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Inovação tecnológica e desenvolvimento da Cibercidade:
O advento da Cibercidade

 
Hindenburgo Francisco Pires
Professor de Geografia/UERJ
hfpires@uerj.br
 
Texto adaptado de uma apresentação na Conferência Internacional Cybercity,
realizada em São Paulo, em de outubro de 2003.
 
O advento da cibercidade e cibercidadania
 
De forma diferente da Cidade Informacional, a Cibercidade é fruto do desenvolvimento da Sociedade em Rede (CASTELLS, 1999a). Ela é o resultado da popularização da internet e da disseminação das Tecnologias de Comunicação.

No Brasil, as cibercidades foram originárias de grandes investimentos em infra-estrutura digital, efetuados na sua totalidade em antigos centros urbanos revitalizados.

A Cibercidade, conhecida também por Cidade Digital, Cidade Virtual, Município Digital ou Virtual, Cidade Eletrônica, Cidade Inteligente e outros cognomes, representa  a expressão da reestruturação territorial do novo regime de acumulação do capital sob o signo da sociedade capitalista em rede.

As primeiras cibercidades surgiram a partir da expansão das redes, do desenvolvimento de inúmeras inovações tecnológicas, da intensificação e cotidianização dos usos das novas tecnologias de informação e de comunicação.

As cibercidades emergem para atender as estruturas territorias de acumulação baseadas em rede, virtualmente criadas de acordo com as necessidades de empreenderodores reais e de iniciativas que visam se apropriar de relações econômicas e culturais criadas por esta dimensão da cidade capitalista real.
São inúmeros os projetos de cibercidades efetuados por iniciativas de governos locais no Brasil, cabendo destacar os seguintes:
Projeto Porto Digital, no Recife: http://www.portodigital.org.br
Porto Alegre Tecnópolis: http://nutep.adm.ufrgs.br/pesquisas/Desenanpur.html
Teleporto de Belo Horizonte: http://www.teleportobrasil.com.br/qsomos.htm
Teleporto de Nova Lima (MG): http://www.teleportobrasil.com.br/novalima.htm


Diferentemente das cidades informacionais que emergiram em regiões distantes e periféricas, as cibercidades se desenvolvem fortalecendo o "core" das antigas cidades mercantis e impulsionadas pelas fortes tendências de "deseconomia de aglomeração" destas. A expansão dos usos da tecnologia de informação e o crescimento da sociedade em rede promoveram o surgimento das cibercidades.

Um exemplo típico desta tendência é a constituição do Porto Digital do Recife, estruturado no antigo centro histórico da ilha do Bairro Recife, onde conjuntos vazios subutilizados e um acervo arquitetônico encontravam-se desvalorizados. Este espaço serviu de cenário para a estruturação de uma importante ciberplataforma de negócios com mais de 25 quilômetros de dutos subterrâneos que fazem do Bairro Recife uma das regiões urbanas mais conectadas do Brasil.

Tomando como exemplo o Porto Digital do Recife, pode-se afirmar que exite uma estrutura territorial de acumulação conectada por uma infra-estrutura de tecnologia de informação que tem como substrato a cidade capitalista real (PORTO DIGITAL DO RECIFE, 2002).

Mas as cibercidades tendem a se transformar em uma estrutura virtual de acumulação sem base territorial definida, formada por um conglomerado de empresas virtuais com endereço vinculado à rede mundial de computadores (a internet). Neste sentido, a cibercidade tende a ser um simulacro da cidade real (SILVA,2002).

Outro exemplo importante de cibercidade, que cumpre aqui ser destacado, é o Teleporto do Rio de Janeiro. Localizado no Centro Empresarial da Cidade Nova, o Teleporto do Rio de Janeiro representa uma concentração de serviços especiais de telecomunicação, constituída por edificações subterrâneas que possuem uma infra-estrutura formada por prédio inteligentes e uma rede de alta velocidade (fibras ópticas), capacitada para suportar  grandes tráfegos de informações.

O problema dos Teleportos e Portos Digitais é que estes são infra-estruturas tecnológicas de aportação à espera de investimentos e de empreendedores que nem sempre aparecem, além de serem infra-estrutura de elevado custo social. E, como foram projetadas pelo planejamento local com uma "antevisão inovativa", estas infra-estruturas tecnológicas estão ameaçadas de virarem tecnologias ultrapassadas com o avanço das tecnologias "wireless" e as que utilizam os satélites como meio de disseminação de redes, que poderão colocar em risco estes grandes investimentos econômicos. Investimentos em inovações não inteiramente sedimentadas podem jogar no ralo grandes somas de recursos, sem retorno do ponto de vista social.

