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Macunaíma e Retrato do Brasil:
A Construção da Identidade Nacional, sob o Traço da Luxúria
Silvana Assad
Mestranda da Pós-Graduação em História da
Universidade Federal Fluminense.
2. Contexto histórico-cultural
2.1 Um breve olhar sobre o Brasil da década de 20
Pretende-se com o olhar sobre o contexto brasileiro dos anos 20 entender
os textos dos quais trata o trabalho dentro da dinâmica acontecimentos/idéias
e dentro da perspectiva - especificamente no que se refere à literatura
- de ser o contexto parte integrante da "realidade literária".
O Brasil na década de 20, embora ainda assentado em bases agroexportadoras,
em linhas gerais acenava para processos de transformação econômico-social
bastante contundentes. Após o advento da República, o país assiste a um
processo de desenvolvimento industrial e crescimento da produção cafeeira,
situados especialmente no Estado de São Paulo. Relaciona-se a isso o fato
de a abolição ter colocado no mercado grande contingente de mão-de-obra
livre, o que significava não só o aumento da oferta de mão-de-obra para
a indústria, como também o aumento do mercado consumidor. Por outro lado,
tal crescimento dava a São Paulo um quadro de projeção vantajoso sobre
a capital. O Rio assistiria, em termos de transformações, àquilo que fariam
da cidade o cartão-postal do país, sem contudo expressar desenvolvimento
estrutural - a exemplo de São Paulo - capaz de atingir repercussão
nacional.
Politicamente, vivíamos sob o "jugo" da Política: dos Governadores, cujas
tendências regionalistas distorciam o projeto inicial de fazer do Brasil
uma República Federativa. O predomínio dos Estados de São Paulo e Minas
Gerais, consubstanciado numa política viciada de troca de favores entre
as oligarquias estatais, não só negava os ideais republicanos e federalistas,
como também excluía a população em geral do processo político.
Um outro aspecto fundamental sobre a época nos aponta a historiadora Mônica
Pimenta Velloso (1993): o Brasil passava pelo impacto da Primeira Guerra
Mundial e, como o mundo, sofria alterações no campo das idéias. Os horrores
da guerra faziam com que reconhecêssemos nossa situação de fragilidade
frente à cobiça externa, assim como fazia cair aqui também o mito da liberdade
da era internacional que tornava obsoletos os nacionalismos. Assistia-se
à retomada de tais valores nos países europeus e no Brasil urgia nos situarmos
como um país que tinha especificidades capazes de traçar uma identidade
de nação. Não é por acaso que, em 1916, a Revista do Brasil é criada
no sentido de conduzir este debate em torno da questão da nacionalidade
e tornar-se núcleo da propaganda nacionalista.
Nesse sentido, "encontrar um tipo étnico específico capaz de representar
a nacionalidade torna-se o grande desafio enfrentado pela elite intelectual"
(VELLOSO, 1993, p.90). Tratava-se de uma missão que se impunha à intelectualidade:
encontrar a identidade nacional, rompendo com um passado de dependência
cultural.
Data dessa época uma série de estudos - entre eles os de Oliveira Vianna
e Alberto Torres - cujo eixo central era a busca da identidade nacional,
através da reverificação do passado, da revisitação de todo o período
colonial, da reinterpretação da mistura de raças que constituiu o povo
brasileiro.
Na verdade, colocava-se a questão aos intelectuais de fazer valer na sua
produção o reconhecimento do país enquanto nação, não só frente à cobiça
externa, mas, fundamentalmente, frente ao movimento regionalista interno.
O depoimento de Tristão de Ataíde (1981) alude com profundidade a essa
angústia, vivida durante a década de 20. Na política, o debate dava-se
entre o caudilhismo e o cesarismo; na literatura, entre regionalismo e
cosmopolitismo, quando a nossa originalidade residia exatamente no fato
de sermos diversos e, portanto, caracterizados por ambos os movimentos
em nada excludentes.
Todos esses questionamentos representariam para os intelectuais da literatura
uma mudança radical na orientação de suas obras. Não havia mais espaço
para trabalhos do tipo intimista, voltados para a questão do indivíduo.
Exigiam-se obras de engajamento e, segundo testemunho de Olavo Bilac,
a literatura deveria deixar de ser "templo de arte" para se tornar "escola
de civismo", numa interpretação clara da função pedagógica que se impunha
à literatura (VELLOSO,1993 p.90).
