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Bertrand d'Astorg, a mulher e a literatura

Cláudia Dias Sampaio

Menos aberta do que a montanha, menos fluida do que o mar, menos sutil do que o ar, menos árida do que o deserto, menos escura do que a gruta, mas fechada, enraizada, silenciosa, verdejante, sombria, nua, múltipla, e secreta, a floresta de faias é arejada e majestosa; a floresta de carvalhos, nos grandes caos rochosos, é céltica e druídica; a de pinheiros, nas encostas arenosas, evoca um oceano próximo ou origens marítimas. E é sempre a mesma floresta
(Bertrand d’Astorg).

O poeta e escritor francês Jean-Luc Pouliquen, autor de As crianças e as imagens poéticas: um método de escritura de inspiração bachelardiana, costuma apresentar palestras nas universidades brasileiras. Estudioso da obra de Gaston Bachelard, dessa vez ele foi à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) fazer uma pequena homenagem ao também escritor francês Bertrand d'Astorg, pelos vinte anos de sua morte. O evento, realizado no Instituto de Letras e organizado pelas professoras Ana Lúcia Oliveira e Marly Bulcão, terminou com a exibição do vídeo Passo a passo, de André Meyer, com poemas de Jean-Luc Pouliquen. Filmado no Rio de Janeiro, nas águas e vegetações da Serra da Mantiqueira, o vídeo é resultado da pesquisa que o professor André Meyer realiza com seus alunos do Departamento de Arte Corporal da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os poemas e as imagens constituem uma experiência audiovisual de forte apelo sensório e evidenciam o diálogo entre as obras de Pouliquen, Bertrand d’Astorg e Gaston Bachelard.

Jean-Luc Pouliquen iniciou a palestra com uma pequena apresentação biográfica de Bertrand d’Astorg (1913-1988). Nascido em Pau, sudoeste da França, Bertrand foi amigo dos poetas Francis Jammes e Pierre Emmanuel. Em Toulouse, onde foi realizar seus estudos, conheceu Emmanuel Mounier, que o incentivou a ir viver em Paris, onde conheceu Paulo Flamand e Jean Bardet, fundadores de uma das mais importantes editoras francesas: Editions du Seuil. D’Astorg foi um dos primeiros autores a publicar na Coleção Pierre Vives; escreveu também críticas literárias para a Revista Esprit, ambas editadas pela mesma editora.

A percepção de d’Astorg sobre a mulher e o amor foi o tema da palestra que Pouliquen apresentou, construída a partir de três livros: Le mythe de la dame à la licorne (O mito da mulher-unicórnio), de 1963; Les noces orienteles (As núpcias orientais), de 1980; e Variations sur l’interdit mayeur – littérature et inceste en Occident (Variações sobre o interdito principal – literatura e incesto no Ocidente), de 1990.

Em Le mythe de la dame à la licorne, o autor penetra no coração da floresta, lugar de encantamento e sonhos, em que o poeta adentra para escapar da vida ordinária e diminuir sua angústia. Nela vive o mítico unicórnio, animal selvagem, que somente uma virgem poderia tocar sem ser traspassada por seu chifre. A última parte do livro é dedicada ao mito da “mulher-unicórnio”. O mito da mulher que deseja um amor ardente mas ao mesmo tempo o recusa é recorrente na literatura francesa e pode ser encontrado na obra de autores como Chateaubriand, André Gide, Rosseau e Balzac. Bertrand não via esse tipo de amor como uma submissão, mas sim como uma dialética em que a mulher prefere morrer de amor a ter que assistir à morte desse amor.

No segundo livro, Les noces orienteles, Bertrand aborda o fascínio que a mulher oriental exerce sob o homem ocidental e como a literatura trata sempre de forma trágica esse tipo de amor, como no mito de Jasão e Medeia e na história de Salomé, “encarnação suprema da sedução oriental”. Bertrand fala justamente sobre essa força oculta do Oriente como lugar do imaginário, onde o amor é promessa de prazer e perigo, mas onde o perigo é o maravilhoso do amor.

Pouliquen chama a atenção para o fato de esse livro ter sido escrito depois de maio de 1968, quando houve forte contestação ao modelo ocidental, cresceu a contracultura e a inquietação existencial, que levaram muitos jovens a caminho da Índia. Ele ressalta também a fé que d’Astorg tinha na literatura como algo que permitia levar para um outro plano questões que eram insolúveis no real.

A última obra analisada, Variations sur l’interdit mayeur – littérature et inceste em Occident trata de um tema difícil: o incesto. O livro foi publicado dois anos após a morte de Bertrand, por sua filha Nike d’Astorg, na Editora Gallimard. Logo no início, o autor adverte: “que o leitor não espere encontrar aqui uma explicação para a realidade do incesto, mas uma tentativa de elucidar como o tema foi abordado em nossas obras literárias”.

Jean-Luc Pouliquen explicou a divisão que havia na cultura francesa entre as Letras Clássicas e as Letras Modernas. Como era de costume entre os filhos da aristocracia da época, Bertrand d’Astorg não foi à escola; teve um preceptor que lhe levou o conhecimento da tradição greco-latina, as Letras Clássicas, para quem as Ciências Humanas nada trouxe de novo, já que tudo poderia ser explicado por essa tradição. Gaston Bachelard, de uma geração posterior, se lamentava por não ter aprendido o grego e o latim, já que teve sua formação nas Letras Modernas, fundamentada nas Ciências Humanas. Trata-se, portanto de duas percepções diferentes do mundo.

Além dessa formação distinta, a diferença apontada por Pouliquen entre os dois críticos é que, segundo ele, Bachelard cria e utiliza conceitos, enquanto d’Astorg é movido pelo puro prazer da leitura. A segmentação Letras Clássicas/Letras Modernas acaba por definir o tratamento que cada um faz da literatura. Mas o que Pouliquen ressalta é que, apesar da formação clássica, Bertrand d’Astorg não ignora a produção de seu tempo, faz alusão a Foucault e ao filme de Pasolini sobre o mito de Medeia, mas a dinâmica de sua investigação é realizada segundo seu próprio caminho. E este seria, para Jean-Luc Pouliquen, o motivo de toda a sua originalidade.

Publicado em 6 de maio de 2008