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Literatura

Edgar Allan Poe: o fantástico e a culpa

Alexandre Amorim

Ao analisar o sentimento de culpa nas obras de Poe, deve-se considerar que o escritor, ao contrário de seus contemporâneos românticos, não seguia o neoplatonismo. A crença, comum em sua época, de que os conceitos de mal e bem tinham origens distintas não é encontrada em suas histórias. O autor parece preferir o conceito de que o homem é o centro de seus sentimentos e de sua racionalidade e, portanto, mal e bem são produtos de uma mesma fonte: o próprio homem. O sobrenatural e o natural (ou o fantástico e a razão) são usados como uma consequência da culpa nos personagens de Edgar Allan Poe.

Neste texto, analiso “O Corvo” e “O Gato Preto” para tentar mostrar que existe sempre um personagem que se desviou da virtude para o vício e que deve sublimar seu sentimento de culpa através do fantástico. Um elemento fantástico vai sempre expor a consciência desse personagem, aparecendo como um reflexo da culpa, obrigando o protagonista a reconhecer seu próprio vício, sua própria culpa. Vejamos aqui como Poe lida com esse mecanismo em suas histórias.

Ao contrário da interpretação comum que se dá aos textos do autor americano, suas histórias não se encerram na mera utilização do fantástico como resposta às angústias das figuras humanas nelas contempladas. Seus personagens devem lidar com conceitos que coexistem com eles em um mesmo nível, e não em um plano transcendental. As questões humanas devem ser tratadas em um mundo humano, mesmo que o fantástico se apresente como um véu a ser descoberto. Para Poe, a culpa vem da queda humana, e mesmo os aspectos metafísicos dessa queda interessam apenas ao próprio homem. Os personagens cometem erros simplesmente porque não podem se manter o tempo todo envoltos em virtude. A queda vem de uma qualidade comum a todo ser humano: a impossibilidade de se manter preso a um valor moral sem notar que existe o outro lado. A tentação de atravessar da virtude para o vício é o que causa assombro aos leitores de Poe, porque é um sentimento comum a qualquer pessoa.

Para lidar com a culpa, o escritor usa o fantástico. Como afirma Todorov, o fantástico é o momento em que ocorre algo que não pode ser explicado pelas leis do mundo conhecido. A partir daí, esse acontecimento pode ser explicado como uma ilusão dos sentidos (e as leis naturais não são alteradas) ou ter realmente ocorrido (e então a realidade passa a ser desconhecida). É nesse momento de hesitação entre o real e o imaginário que o fantástico reside. Após escolher entre um ou outro, o fantástico deixa de funcionar e outro gênero vem substituí-lo.

Mas se a maestria de Poe em usar o fantástico é reconhecida universalmente, também se deve considerar sua escolha constante e sutil de oferecer ao leitor pistas da solução dessas questões fantásticas. A sublimação da culpa passa pelo aparecimento do fantástico, mas se resolve no mundo real, porque a culpa pertence ao próprio personagem, que cria a possibilidade do fantástico.

O Corvo (1845)

Na obra-prima poética de Poe, existem três personagens fundamentais: o narrador, a falecida Lenore e o corvo, um forasteiro que chega à casa do viúvo enquanto este tenta se reconfortar com seus livros e, por algum tempo, se esquecer da dor de sua perda. É exatamente nesse momento que o corvo bica a porta do narrador e o traz de volta às lembranças de sua ex-parceira, como se ele não pudesse ter se dado ao luxo de esquecê-la. Sua culpa é gerada pela tentativa de esquecer e descansar da dor que sente pela perda da mulher amada.

O prenúncio de sua culpa é expresso por seu medo de quem pode estar batendo à porta. O narrador, já perturbado pelo medo, responde às batidas como se fosse a própria Lenore a chegar a casa. Sua culpa o faz temer aquilo que antes era seu maior desejo: ver sua amada novamente.

