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Língua Portuguesa

O Enem e as novas práticas de leitura e interpretação de texto: aspectos teóricos e práticos

Silvio Profirio da Silva

Licenciando de Letras da UFRPE

Nos últimos anos, o ensino de Língua (seja ela portuguesa ou estrangeira) tem passado por inúmeras modificações. Com a publicação de documentos oficiais (PCNs e OCNs), surge um novo enfoque, com base em perspectiva textual e, sobretudo, contextual, o que ocasionou alteração nos parâmetros norteadores do ensino e, consequentemente, novas possibilidades de cunho metodológico para o ensino de Língua e da leitura. De acordo com Santos (2002, p. 30-31), a partir da década de 80, deslocou-se o eixo do ensino voltado para a memorização de regras e nomenclaturas da gramática de prestígio para um ensino cuja finalidade é o desenvolvimento da competência linguístico-textual, isto é, o desenvolvimento da capacidade de produzir e interpretar textos em contextos sócio-históricos verdadeiramente constituídos.

Essa nova perspectiva tem sido adotada em diversos processos seletivos. As mais recentes provas do Enem e de vestibulares em diversos estados já trazem uma nova abordagem. Nessas provas, a leitura é alçada à perspectiva de atividade de construção de sentidos, o que abrange fatores linguísticos, sociais e estratégias cognitivas de leitura (Koch; Elias, 2006).

Pautada em uma perspectiva textual e contextual, essa abordagem requer que o leitor seja apto a compreender e interpretar diversos gêneros/tipos de texto a partir de diversas estratégias de leitura. Um dos aspectos mais solicitados nessas provas refere-se ao ato de identificar o objetivo do gênero textual ou a intenção e os propósitos comunicativos do autor. Além disso, o leitor é levado a trabalhar com os diversos aspectos do gênero/tipo textual, ou seja, pensando em fatores internos e externos, como: a data da publicação, o veículo onde foi publicado (revista, jornal, livro, site etc.), o título do texto. Todos esses aspectos auxiliam na compreensão textual.

Outro aspecto relevante refere-se ao fato de o leitor ser estimulado a mobilizar seu conhecimento de mundo durante o ato da leitura. De acordo com Koch e Elias (2006, p. 39), nesse processo, “o leitor mobiliza vários tipos de conhecimentos armazenados na memória”. O primeiro deles, o linguístico, engloba os conhecimentos relativos ao vocabulário (léxico) e à gramática. O segundo, o conhecimento enciclopédico, abrange o conhecimento de mundo; é oriundo de vivências pessoais. A junção desses conhecimentos leva o leitor a formular hipóteses, fazer antecipações, remeter a outros textos e a episódios sócio-históricos da realidade brasileira, como sinalizam Koch e Elias (2006). Um exemplo que pode ilustrar as questões abordadas neste texto é uma charge publicada no dia seguinte ao primeiro debate do segundo turno das eleições do ano de 2010. Contudo, como não conseguimos inserir a imagem neste artigo (por conta de um erro na plataforma de envio), apresentamos os diálogos entre os personagens da charge.

Em uma charge divulgada pelo jornal O Paraná em 11/10/2010 aparecem os diálogos entre dois personagens. O primeiro diz: “Eu sei o que ela vai usar no próximo debate”. O outro responde: “Uma focinheira?” Essa charge faz uma crítica à postura da então candidata a presidente da República, Dilma Rousseff, durante o primeiro debate do segundo turno. Para que o leitor perceba o objetivo do gênero textual em foco [tecer uma crítica], é necessário que ele que utilize seu conhecimento de mundo, o que remete ao episódio político. Além disso, é necessário que o leitor considere os elementos internos e externos desse gênero textual. Por exemplo, o termo “focinheira” evidencia a crítica do autor em relação ao comportamento da candidata, que foi considerado agressivo. Embora a charge não mencione o nome dos candidatos envolvidos nesse episódio, percebemos a intenção comunicativa do autor desse gênero em criticar a suposta agressividade da candidata do PT.

A partir dos contextualizadores externos (a data da publicação), podemos inferir que a charge faz alusão a um fato político ocorrido recentemente no país. Todos esses fatores refletem as novas práticas e estratégias de leitura por meio das quais o leitor “é levado a mobilizar uma serie de estratégias, tanto de ordem linguística como cognitivo-discursiva” (Koch; Elias, 2006, p. 7).

Referências

SANTOS, Carmi Ferraz. A formação em serviço do professor e as mudanças no ensino de Língua Portuguesa. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, v. 3, nº 2, p. 27-37, jun. 2002.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.

Publicado em 2 de agosto de 2011