Biblioteca
Língua Portuguesa

Dicionário: convite para jogar

Lorenzo Aldé

Jornalista

Prisão para o infinito

O dicionário é um livro curioso. Examinando um Aurélio ou um Houaiss fechado entre as mãos, não dá para acreditar que ali estejam registradas todas as palavras da língua que usamos. Apresentam-se, orgulhosos, com a intenção de totalidade, em infinitas páginas, grossos e pesados volumes. Lado a lado com o espanto e a intimidação diante do "tamanho" do Português, assalta-nos uma sensação de incredulidade: "Será possível que eu não sou capaz de pensar em nenhuma palavrinha que não esteja impressa ali?".

Estaria a nossa capacidade criativa presa aos limites do dicionário?

Sim e não. O esforço dos dicionaristas certamente não é vão: podemos passar dias e dias falando, pensando e escrevendo apenas as palavras que eles registram, e ainda assim não usar nem 5% daquela imensidão. Tome-se o exemplo deste texto que você está lendo: dicionário, livro, curioso, examinar, fechado, acreditar, palavra, língua, orgulhoso, intenção, totalidade, infinito, espanto, intimidação, assaltar, sensação, incredulidade, nenhum, impresso, capacidade, limite, sim, não, esforço, vão, dia, certamente, imensidão, texto, você, ler... todas as palavras escritas até aqui foram "plagiadas" do que existe no dicionário.

Mas eles não precisariam de sucessivas e eternas reedições se a língua não fosse um fenômeno vivo, mutante e constantemente reinterpretado. Novas palavras e expressões se incorporam ao cotidiano, e mais tarde aos dicionários. Surgem neologismos, estrangeirismos, gírias, novos significados alterando completamente os rumos da utilização de determinadas palavras. A estrutura de língua permanece a mesma, o que é necessário para que a gente se entenda. Afinal, puder não se diga-vos mim texto este em formato desejo eu? Não dá! A comunicação fica ameaçada se não houver regras comuns a serem seguidas por emissor (quem diz ou escreve) e receptor (quem escuta ou lê).

Palavras nascem e palavras se aposentam. Algumas ficam no limbo, para voltar à moda décadas depois. Por exemplo, há coisa de uns cinco anos os políticos redescobriram a palavra bravata, que passou a ser figurinha fácil nos discursos: "Vamos governar com ações, não com bravatas!", "Não se pode levar a sério um partido que vive de bravatas!", etc. Muitos de nós crescemos sem nunca ter ouvido essa palavra, ou sem conhecer o seu significado. Hoje, quem acompanha o noticiário sabe que bravata é o mesmo que "fanfarrice" (outra palavra antiga, pouco usada, mas que tem 56 sinônimos no Aurélio!). Dizer uma bravata é falar por falar, brincando, sem compromisso com a realidade, irresponsavelmente. Pois é, mas bravata, palavra originária do italiano, tem também outro significado, registrado no dicionário mas ignorado pelos políticos e por (quase) todos nós: é "intimidação ou ameaça arrogante". Se alguém diz uma bravata, portanto, tanto pode estar falando sem compromisso quanto pode estar fazendo uma grave ameaça!

Outro exemplo: o vestibular. Concurso de admissão para o nível superior de ensino, é claro! O significado é tão difundido e unânime que todos se esqueceram que a palavra tinha um sentido anterior, que serve até para justificar o porquê do concurso vestibular chamar-se vestibular. Originalmente, vestibular é um adjetivo relativo a "vestíbulo". E vestíbulo, apesar de parecer, não quer dizer um "lugar para se vestir", e sim o "espaço entre a rua e a entrada de um edifício", "átrio", ou simplesmente "pátio". O concurso vestibular ganhou esse nome por ser o "pátio" que dá acesso à universidade. Mas a palavra não pára aí: vestibular também é uma cavidade do ouvido interno.

Está parecendo que a "prisão" do dicionário não é tão rigorosa assim...

Poder usar "apenas" as palavras que estão ali, além de um ou outro neologismo, significa ter a liberdade de criar frases, mensagens, pensamentos, numa combinação infinita de sentidos! Em Português se conta uma piada e em Português se pode ler a Bíblia. Isto porque as palavras não têm vida em si mesmas. São os objetos básicos com os quais contamos para criar o discurso que quisermos, inventar outras realidades e questionar o mundo, louvar o amor ou incitar a revolução. E, convenhamos, contar com "apenas" 3.008 páginas, com 228.000 objetos-palavras (verbetes do Houaiss), e cada um desses objetos abrindo-se para dois, três, dezenas de sentidos... já é um baita leque de opções, não? Digamos que vivemos em liberdade condicional: presos à linguagem e à língua, mas com direito à criação quase sem limites.