Aliviado por perceber que o visitante é apenas um corvo, o narrador, de modo jocoso, pergunta ao pássaro seu nome. O animal responde pronunciando uma expressão que não poderia ser mais apropriada: “nunca mais”. Está feita a ligação entre o homem que perdeu sua amada para sempre e o pássaro que parece lembrá-lo de sua perda. Desse modo, o elemento fantástico é produzido: homem e animal se relacionam através de uma expressão que o deixa “maravilhado” e que vai se tornar o motivo de seu desespero. O protagonista passa do mundo real para um mundo onde só importam seu desejo e suas fantasias mórbidas, e cada tentativa desse homem para descobrir quando terminará sua dor acaba por ser respondida – sempre do mesmo modo – pelo corvo:

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

A resposta monocórdia do pássaro é vista como “coisa do mal”, mas o que poderia ser considerado pertencente ao mundo irreal é apenas o produto da psique do narrador. Não há dicotomia entre o que acontece e o que parece estar acontecendo, a não ser na mente desse narrador. “O que o corvo responde é apenas o que o protagonista quer ouvir e que, cada vez mais, penetra nas escuras e subliminares regiões de sua melancolia”, acrescenta o teórico Edward H. Davidson. O corvo apenas repete “nunca mais”; quem dá o valor necessário para que essa expressão se torne um tormento é o próprio narrador.

Mas o clímax da relação entre o protagonista e o reflexo de sua culpa acontece quando ele, em desespero, pede ao corvo que “esqueça sua Lenore”. É a expressão máxima de sua queda: o viúvo pede ao pássaro sua cumplicidade em se negar a lembrança da esposa falecida. A resposta é a única possível a ser articulada pelo corvo – “nunca mais”: não há chance de descanso por parte do protagonista, e ele reconhece sua culpa em tentar escapar de seu próprio fardo ao pedir para se esquecer de sua amada. Seu erro não será esquecido, sua culpa não será purificada sem dor: até mesmo seu desejo primeiro de rever Lenore tem como resposta o refrão do pássaro: nunca mais.

Ao final do poema, o narrador tenta se livrar do corvo, mas não é possível se livrar de seus erros. O corvo permanece, e, na última estrofe, o viúvo afirma que sua alma está presa à sombra do pássaro, que se espalha pelo chão. A metáfora que percorre toda a obra é concluída: a culpa expressa pelo viúvo e reforçada pela expressão repetida pelo corvo é reconhecida como uma falta a ser compensada. Poe resolve a questão do fantástico: o narrador reconhece que a voz do pássaro é sua própria voz e finalmente aceita que Lenore nunca será esquecida. A culpa se origina no homem e deve ser reconhecida e trabalhada por ele.

O Gato Preto (1843)

A narrativa deste conto pode não ser totalmente confiável, uma vez que esse homem, agora preso, passou por surtos de violência e psicose, além do alcoolismo. Apesar de uma linha de argumentação razoável, o próprio narrador “não espera ou pede crença” no que diz. Poe dá ao leitor a chance de escolher em que acreditar em uma história contada por alguém atormentado pela culpa e pelo desespero.

O conto não pode ser analisado apenas pela voz do narrador; deve-se levar em conta sua estrutura e os elementos apresentados pelo autor. Este começa por expor o clima fantástico, assegurando que, apesar de consciente, o narrador contará uma história ao mesmo tempo “selvagem” e “doméstica”, em que o bizarro e o comum coexistem. Se o gênero fantástico pode ser definido como o uso da dicotomia entre ilusão e realidade para a estrutura da obra, “O gato preto” é uma história fantástica por excelência.

Os personagens são apresentados gradualmente, junto com o enredo, e o alcoolismo do narrador é assumido como razão de sua mudança de temperamento e personalidade. A origem de sua culpa é logo notada e será a razão de seu futuro remorso. A culpa e a necessidade de purgar essa culpa são descritas pelo protagonista em tempos diferentes da história, mas traçando sempre um paralelismo que indica sua consciência.

Não há como o narrador refletir sobre sua queda, uma vez que os animais de sua casa e sua própria esposa sofrem seus abusos de modo submisso. Ao procurar por uma razão para seu comportamento, o protagonista define que o “espírito de perversidade” lhe toma e acrescenta: “deste espírito a filosofia não trata”. Poe estabelece uma relação entre esse seu conto e seu ensaio “Eureka”, em que apresenta conceitos que também não serão resolvidos pela filosofia. O narrador não suporta sua própria culpa, daí utilizar uma força sobrenatural, que não pode ser analisada, como resposta. A perversidade, ideia “inescrutável”, serve como desculpa.

A desculpa, entretanto, não é aceita como resposta definitiva. O fantástico se faz presente quando o gato que vive na casa se torna o objeto de ódio do narrador. Não à toa, o gato se chama Plutão, o deus mitológico do submundo, por onde todos deverão passar antes de definir seu destino. O gato é a consciência do narrador, e a relação entre sua queda e sua culpa. Mais uma vez na obra de Edgar Allan Poe o fantástico é usado para mostrar que o homem deve tratar de suas questões dentro de um âmbito humano. O gato como símbolo do fantástico e ao mesmo tempo metáfora da consciência. A consciência, nas obras de Poe, é quase sempre representada por alguém ou algo externo.

