A
participação dos Laboratórios Bell, de Murray Hill em New Jersey, da American
Telephone & Telegraph-AT&T, ou AT&T-Bell, desde 1939, constituiu um
fator de forte influência no processo de construção de computadores,
principalmente sob a "batuta" do matemático americano George R. Stibitz. Foram
estes Laboratórios que, através de seus cientistas, conseguiram resolver o
problema causado pelo consumo excessivo de energia e queima das válvulas dos
ENIACs, inventando o Transístor (Transfer Resistor ou "resistor de
transferência").
Esta
inovação foi um produto de pesados investimentos nas áreas de pesquisa e
desenvolvimento (FREEMAN,1982:92). Seu aperfeiçoamento só pôde ser concretizado
a partir de uma base gigantesca de desenvolvimento obtida em grandes
laboratórios, como os Laboratórios Bell, que chegaram a empregar mais de 2.000
profissionais no final da década de 40 (DORFMAN, 1987:172).
Vinte
e cinco por cento do orçamento das pesquisas em semicondutores, de 1949 a 1958,
eram provenientes de contratos de defesa estabelecidos pelo governo federal
(FLAMM,1988:16; SCOTT & STORPER,1988a:31; PIRES,1992:71-72).
O
Transístor, assim como outros dispositivos úteis, tais como o diodo
semicondutor, diodotúnel, etc., faz uso de semicondutores de impurezas, que
resultam da adição controlada de certas impurezas a semicondutores intrínsecos
(TRIPLER,1981:288).
A
era do Transístor iniciou-se em 1948, quando John Bardeen, Walter Brattain e
William Shockley, físicos do estado sólido, todos da Bell Telephone Laboratories,
deram início à primeira revolução na eletrônica com a invenção do transístor
(PRESTOWITZ,1988:124; TYLECOTE,1991:56). Os
Laboratórios Bell construíram, em 1950, o primeiro computador transistorizado,
chamado de LEPRECHAUN. Mas a
comercialização definitiva desta nova geração de computadores só se efetiva na
prática no final da década de 50 através da Sperry Univac, provando que nem
sempre o tempo de descoberta de uma invenção é o mesmo de sua inovação ou
comercialização, ou mesmo de seu reconhecimento, como foi o caso do prêmio
Nobel dado aos inventores do Transístor em 1956, quando a descoberta ocorrera
em 1948.
A IBM só lançou seus primeiros modelos
transistorizados de computadores em 1960.
Em
1954, antes de receber o prêmio Nobel, Shockley deixa a AT&T's Bell
Laboratories para comercializar sua invenção, depois da frustada iniciativa de
estabelecer uma firma de Transístor em Massachussetts.
Em
1956, William Shockley, que era de Palo Alto, Califórnia, foi indicado pelo
professor e empresário Frederick Terman, que fundou, em 1951, o Parque
Industrial de Stanford (CASTELLS,1989:44), para ser professor de Engenharia
Elétrica da Universidade de Stanford. Lá, Shockley estabeleceu a Shockley
Transistor Corporation (SAXENIAN,1994:25), procurando atrair jovens e
talentosos físicos, químicos e engenheiros, como foi o caso mais tarde de
Robert Noyce, doutor em física do estado sólido pelo MIT.
Como
Shockley "não era um bom administrador de empresa", dois anos depois, do grupo
de excelentes cientistas que possuía na sua empresa, oito, incluindo Robert
Noyce e Gordon Moore, resolveram implantar, em 1957, com o apoio do banqueiro
Arthur Rock e o suporte da Fairchild Camera and Instrument Company de New York,
o núcleo da Fairchild Semiconductor Company (DORFMAN,1987:181;
SAXENIAN,1994:25; PRESTOWITZ,1988:125).
A
Fairchild, ao introduzir inúmeros avanços tecnológicos, tornou-se a mais
importante empresa de semicondutores dos EUA, mas os problemas de gestão
reapareceram, e o antigo grupo dos oito se dissolveu e um grande número de
pesquisadores e executivos da Fairchild se reorganizaram e formaram várias
outras empresas de semicondutores, como:
| • |
Rheem Semicondutor, formada em 1959; |
| • |
Signetics e Amelco (depois Teledyne Semiconductor),
formadas em 1961; |
| • |
Molectro (outra filial da Fairchild) dentro da
National Semiconductor como o maior competidor, formada em 1967; |
| • |
Intel, formada por dois fundadores da
Fairchild, em 1968; |
| • |
Advanced
Micro Devices, formada pelo gerente de marketing e mais sete empregados da
Fairchild em 1968 |
A
importância regional de Santa Clara Valley pode ser, em parte, creditada à
Fairchild, que foi o ancestral comum de 21 das 23 empresas de semicondutores da
região, além dos investimentos milionários do Pentágono para pesquisa
eletrônica, na Universidade de Stanford, que ajudaram a criar o Instituto de
Pesquisa de Stanford (DICKEN,1992:328) e ajudaram a criar, também, o Lawrence
Livermore National Laboratory ligado à Universidade da Califórnia (CASTELLS,1989:53).
Em
1980, as vendas de semicondutores das empresas americanas representavam 6
bilhões de dólares (DORFMAN,1987:127), sem considerar que a tecnologia dos
semicondutores se transformou em um quase-insumo tecnológico, do qual o
desenvolvimento industrial não pôde mais prescindir na produção de diferentes
atividades comerciais, principalmente eletro-eletrônicas.
A
Universidade de Stanford, tendo conhecimento estratégico sobre a produção de
Alta-Tecnologia, concedeu, desde 1951, a título de contrato de aluguel, terras
para estas empresas, com o objetivo de promover e criar o ambiente necessário
para o desenvolvimento de tecnologias inovativas na região.
A
lógica territorial de implantação das indústrias de AT nos EUA (Semicondutores,
Biotecnologia, Computadores, etc.) foi, no início, de certo modo, ditada pela
"magia" dos grandes Laboratórios e Universidades do Nordeste e do Leste da
região do Snowbelt, depois passou a assumir um caráter estratégico de
localização e foi transferida para o Sul,
o Oeste e para as regiões de deserto e do Sunbelt: Austin, Dallas-Fort Worth,
Houston Phoenix, San Diego, Santa Clara County e outros centros
(SCOTT,1988b:160), onde fortes investimentos estatais de defesa começaram a se
concentrar. |