Consoante com esse olhar sobre a época, cuja perspectiva de análise aproxima
arte e política, apresenta-se a tese de Francisco Iglesias. O historiador
traça um quadro bastante interessante do período, relacionando o Movimento
Modernista ao Tenentismo. Embora não se entrecruzassem e se desenvolvessem
paralelamente, Iglesias (1972, p.17) considera comum a ambos o caráter
de reação ao estabelecido.
Partindo do conceito de geração - na dimensão que lhe dá o filósofo
espanhol Ortega y Gasset -, que contempla a coincidência de anos
de nascimento, homogeneidade de formação e de vivência de fatos históricos
comuns que possam criar estado de consciência e inspiração também comuns,
Iglesias aproxima os homens de 22 que fizeram o Tenentismo e a Semana
de Arte Moderna. Homens esses que, após 100 anos de Independência, viveriam
sob a angústia da pergunta sobre o que fizeram para realizar a nação.
Na política a resposta apresentava-se desanimadora: preponderavam o poder
das oligarquias, o regionalismo, o voto de cabresto, o federalismo distorcido;
na arte, os acadêmicos, a estagnação, o culto à gramática lusa e, fundamentalmente,
a submissão aos padrões estéticos europeus.
No sentido generalizador - e até simplista, já que não cabe aqui
discussão sobre o Tenentismo - o Movimento Tenentista se revestiu
de caráter combativo não só aos regionalismos, como também à exclusão
da classe média e militares do processo político. A sua força, somada
à aliança com os políticos descontentes, faria nascer a Aliança Liberal
e a Revolução de 30. Cumpre analisar com mais cuidado o outro lado da
"nação": o Modernismo. Não só pela extensa bibliografia concernente ao
assunto, como também pelo fato de ser o tema bastante controverso (principalmente
no que tange à Semana de Arte Moderna).
2.2 O Modernismo
"Deveríamos ter inundado a caducidade do nosso discurso... fomos bastante
materiais. Vaidade, tudo vaidade..." (ANDRADE, 1974). Essas são frases
proferidas por Mário de Andrade em conferência lida na Casa do Estudante
do Rio e no Ministério das Relações Exteriores, durante comemorações dos
20 anos da Semana de Arte Moderna. Numa clara crítica ao movimento, do
qual não só participou como foi um dos grandes expoentes, Mário nos antecipa
a complexidade que envolve o debate sobre o assunto.
Os testemunhos acerca da Semana e do Movimento Cultural Modernista incluem
desde visões considerando ambos responsáveis pela renovação cultural do
país, até a sua interpretação como "patuscada" (OLIVEIRA, 1993, p l1)
ou ainda reunião dos sócios do Automóvel Clube do Brasil (PRADO, 1972).
Afora tais análises valorativas, cumpre estabelecer que, na presente monografia,
interessa abordar as características do Movimento (aqui incluída a Semana)
e as idéias recorrentes a ele, no sentido de compreender o meio intelectual
do qual participavam Mário de Andrade e Paulo Prado. Nessa perspectiva,
faz-se necessário analisá-lo sob a ótica das interpretações que revelam
seu cunho nacionalista, tema perseguido pelo trabalho.
Segundo Antonio Candido, o período anterior ao Modernismo caracterizava-se,
na literatura, por um academismo e por um espiritualismo exarcebados,
o que conferia às obras um caráter superficial e desligado do mundo exterior.
Por outro lado, na tentativa de aproximação de Portugal, ou seja, dos
padrões europeus, havia um constrangimento em assumirmos o nosso passado
colonial e a nossa formação social mestiça.
Rompendo com esse estado de coisas, o Modernismo reinterpretaria nossas
deficiências - supostas ou reais - como superioridades. O
primitivismo passa a ser " [ ... ] fonte de beleza e não mais empecilho
à elaboração da cultura" (CANDIDO, 1985, p. l 20). Sobre tal questão,
Alfredo Bosi [s.d.] afirma que os princípios modernistas eram fruto da
dinâmica entre futurismo - advindo da necessidade de acertarmos
o passo com a 2ª fase da Revolução Industrial - e primitivismo.