Uma noite, ao tentar evitar o dono pelo seu estado de embriaguez, o gato o machuca levemente, e a perversidade do narrador excede seus limites: o protagonista arranca um dos olhos do animal, que se afasta definitivamente do dono, o que o irrita cada vez mais, até enforcar o bichano. Poe revela a necessidade do homem de desafiar sua própria virtude e analisa a perversão como um sentimento inevitável, uma vez que o desvio da virtude faz parte dos sentimentos humanos: “não temos uma inclinação perpétua de violar a lei apenas porque a entendemos como tal?”.

Após o enforcamento do animal, um incêndio destrói grande parte da casa, tornando miseráveis as vidas do narrador e de sua esposa. A punição por seus atos parece ser um caminho para expurgar a culpa do narrador, mas de onde vem essa punição? A única parede que não foi destruída traz a impressionante figura de um gato com uma corda em volta do pescoço. Como já havia sido anunciado no começo do conto – “talvez alguma inteligência possa reduzir meus fantasmas ao senso comum” – uma explicação lógica pode ser dada para o incidente fantástico: a figura na parede foi feita por produtos químicos guardados na casa, e a semelhança com o gato enforcado pode ser fruto da imaginação já alterada do narrador.

Entretanto, mais um elemento fantástico é adicionado ao conto: um novo gato é trazido à casa. O felino não tem um olho e traz no peito uma marca branca que lembra ao narrador o desenho de um cadafalso. Mais uma vez o protagonista vai tentar evitar seus atos passados, e os tormentos da culpa vão fazê-lo acreditar no fantástico. Mais uma vez, porém, o narrador se submete à queda e tenta matar aquele que o faz lembrar de sua culpa. A tentativa não se completa porque sua esposa o impede, mas então o homem, cheio de ódio, mata a própria esposa.

Após esconder o corpo, emparedado no porão, o narrador se diz livre da culpa. Sua perversidade não tem mais limites; ao mesmo tempo, o gato desaparece da casa. Em um paralelo magistralmente escrito por Poe, a consciência do personagem e seu reflexo fantástico se escondem, de forma escapista: “é impossível descrever ou imaginar o profundo e enlevado alívio que a ausência daquela criatura detestável ocasionou em meu peito”, declara o narrador.

Uma mulher foi assassinada, no entanto, e após alguns dias uma investigação policial leva agentes à cena do crime. O próprio narrador mostra aos investigadores como as paredes de sua casa são resistentes, testando-as com uma bengala. O assassino insiste em expor-se, até que um grito é ouvido. Os policiais decidem derrubar a parede de onde vem o grito e descobrem o gato, que também havia sido preso, sem que o protagonista soubesse. O gato – símbolo da consciência do narrador – demonstra que o sentimento de culpa não pode ser apaziguado. É o destino do homem tentar manter o equilíbrio entre seus vícios e suas virtudes. O animal que um dia foi sua fonte de felicidade serve como lembrança de sua queda e perda de equilíbrio.

As razões e as consequências da culpa nas obras de Edgar Allan Poe não são geradas pelo conceito platônico de um mundo ideal representado em sombras: suas obras sugerem a ideia de que luz e escuridão convivem no mundo dos homens. A divisão platônica gerou o conceito de purificação, mas Poe parece entender que esse conceito também não deve ser considerado: não há sinal de purificação nos textos do autor americano, porque vício e virtude fazem parte do ser humano. A purificação é uma questão espiritual e não pode ser completamente entendida pelo homem – pode ser aceita ou não, através da fé, mas Poe não está interessado nisso. Sua preocupação é lidar com as elevações e quedas do homem em seu próprio mundo. Interessa a ele como o homem pode alcançar o equilíbrio entre o bem e o mal enquanto luta por sua sobrevivência.

O fantástico é usado como reflexo do espírito humano, e assim deve ser tratado. As histórias são contadas sempre num momento em que uma situação fora das leis naturais ocorre, mas isso não deve ser compreendido como uma necessidade do autor de existência de um mundo exterior ao nosso mundo. Poe faz uso do gênero fantástico para mostrar os aspectos metafísicos do homem, mas esses aspectos devem ser vistos como parte da vida e naturais do homem. O poeta do fantástico merece esse título se reconhecermos que todo o fantástico reside no homem.

Publicado em 2 de março de 2010