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História

Os aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro

José Ribamar Bessa Freire

Márcia Fernanda Malheiros

Os índios do Rio de Janeiro e suas Aldeias de Origem

Como viviam

As duas primeiras famílias linguísticas - Tupi e Puri - reúnem os povos historicamente mais importantes do Rio de Janeiro, que ocuparam vastas extensões do seu território. Eles contribuíram decisivamente para a formação étnica do povo fluminense. Por isso, é necessário estudá-los, saber como é que viviam e identificar a herança que nos deixaram. O estado atual das informações que temos sobre eles é ainda precário, incompleto e contraditório, levando a encarar com cautela as generalizações. Trata-se de um conhecimento em processo de construção. Considerando essas limitações, podemos resumir algumas características mais importantes encontradas em alguns povos dessas duas famílias linguísticas.

A Família Tupi 

Os povos Tupi, que habitavam o litoral, foram os primeiros a entrar em contato permanente com os colonizadores portugueses e com as expedições francesas ao Brasil.

Cronistas, viajantes, missionários, governadores, ouvidores e autoridades coloniais deixaram crônicas, relatos, cartas e outros documentos, com descrições detalhadas sobre como viviam, sobretudo os Tupinambá: suas malocas e aldeias, o tipo de agricultura que praticavam, os instrumentos de trabalho, as técnicas de fabricar canoa e de navegar, as armas que usavam nas guerras intertribais, as alianças, as formas de tratar os prisioneiros, seus rituais e crenças, sua organização social e política. Por isso, os tupi foram mais estudados e são mais conhecidos que outros povos.

Viviam em aldeias ou tabas, compostas de quatro a oito malocas, que eram habitações retangulares, grandes e sem divisões internas, dispostas em círculo e protegidas por uma cerca ou paliçada. No centro da taba ficava um pátio ou uma praça, onde faziam suas reuniões e assembleias.

Essas aldeias, em geral, estavam localizadas em terras férteis, perto da floresta e do rio, para facilitar a agricultura, a caça e a pesca. Cultivavam, em grandes roças comunitárias, mandioca, milho, abóbora, feijão, amendoim, tabaco, pimenta e muitas árvores frutíferas. Plantavam e teciam o algodão, com o qual faziam suas redes de dormir. Fabricavam cestas de cipó, panelas e vasos de barro, machados de pedra, facas de casca de tartaruga, agulhas de espinhas de peixe, e muitos instrumentos musicais de sopro e percussão.

Segundo os depoimentos dos missionários, eram povos alegres, apaixonados pela música e pela dança. Pintavam o corpo e enfeitavam-se com colares feitos de conchas marinhas, penas coloridas de aves e outros produtos.

Todas essas atividades só podiam ser realizadas porque os povos Tupi dominavam um vasto campo de conhecimentos. Os antigos Tupinambá, por exemplo, tinham noções de astronomia e podiam prever as chuvas e as grandes marés, observando as estrelas, a lua e o sol. Na área da ecologia, conheciam as relações entre os seres vivos e o meio ambiente, os hábitos dos animais, os locais que frequentavam, as trilhas que percorriam e a época de amadurecimento dos frutos que lhes serviam de alimento. Acumularam saberes sobre a propriedade medicinal dos vegetais. Realizavam experimentos genéticos com as plantas, selecionando sementes e testando hipóteses para melhorar as espécies. Classificaram o mundo natural, com um rigor equivalente ao realizado pelos europeus nos campos da biologia, botânica e zoologia. Observadores cuidadosos da natureza, os índios produziram ciência.

Os mitos, a religião e o sistema de crenças dos povos Tupi foram documentados sobretudo pelos cronistas do século XVI e estudados até os dias de hoje. Hans Staden, um alemão que entendia de artilharia e de canhões, passou nove meses e meio como prisioneiro dos Tupinambá, na região de Angra dos Reis. Deixou um relato clássico, escrito em 1554, no qual descreve os lugares onde esteve, as relações entre os membros da aldeia e os vizinhos, os costumes, as alianças, a morte cerimonial de prisioneiros de guerra e o canibalismo, que era uma prática relativamente corrente, socialmente aceitável e até mesmo valorizada entre alguns grupos indígenas. Matar publicamente um inimigo era o acontecimento central, numa sociedade onde a vingança socializada era a instituição por excelência.

Mais informações podem ser encontradas nas crônicas portuguesas, especialmente nas de Pero Magalhães Gândavo (1557) e Gabriel Soares de Souza (1587), nos relatos dos franceses André Thevet (1558) e Jean de Léry(1578) e em estudos contemporâneos como os trabalhos pioneiros de Alfred Métraux e Florestan Fernandes, entre outros, e os de Carneiro da Cunha e Viveiros de Castro. (ver Bibliografia).