No entanto, os próprios modernistas declaravam sua estética mais de reação
do que futurista. Reação às estruturas mentais das velhas gerações, num
esforço de penetrar fundo na realidade brasileira. Para expressar tal
renovação, buscavam inspiração nas vanguardas francesas e italianas, a
fim de informar-se sobre o que havia de novo e plasmar um tipo de expressão
ao mesmo tempo local e universal. Tratava-se de reencontrar a influência
européia para mergulhar no detalhe brasileiro.
Portanto, como nos ensina Antonio Candido, o Modernismo constituía-se
como fase culminante da dialética local/cosmopolita - tão cara á nossa
arte, visando não uma transposição de padrões estéticos, mas uma manifestação
de solidariedade com a cultura internacional.
Interessante torna-se a contribuição de Francisco Iglesias acerca desse
aspecto do Movimento Modernista. O historiador chama atenção para o fato
de que a importação de modelos de atualização estética não pode ser vista
como apanágio do Modernismo. O que parece ser uma contradição para tal
movimento de cunho nacionalista sempre figurou nas correntes estéticas
brasileiras. Estar em dia com as vanguardas européias - é claro que tivemos
momentos de transposição - é atitude comum no nosso meio artístico. O
novo em 20 era exatamente a utilização dos padrões estéticos europeus
para o mergulho no Brasil, para a redescoberta do passado colonial, para
a pesquisa folclórica. Enfim, embora os meios e as formas - se é que se
pode separá-los do conteúdo - não fossem "nacionais", perseguia-se desvendar
as raízes da nacionalidade.
Em 1922, no bojo de toda essa efervescência no campo das idéias de, senão
renovação, pelo menos de levantamento de reflexões, aconteceu a famosa
Semana de Arte Moderna, financiada pelo historiador Paulo Prado e tendo
como um dos seus representantes mais importantes o escritor Mário de Andrade.
Apesar de várias críticas em torno do acontecimento, que lhe atribuem
um caráter elitista e vinculado ao interesse de projetar nacionalmente
artistas sem nenhuma expressão (PRADO, 1972) , o fato é que a Semana "sacudiu
o ambiente'' paulista, a fim de assegurar a construção de um Brasil crítico
e criador.
São Paulo, na época, desejava se apresentar como estado brasileiro símbolo
de modernidade e brasilidade. O otimismo em relação ao estado originava-se,
na década de 20, do processo de desenvolvimento econômico que experimentava.
Historicamente tal imagem devia-se a todo movimento de expansão territorial
e, portanto, de configuração geográfica do país, que estava atrelado ao
bandeirismo paulista. São Paulo aparecia assim, aos olhos da nação, como
o grande empreendedor, o centro do trabalho, o território que deu origem
ao verdadeiro brasileiro - quase que herói - e, nesse sentido, o único
estado capaz de promover a construção da identidade nacional.
Seguido Mônica P. Velloso, o Modernismo refundaria essa crença na superioridade
paulista, o que evidencia o fato de em muitas das obras o Brasil aparecer
confundido com São Paulo. Tal questão nos remete à polêmica nodal do Movimento
Modernista: a discussão acerca do caráter regionalista ou nacionalista
das produções. Enquanto alguns grupos - já que a discussão gerou divisões
dentro do movimento - buscavam estabelecer o símbolo da nacionalidade
a partir das características do estado/região, ou seja, de encontrar a
nacionalidade em algum espaço geográfico que fosse eleito o "mais brasileiro",
outros propunham encontrar nossa identidade exatamente na diversidade
que compunha o nacional (unidade de diversos culturais).
Importa assinalar ainda que o próprio Mário de Andrade formularia uma
nova concepção sobre o regional e o nacional que parece se consolidar
em Macunaíma. O escritor defenderia a idéia da "desgeografização
do Brasil", posto que a unidade, a nossa identidade, só poderiam ser traçadas
no âmbito de uma análise histórica da formação da nacionalidade brasileira.
Recorrer a esse processo provavelmente significaria colher os elementos
regionais, folclóricos, característicos de cada região para torná-los
elementos da identidade nacional.
Aliás, tal vertente histórica - bastante incomum na época - parece não
ter sido seguida só por Mário. Arriscaria dizer que essa foi igualmente
a vertente de Paulo Prado, ao escrever Retrato do Brasil. Dos dois
textos agora nos ocuparemos.
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