"Quase" sem limites? Ou sem limites mesmo? Jorge Luís Borges, no conto A biblioteca de Babel, sugere a existência de uma "biblioteca total", abrigando todas as possibilidades de combinação de palavras, das mais curtas e simples às mais absolutas e complexas, de frases elementares a combinações incompreensíveis, do livro revelando todos os mistérios do Universo até a negação de todos esses mistérios, do livro mínimo ao "livro total". Tudo feito de palavras combinadas. Com elas, somos capazes de tudo.

Pensando assim, o dicionário ganha outro status. Mergulhar em suas palavras e definições pode ser uma brincadeira sem fim. Como não conhecemos a grande maioria das palavras ali registradas, o dicionário torna-se um território de surpresas e descobertas, localizado em nossa própria língua. Um mapa do misterioso Português, mas um mapa sem fim: com inúmeros pontos de partida e sugestões de caminho, mas sem nenhum ponto de chegada ou saída. "Pai-dos-burros"? Que nada...

E então? Vamos brincar de dicionário?

O jogo do dicionário

O jogo do dicionário consiste em escolher uma palavra estranha e apresentá-la para um grupo de pessoas. Cada um deve criar um significado que acha que "combina" com aquela palavra. Depois a pessoa que escolheu a palavra lê em voz alta todas as definições, entre elas a verdadeira, retirada do dicionário. Cada participante vota na definição que acredita ser a correta. Quem acertar a definição da palavra ganha pontos, e quem tiver a sua definição apontada como a certa pelos outros, também. Se ninguém acertar a definição certa, quem escolheu a palavra vence. Na rodada seguinte, outra pessoa fica com o dicionário e escolhe a palavra.

Por exemplo: sicofanta é...

  1. Bebida à base de mate e água gaseificada.
  2. Pessoa mentirosa, enganadora.
  3. Mania de limpeza e arrumação.
  4. Condutor de veículos de tração animal.

A resposta? Está no dicionário.

Mas, além desta, existem várias outras formas de brincar explorando o dicionário. O escritor Julio Cortázar, no romance O Jogo da Amarelinha, inventou dois jogos em que seus personagens recorriam ao dicionário.

O som e o sentido

No primeiro, eles escolhiam palavras cuja sonoridade parecia querer dizer uma coisa, mas na verdade significava outra. Com elas criavam textos aparentemente compreensíveis, mas que eram na verdade absurdos, porque as palavras assumiam sentidos que não eram os seus. Um dos personagens, por exemplo, achava que "farmacêuticos" soava como o gentílico de um povo (como "normandos", "potiguares", "mongóis"), e criou um discurso épico sobre invasões e guerras farmacêuticas.

Inspirados em Cortázar, tentamos escrever um exemplo de como palavras desconhecidas podem dar sentido a um texto, mesmo que seus significados nada tenham a ver com o som das palavras:

O cúbio estava tão escuro que as crianças tremeram de párvulo. Haviam subido até ali em busca de um calete e talvez algumas criptas, mesmo sabendo do perigo que estas representavam. Pararam no perponte, que àquela hora da madrugada estava gabro como nunca, convidando a um rechego. A astilha permitia um descanjicar agradável: sabiam que se passasse um gadanho do lado de lá, isso causaria a crispação das combretáceas, a tempo de todos rocinarem em seus xuxos de volta para casa.

Brincando com as definições

Outra brincadeira dos personagens de Cortázar era juntar definições de palavras diferentes no que eles chamavam de "perguntas-balança", que não faziam sentido nenhum, buscando simplesmente um efeito poético com as interessantes semânticas das palavras. (leia trechos de Cortazar)

Veja alguns exemplos de mistura de definições, como as perguntas-balança de Cortázar (entre colchetes, estão indicadas as palavras a que se referem as definições):

- A escavação nas rochas, feita pelas águas, na qual se encontra ouro ou diamante [caldeirão], quando esbodegada por indivíduo que tem o hábito de comer em casa alheia [comensal], será, talvez, uma espécie de orelha, de madeira ou de ferro, com roldana ou sem ela, presa em mastro, mastaréu ou outra parte da embarcação, e destinada a receber e sujeitar qualquer cabo quando se pretenda mudar-lhe a direção ou dar-lhe retorno [reclamo]?