A Família Puri

Os índios da família Puri não são tão conhecidos como os da família Tupi. Os documentos sobre cada um deles foram escritos em momentos históricos diferentes, na medida em que iam entrando em contato com os colonizadores. Cada autor observou aspectos que mais lhe interessavam sobre os principais grupos, entre os quais se destacam os índios que falavam as línguas Goitacá, Guarulho, Puri, Coroado e Coropó, sobre quem reproduziremos algumas breves notícias.

Os Goitacá

Os Goitacá do litoral, por exemplo, desde os primeiros momentos da colonização entraram em conflito armado com portugueses e franceses. Por isso, são mencionados nas crônicas do século XVI. No entanto, como regra geral, os autores que escreveram sobre esses índios não tiveram um contato direto e pessoal com eles. Limitaram-se a anotar informações de segunda mão, obtidas com índios tupi ou com colonos que os combatiam. Os Goitacá foram exterminados e desapareceram do mapa do Rio de Janeiro, sem deixar o registro escrito de uma só palavra da sua língua.

A documentação histórica informa que os Goitacá eram guerreiros robustos e altos, ou, como escreve Simão de Vasconcelos, "gente agigantada, membruda e forçosa". Manejavam o arco e a flecha com uma agilidade extraordinária. Destacavam-se pela habilidade em nadar e pela velocidade em correr. Sua pele tinha uma cor um pouco mais clara do que a dos seus vizinhos Tupinambá. Usavam cabelos compridos, descendo pelas costas, mas raspavam a parte da frente da cabeça. Habitavam em pequenas cabanas de palha. Praticavam a agricultura de coivara, plantavam milho e vários tipos de tubérculos, mas não cultivavam a mandioca, como os Tupinambá. Enterravam seus mortos em igaçabas lisas, ovoides e cinzentas, sem ornamentos.

Os Guarulho

Já os índios Guarulho ou Guaru, conhecidos também na época como Guaruçus ou Gessaruçus, foram descritos pela primeira vez numa carta do padre Salvador do Vale, datada de 12 de setembro de 1648. Os Guarulho viviam na floresta, do outro lado da Serra dos Órgãos, nas margens dos rios Piabanha e Paraíba, quando foram contatados e convencidos pelos jesuítas a abandonarem suas terras e se mudarem para o litoral. Vale a pena transcrever um pequeno trecho da carta do missionário, escrita no português da época:

"São os Gessaruçus gente comumente limpa, e mais bem apessoada que as outras nações (...). Vivem como em comunidade, governam-se por um principal a quem exactamente obedecem. Costuma êste tôdas as manhãs, ao romper da aurora, pregar-lhes na sua língua, incitando-os a que trabalhem para sustentar a vida. Acodem a esta admoestação, plantando legumes, para cujo aprêsto lhes deu a natureza industriosa uns paus com que rasgam a terra, vindo a não fazer falta a polícia da arte com seus artificiosos instrumentos. Não tem outro vestido mais que o que lhes deu a natureza".

O missionário, autor da carta, acha os costumes dos Guarulho um pouco mais refinados que os de outros povos, com quem viviam em guerra. Descreve-os como muito valentes. Conta como foi celebrada a primeira missa na aldeia do rio Piabanha e narra o deslocamento de 400 deles para a Aldeia de Cabo Frio, no litoral, onde se submeteram ao sistema de catequese dos jesuítas. Eles também, como os Goitacá, desapareceram do mapa, sem deixar uma só palavra de sua língua.

Os Puri, Coroado e Coropó

Este não foi o caso dos Puri, Coroado e Coropó, cujos vocabulários foram registrados por alguns estudiosos no século XIX. Durante muito tempo, esses índios mantiveram entre si relações belicosas, apesar de falarem idiomas muito parecidos, com tantas afinidades linguísticas, como o português com o espanhol.

No plano cultural, tinham também muitos pontos em comum e algumas diferenças. Como habitavam o interior, na bacia do Paraíba e seus afluentes e ocupavam territórios localizados em várias serras, de difícil acesso, não tiveram contato direto e sistemático com o europeu nos dois primeiros séculos de colonização. Só tardiamente, no século XVIII, são escritos os primeiros documentos, dando notícias deles. Alguns grupos vão ser encontrados apenas no século passado.

O nome Puri é, na verdade, uma designação pejorativa, dada a esse povo pelos seus vizinhos, os índios Coroado, com quem viviam em guerra. Este apelido acabou ficando como a identidade definitiva.

Já o nome Coroado é também um apelido, criado pelos portugueses, por causa do corte de cabelo desses índios, que apresentavam uma tonsura circular na parte mais alta e posterior da cabeça, como os frades franciscanos.