No plano do discurso, as cibercidades são tratadas como se fossem desvinculadas da cidade real e são apresentadas como modelo de infra-estrutura social de informação para o século XXI.

A estrutura  virtual de acumulação da cibercidade se assenta na utilização de tecnologias digitais de informação e de telecomunicação, na enorme capacidade de geração de novos serviços qualificados, na diversidade dos conteúdos de informação, na generalização segura do comércio eletrônico e na oferta de novos formas de ócio. São exemplos típicos desta nova forma de ócio produtivo os cibercafés, telecentros, lan houses, cyberpoints, que são espaços virtuais, interconectados, que propiciam novas formas de relações sociais, de produção e consumo.

A cibercidade, com sua estrutura virtual de acumulação, expressa a constituição do novo regime de acumulação flexível capitalista, pois institui o teletrabalho, intensifica e cotidianiza a exploração inovativa do trabalho, efetuada pela fetichização digital através da transferência de trabalho ao consumidor no processo de consumo. Ou seja, o ato de pagar, consumir, transferir nominalidade a partir de docs eletrônicos, enseja um trabalho alienado, efetivado quando da realização de pagamentos com código de barra no caixa eletrônico do banco ou pela internet, e custos: eletricidade, provedor, aquisição e manuteção de equipamentos, que são definitivamente repassados ao consumidor, possuidor privilegiado da tecnologia de informação e comunicação para efetuá-los.

Mais uma vez, o capital se apropria do tempo livre gerado socialmente pelos avanços atuais das novas tecnologias de informação e comunicação. Esta forma de apropriação do trabalho abstrato é anunciada, no plano do discurso, como novos benefícios, facilidades e comodidades.

O advento da cibercidade passa a exigir em contrapartida, como na cidade real, a constituição de um Estatuto da Cibercidade que promova a cibercidania e a transparência das informações dos Governos Digitais.

As organizações políticas digitais repousam a sua representação também sob formas de interação e estas podem permitir o surgimento de formas inéditas de democracia direta, experienciada via cibercidania.

A cibercidade tende a ser uma projeção da cidade real. A exclusão digital é o exemplo paradigmático desta projeção do espaço real. Mas a constituição da cibercidade pode tabém contribuir para melhorar a comunicação entre cidadãos-cidadãos e cidadãos e os governos locais, neste sentido, a cibercidade pode favorecer a cibermilitância (MORAES, 2001:125) e a formação de movimentos sociais em rede.   

As novas formas de fazer política ganham força no ciberespaço, temas globais e locais podem ser discutidos sem as barreiras tradicionais da distância física, proporcionando a possibilidade de articulação e mobilização política global através da rede mundial de computadores, a internet. Os cibercidadãos, assim como o capital, têm a possibilidade de serem também globais.

Entender a cibercidade como projeção da cidade real é desvendar a produção do espaço real e a dialética da vinculação e da articulação entre este e o espaço virtual.

O desenvolvimento de políticas públicas e de infra-estruturas tecnológicas, baseadas em softwares livres, são avanços estratégicos, que proporcionam o barateamento dos custos e o acesso a serviços digitais; isto significa a ampliação da participação efetiva dos cidadãos no manuseio de informações e conhecimentos, no estabelecimento de relações que promovam a democratização e a inserção de múltiplos segmentos sociais e culturais na rede, possibilitando não só uma sociabilidade de seus membros, mas a ampliação também dos tradicionais processos capitalistas de produção, circulação e consumo. 

A sociabilidade na cibecidade se contrapõe à sociabilidade real, pois tende a inaugurar a cibersociabilidade da sozinhês. A cultura das redes promove a perda dos padrões de georeferenciamento, as escalas são diluídas pela velocidade dos fluxos de bits, as referências se verticalizam nos vínculos sem limites, concebidos pelos webdesigners.

A cibersociabilidade é complexa, nela pode-se indentificar outro tipo de produção cultural, na qual a referência identitária a um lugar tende a desaparecer. Na rede, as fronteiras são tecnológicas, mesmo com a expansão de novas práticas sociais e de tribos eletrônicas. A construção das identidades se dá a partir do meio na rede (provedor, ambiente virtual, plataforma tecnológica), mas os indivíduos se identificam e passam a ter uma relação afetiva entre si e não com um espaço virtual apenas.
 

Resumo
Introdução
Teoria da Inovação e o (res)surgimento do conceito de inovação tecnológica
O conceito de cidade sob o signo do capital
O surgimento da cidade industrial e inovação tecnológica
"Warfare State" e  o surgimento da Cidade Informacional
O advento da cibercidade e cibercidadania
Políticas públicas de desenvolvimento das cibercidades e software livre
Bibliografia
 

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