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História

Os aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro

José Ribamar Bessa Freire

Márcia Fernanda Malheiros

Os índios do Rio de Janeiro e suas Aldeias de Origem

As aldeias onde moravam

No momento da chegada dos primeiros europeus, os índios viviam em aldeias ou tabas espalhadas por todo o território do Rio de Janeiro. A aldeia era a maior unidade política das sociedades indígenas. Cada uma delas tinha autonomia e reconhecia como autoridade maior o seu chefe, tuxaua, morubixaba ou cacique.

Os nomes dessas aldeias - os topônimos indígenas - referem-se a acidentes geográficos, denominações de animais, de plantas, de elementos culturais. Às vezes, eram designadas pelo nome do seu próprio chefe. Segundo alguns tupinólogos, nem sempre é fácil interpretar o significado desses nomes, que apresentam grafias diferentes e foram recolhidos por quem não dominava bem as línguas indígenas, havendo, portanto, muito de fantasia na identificação de sua procedência etimológica. Por outro lado, a descrição dos lugares onde ficavam são tão incompletos, que fica difícil determinar com precisão a localização de cada uma delas. De qualquer forma, existem estudiosos que tentaram mapeá-las, nem sempre com o devido cuidado, apresentando, em alguns casos, resultados discutíveis.

Para algumas áreas, as informações da época são mais precisas. O cosmógrafo francês André Thevet, por exemplo, elaborou um mapa da Ilha do Governador, onde aparecem, só aí, cerca de 36 tabas. Era nesta ilha que ficavam as aldeias Paranapucuhy, Pindó-usú, Koruké, Pirayijú, Coranguá. Outro cronista francês, Jean de Léry, num levantamento parcial, encontrou em torno da Baía de Guanabara um total de 32 aldeias tupis entre 1550 e 1560. Depois, novas listas, também parciais, foram feitas por missionários e cronistas portugueses, acrescentando outras povoações.

O primeiro nome da lista de Léry é a aldeia Kariók ou Karióg, situada no sopé do morro da Glória, na foz do rio Carioca, o rio sagrado dos Tamoio que tinha, além dessa, uma segunda foz, mais caudalosa, na praia do Flamengo, onde localizava-se outra aldeia, chamada Urusúmirim ou Abruçumirim. O Pão de Açucar também estava cercado por aldeias indígenas. Três delas situadas ao lado do Morro da Babilônia: Jaboracyá, Eyramiri, Pana-ucú. Duas - Japopim e Ura-uassú-ué - quase em frente ao penedo.

Entre o Pão de Açúcar e o Morro da Viúva, ficava a aldeia Okarantim. No caminho para o rio Carioca, a aldeia Tantimã. Na barra da Tijuca, a aldeia Guiraguadú-mirim. A aldeia Maracajá, na ilha do Fundão, era ocupada pelos Temiminó.

A lista continua. Próximo à Lagoa Rodrigo de Freitas existia uma aldeia chamada Kariané. Distribuídas pelos morros de Santa Tereza e Santo Antônio, as aldeias de Katiuá, Kiriri, Anaraú e Purumuré. Na região ocupada hoje pelos subúrbios ao longo da Central do Brasil existiam dezenas de aldeias, entre as quais Pavuna, Irajá Catiú, Savigahy, Taly, Uepeé, Itauá, Uery, Acorosó, Margavia, Sarapú, Iraramem, Sapopema.

Do outro lado da baía, em Niterói, existiam também muitas aldeias, algumas das quais foram registradas em documentos históricos, como Icaraí, Itauna, Nurucuné, Arapatué, Urapué, Uraramery, Caranacuy.

Eram centenas e centenas de tabas ao longo de todo o território, habitadas por um número incalculável de índios. Segundo os relatos da época, a população de cada aldeia tupinambá variava entre 500 e 3.000 índios. A reavaliação do tamanho da população indígena de todo o continente americano vem sendo feita, nos últimos vinte anos, por pesquisadores de demografia histórica, influenciados pela chamada Escola de Berkeley (EUA). Até então, as estimativas eram um palpite, um "ato de fé" e, por isso, variavam muito, de acordo com a ideologia de seus autores. Aqueles interessados em minimizar o papel do colonizador no extermínio dos índios faziam sempre cálculos por baixo, ao contrário dos outros que faziam estimativas exageradamente altas. A chamada Escola de Berkeley desenvolveu com bastante sucesso novas técnicas, mais rigorosas, para abordagem do assunto: a combinação de fontes históricas com evidências arqueológicas, ecológicas e etnográficas; o controle cruzado das notícias de duas ou mais fontes sobre a mesma questão; o cálculo de taxa de despovoamento; o estudo dos habitats e dos padrões de subsistência; a estimativa de densidade populacional e o uso de métodos de projeção. Para a área do Rio de Janeiro, esses estudos estão ainda em fase muito embrionária.

Originalmente publicado em 1997. Publicado na Educação Pública em 8 de maio de 2007.