Não se tem notícia da origem da palavra Coropó, mas existem algumas descrições sobre eles. Os Coropó, encontrados em abril de 1818 por dois cientistas alemães, Spix e Martius, do lado do território de Minas Gerais, "eram todos de estatura mediana, de ombros e de queixos largos, muito magros, sobretudo na barriga das pernas". Os Puri, visto pelos mesmos viajantes, tinham o porte baixinho, a pele de um vermelho-pardo, o cabelo negro de carvão, a cara larga e angulosa e "os olhos pequenos, oblíquos e inconstantes". Quanto aos Coroado, foram descritos como robustos e atarracados, com ombros largos, pescoço curto e grosso, os dentes muito alvos com os incisivos bem alinhados e os caninos salientes.

Segundo documentos escritos por alguns observadores, esses três povos, ao contrário dos Tupi, não eram grandes agricultores. Praticavam uma agricultura muito simples. No século XIX, os Coropó, já em contato com a população regional do norte-fluminense, cultivavam milho, abóbora, banana, cará, feijão e algumas árvores frutíferas, criavam galinhas e possuíam cachorros. No entanto, os Coroado eram, dos três, os que mais se ocupavam de tarefas agrícolas, dominavam técnicas mais elaborados de cozinha e eram considerados bons oleiros e ceramistas. Fabricavam potes, cântaros, jarros, gamelas, alguidares, utensílios como peneiras de vime, cestas de palhas de várias formas e tamanhos, semelhantes às fabricadas pelos Tupi, e cuias. Preparavam farinha de milho em pilão cilíndrico de madeira. Os Puri, que plantavam pouco, eram acusados de roubar as roças tanto dos Coropó e Coroado, como também dos sitiantes, moradores e fazendeiros.

Nas descrições sobre os modos de vida desses povos, pouca coisa se fala relacionada ao uso de canoas ou às atividades de pesca. Desconheciam o anzol e pegavam peixes com flecha e compridos arpões. Mas a pesca parece ter tido uma importância secundária para eles, diferentemente da caça. Os Puri e os Coroado são apresentados sempre como excelentes caçadores e hábeis rastreadores, empregando os mais variados métodos de caça que envolvia o uso de alçapão, arapucas, laços, armadilhas diversas, arcos feitos da palmeira airi ou brejaúba com arco de fibra de tucum e flechas e lanças feitas de taquara.

As casas dos Puri eram cabanas cobertas de palha, de construção simples. As malocas coletivas dos Coroado, que abrigavam até 40 pessoas, tinham construção mais elaborada. A aldeia dos Coroado visitada por Spix e Martius, por exemplo, era formada por casas erguidas sobre quatro pilares. "As paredes, de ripas leves amarradas com cipós e às vezes rebocadas com barro, tinham de dois lados aberturas da altura de um homem, munidas de portas móveis de folhas de palmeira".

Enquanto os Coroado dormiam em redes de algodão, os Puri usavam redes de fibra de imbaúba. Alguns grupos Puri raspavam toda a cabeça; outros cortavam o cabelo à altura da nuca. Mas tanto os Puri, como os Coroado e os Coropó pintavam-se de vermelho com urucum e de preto com jenipapo, realizando ainda diferentes tipos de tatuagem no corpo. Usavam cocares de penas coloridas, colares, braceletes e pulseiras de dentes de animal e sementes de plantas.

Vários viajantes e cientistas do século XIX como Saint-Hilaire, Eschwege, Spix e Martius, entre outros, produziram informações sobre a organização social e política desses povos, sua religião, a função social do xamã, a medicina indígena e os processos de cura, os diferentes ritos cerimoniais realizados no nascimento, casamento e morte, as atividades lúdicas e artísticas, as danças, cantos e instrumentos musicais. O Museu de Viena guarda um instrumento de sopro dos Coroado. (Ver Bibiliografia).

O cientista alemão Martius, que era botânico, e seu colega Spix, que era zoólogo, manifestaram, em diferentes momentos, a sua admiração pela "infalível memória" dos índios da família linguística Puri, reconhecendo o profundo saber que possuiam e o sofisticado sistema de classificação que elaboraram: "Eles (os índios Puri) sabiam designar quase que todos os animais, todas as árvores, todas as ervas do mato, com o nome próprio e davam informações minuciosas sobre a utilidade de cada um". As palavras usadas nas línguas indígenas para designar animais e plantas foram consideradas pelos dois cientistas como sendo de "grande exatidão" e tão expressivas que permitiam ver facilmente "o parentesco das coisas da natureza entre si". Os dois cientistas elogiaram a capacidade de observação e o conhecimento completo que esses índios possuíam sobre as propriedades físicas e químicas de seu ambiente botânico, confessando que aprenderam muito com a ciência indígena: "a denominação dada pelos índios a diversos macacos e a certas palmeiras foi para nós um guia na investigação dos gêneros e espécies, pois quase cada espécie tem um nome indígena próprio".

Originalmente publicado em 1997. Publicado na Educação Pública em 8 de maio de 2007.