- A terra inculta ou abandonada [sesmaria], que não tem suporte [séssil], serve ao desempenho de qualquer trabalho, emprego ou comissão, à celebração de atos religiosos [serviço] ou mesmo à dança popular, espécie de xote, executada por dois ou três pares, ao som da viola [serrote]?

- A arte de construir edifícios [tectônica] dá fastio [tédio] aos tefromantes, mas não à moça empregada em boates ou noutros lugares de diversões para dançar com os fregueses a tanto por dança [taxi-girl].

A graça está em jogar não apenas com as palavras, mas também com as definições que o dicionário traz. Só no Houaiss, são 380 mil. Elas são estranhas e divertidas, e abarcam uma diversidade de assuntos tão grande que nos permite pensar que, além de um mero instrumento de consulta com os sentidos das palavras, o dicionário é quase uma enciclopédia, tratando, ainda que em poucas linhas, dos mais distintos temas: da culinária à música, da botânica às guerras europeias, da colonização brasileira à medicina, da magia à arquitetura, do preconceito popular às práticas comerciais, de nossas raízes indígenas a variadas correntes filosóficas e religiosas!

Palavras esquecidas

Outra possibilidade de jogo: investigando palavras desconhecidas, chega-se a significados muito utilizados no dia-a-dia. Muitas palavras antigas foram praticamente abolidas do nosso vocabulário cotidiano, mas permanecem lá, no dicionário, observando silenciosas os percursos do Português no Brasil, que as deixou para trás.

Aprender algumas dessas palavras esquecidas e utilizá-las, além de enriquecer nosso vocabulário, pode gerar textos hilários e incompreensíveis. Para "traduzi-los", o leitor terá que correr ao dicionário. Assim ajudaremos essas pobres palavras desgarradas a terem utilidade outra vez. Quem sabe alguma delas não volta à vida, como fizeram as bravatas?

Abaixo, um pequeno exercício de resgate de palavras:

Acometida de vesânia, ela não embuçou os fatos. Nosofóbica como sabemos que é, disse que se encontrava em clônico tefe-tefe, não parecendo, contudo, ter perdido o elastério por causa disso. Inutilmente, começou depois uma detalhada prosopografia tua. Foi neste momento que nos vimos obrigados a ir à mufla de modo a restituir-nos a luz, que falhara. Como não sou de calemburar, preferi não comentar o incidente, digno de malfadar as pretensões da jovem. Tentei convencê-la de que eras um sibarita, que seria para ti um piáculo, mas ela prosseguia ovante, chamando-me ínvido, justo quem. Conclusão: ogano, nem penses em ver-te livre deste enfaro.

Inventando palavras

Pronto. Agora já ganhamos intimidade com as palavras, perdemos o pudor de mexer com elas, tirar-lhes o sentido e substituí-lo por outro, fazer combinações absurdas de sentidos e sons, escrever em prosa pensando em poesia.

Revirar as palavras pelo avesso não significa desmerecê-las, pelo contrário: passamos a conhecer suas nuances, suas manhas, todo o potencial que elas carregam e que tantas vezes é desperdiçado. Passamos a escrever com mais esmero, com outros olhos, capazes de ler não apenas o que está impresso no papel ou exibido na tela, mas também o entretexto, as entrelinhas, as relações que existem entre essas palavras aqui e aquelas lá em cima. O texto dentro do texto. A metalinguagem: leitura dentro da leitura dentro da leitura.

Coisa de louco? Por que não? Flertar com a insanidade pode ser muito são.

E assim, liberados de amarras formais, podemos incorrer na suprema ousadia linguística: criar nossas próprias palavras. Como fazer, depende da imaginação de cada um. Unindo palavras já existentes para criar uma nova, mudando apenas uma letra ou sílaba de palavra conhecida para dar-lhe outro sentido, ou simplesmente combinando sílabas até criar algo sonoro e interessante. Afinal, como nascem as novas palavras? Alguém tem que inventá-las!

É claro que simplesmente sortear teclas do computador e criar zdsjkdnb não tem muita graça, e muito menos chance de virar palavra de fato. Mais encantador é conceber combinações instigantes, que realmente passem por palavras existentes, de dicionário. Depois, pode-se misturá-las às outras formas de brincar com dicionário, e propor que as pessoas identifiquem que palavra, ali, foi inventada.

Sem dúvida, uma sugestão esmaravídica!