teóricos de "exclusão digital".

Considerações finais

As novas tecnologias da informação e comunicação apontadas neste texto trazem uma realidade significativa sobre as condições sociofamiliar e socioeconômica da população mais pobre de nosso país.

Esta análise reflete que, ao longo dos anos, a educação foi se modificando nas suas formas, mas não como uma verdadeira "mudança", no sentido amplo da palavra. Em outros termos, trata-se de oferecer menos um "pacote fechado" de conhecimentos, e sim de se colocar mais a educação a serviço de uma comunidade carente de tudo, um serviço que leve ao universo de conhecimento virtual.

Assim, quando repensamos a educação formal neste contexto, consideramos o seu compromisso como uma atividade central e organizadora desse novo homem que surge com a interação das novas tecnologias.

Torna-se necessário, diante de circunstâncias tão desastrosas, repensarmos a escola e os processos educacionais vigentes, preparar de forma mais global e pedagógica todos os educadores e dirigentes envolvidos para essa nova realidade que surge com as tecnologias da inteligência, realidade da qual não podemos mais fugir ou recuar de jeito algum.

É importante que as políticas públicas federal, estaduais e municipais pensem mais na educação e invistam mais em seus profissionais, que cada professor repense a sua prática, acrescentando em seu planejamento o uso das tecnologias. Mesmo que o computador ainda não esteja disponível em todas as escolas, é necessário lutar para consegui-lo e/ou discutir com os alunos o seu uso na sociedade atual.

Finalmente, devemos ter a preocupação de abrir a escola para o mundo que a cerca, tomando medidas renovadoras com urgência. Somente assim estaremos garantindo a essa parcela da sociedade uma competitividade mais justa e flexível neste mundo de conflitos e incertezas. Oferecer o direito de acesso às novas tecnologias de comunicação, principalmente a Internet, a todos os cidadãos brasileiros é assegurar o direito de seu uso cultural e social.

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Fonte: revista Tecnologia Educacional, ano XXXI, n. 161/162, abr./set. 2003.