A
constituição de cibercidades na rede mundial de computadores e no ciberespaço
revela uma outra forma de reestruturação que não é apenas territorial e sim
também virtual. A cibercidade inaugura uma outra estrutura virtual e flexível
de acumulação do capital financeiro sob a forma digital.
Assim
como a economia digital, o capital digital e o consumo digital, a cibercidade
constitui uma forma de urbanização digital. O debate está aberto, pesquisas
sobre o desenvolvimento do comércio digital e da era digital apontam para temas
que já estão começando a chamar a atenção de especialistas.
Apesar
da desconfiança, por parte de alguns geógrafos e de uma parcela da comunidade
acadêmica, em analisar o ciberespaço e a exclusão digital de grande parte da
população mundial, não há porque negligenciar a importância da rede mundial de
computadores. O imperativo do ciberepaço e da era digital é um fato
irreversível.
Neste
sentido, cumpre à ciência geográfica o esforço de investigar, analisar,
problematizar e propor políticas públicas para o desenvolvimento da cidade real
e da cibercidade.
Na
atualidade, o grande desafio do planejamento e do desenvolvimento local de
cibercidades consiste em atuar no aprimoramento da reprodução das relações
sociais e garantir o pleno exercício da cidadania na era da sociedade da informação.
São
enormes desafios a serem enfrentados para a promoção, o planejamento e o
desenvolvimento das cibercidades. A favor da exclusão digital estão:
·
os elevados custos dos serviços tradicionais de
telefonia, principal barreira ao acesso à internet;
·
a
ausência de provedores de internet nas pequenas localidades e a oferta
concentrada nos grandes centros urbanos;
·
os
preços dos equipamentos de informática em relação às condições sócio-econômicas
dominantes;
·
a
ausência de financiamento para a compra de tecnologias de informática e
comunicação a professores e estudantes;
·
falta
de capacitação profissional para lidar com as novas tecnologias de informação e
comunicação (SILVA, 2002).
Apesar
de todas estas dificuldades, já é expressivo o número de iniciativas de
políticas públicas bem-sucedidas no Brasil. Um exemplos dessas iniciativas é a
construção de telecentros no Município de São Paulo (PIRES, 2002b).
O
caminho para consolidar um projeto de desenvolvimento "sustentável" de
cibercidades passa por construir software de alta qualidade através de uma
comunidade de desenvolvedores colaborando globalmente pela internet. A
comunidade DEBIAN de software livre representa a experiência global mais
avançada nesta direção. Duas importantes distribuições internacionais de
software livre emergiram dessa experiência: KNOPPIX, na Alemanha, e a KURUMIN,
no Brasil. A arquitetura do produto final, a documentação e todas as versões
dos programas baseadas em software livres ficam disponíveis para crítica e
melhoramento público, em uma imensa biblioteca pública chamada de GNU. A partir
de 1998, este tipo de iniciativa passou a ser respeitada pelas maiores empresas de tecnologia de
informação do mundo, inclusive a Microsoft.
Os
resultados observados e medidos foram muito melhores do que os obtidos pelo
método convencional, que consiste em reservar para um grupo restrito de
empresas as informações do processo de desenvolvimento e do produto final de um
software.
A
expansão rápida — seguida por uma forte queda — de dezenas de empresas de
software entre 1999 e 2001 não afetou a eficácia do método de "código fonte
aberto" e hoje praticamente todos os grupos empresariais e acadêmicos que
lideram o investimento e pesquisa em software têm uma estratégia definida para open source, mesmo que não seja a única
disponível.
Os
governos da União Européia, Ásia e algumas agências governamentais
norte-americanas buscaram definir claramente, e em alguns casos legalmente, sua
participação e benefícios na onda de mudanças em grande escala causadas por
esse movimento no ambiente corporativo, que era antes reservado de fato para os
softwares proprietários.
O
resultado mais visível foi a participação crescente no mercado do sistema
operacional Linux, a predominância do servidor web Apache e a infra-estrutura
de rede baseada em padrões abertos implementados em software livre (PIRES,
2002b).
Ainda
há muito a pesquisar e desenvolver para que esta mudança de paradigma atinja a
maioria de usuários de estações de trabalho e desenvolvedores de aplicações,
mas no universo de servidores a convivência (muitas vezes complexa) do software
proprietário com o livre já é realidade a ser considerada em qualquer plano de
investimento.
No
Brasil, diversos projetos estão em andamento para utilização, localização
(tradução) e desenvolvimento nesta área e têm auxiliado os governos locais a
implementarem sólidos investimentos no planejamento das cibercidades: os
Governos do Estado de São Paulo, do Rio Grande do Sul e da Bahia, e as
Prefeituras de Campinas, São Paulo, Belo Horizonte, Santo André, Niterói,
Recife e Porto Alegre são bons exemplos nesta direção.
O
momento oferece uma excelente oportunidade, para adquirir este conhecimento e
fortalecer, no Brasil e na América Latina, as bases sustentáveis de uma Sociedade
do Conhecimento baseada em software livre, que poderá proporcionar
extraordinárias vantagens econômicas, tecnológicas e sociais para o
desnvolvimento das cibercidades. |