De
forma diferente da Cidade Informacional, a Cibercidade é fruto do
desenvolvimento da Sociedade em Rede (CASTELLS, 1999a). Ela é o resultado da popularização da internet
e da disseminação das Tecnologias de Comunicação.
No
Brasil, as cibercidades foram originárias de grandes investimentos em
infra-estrutura digital, efetuados na sua totalidade em antigos centros urbanos
revitalizados.
A
Cibercidade, conhecida também por Cidade Digital, Cidade Virtual, Município
Digital ou Virtual, Cidade Eletrônica, Cidade Inteligente e outros cognomes,
representa a expressão da
reestruturação territorial do novo regime de acumulação do capital sob o signo
da sociedade capitalista em rede.
As
primeiras cibercidades surgiram a partir da expansão das redes, do desenvolvimento
de inúmeras inovações tecnológicas, da intensificação e cotidianização dos usos
das novas tecnologias de informação e de comunicação.
As
cibercidades emergem para atender as estruturas territorias de acumulação
baseadas em rede, virtualmente criadas de acordo com as necessidades de
empreenderodores reais e de iniciativas que visam se apropriar de relações
econômicas e culturais criadas por esta dimensão da cidade capitalista real.
São
inúmeros os projetos de cibercidades efetuados por iniciativas de governos
locais no Brasil, cabendo destacar os seguintes:
Diferentemente
das cidades informacionais que emergiram em regiões distantes e periféricas, as
cibercidades se desenvolvem fortalecendo o "core"
das antigas cidades mercantis e impulsionadas pelas fortes tendências de
"deseconomia de aglomeração" destas. A expansão dos usos da tecnologia de
informação e o crescimento da sociedade em rede promoveram o surgimento das
cibercidades.
Um
exemplo típico desta tendência é a constituição do Porto Digital do Recife,
estruturado no antigo centro histórico da ilha do Bairro Recife, onde conjuntos
vazios subutilizados e um acervo arquitetônico encontravam-se desvalorizados.
Este espaço serviu de cenário para a estruturação de uma importante ciberplataforma de negócios com mais de
25 quilômetros de dutos subterrâneos que fazem do Bairro Recife uma das regiões
urbanas mais conectadas do Brasil.
Tomando
como exemplo o Porto Digital do Recife, pode-se afirmar que exite uma estrutura
territorial de acumulação conectada por uma infra-estrutura de tecnologia de
informação que tem como substrato a cidade capitalista real (PORTO DIGITAL DO RECIFE, 2002).
Mas as
cibercidades tendem a se transformar em uma estrutura virtual de acumulação sem
base territorial definida, formada por um conglomerado de empresas virtuais com
endereço vinculado à rede mundial de computadores (a internet). Neste sentido,
a cibercidade tende a ser um simulacro da cidade real (SILVA,2002).
Outro exemplo importante de cibercidade, que cumpre aqui
ser destacado, é o Teleporto do Rio de Janeiro. Localizado no Centro
Empresarial da Cidade Nova, o Teleporto do Rio de Janeiro representa uma
concentração de serviços especiais de telecomunicação, constituída por
edificações subterrâneas que possuem uma infra-estrutura formada por prédio
inteligentes e uma rede de alta velocidade (fibras ópticas), capacitada para
suportar grandes tráfegos de informações.
O problema dos Teleportos e Portos Digitais é que estes são
infra-estruturas tecnológicas de aportação à espera de investimentos e de
empreendedores que nem sempre aparecem, além de serem infra-estrutura de
elevado custo social. E, como foram projetadas pelo planejamento local com uma
"antevisão inovativa", estas infra-estruturas tecnológicas estão ameaçadas de
virarem tecnologias ultrapassadas com o avanço das tecnologias "wireless" e as que utilizam os satélites como meio de disseminação
de redes, que poderão colocar em risco estes grandes investimentos econômicos.
Investimentos em inovações não inteiramente sedimentadas podem jogar no ralo
grandes somas de recursos, sem retorno do ponto de vista social.
No
plano do discurso, as cibercidades são tratadas como se fossem desvinculadas da
cidade real e são apresentadas como modelo de infra-estrutura social de
informação para o século XXI.
A
estrutura virtual de acumulação da
cibercidade se assenta na utilização de tecnologias digitais de informação e de
telecomunicação, na enorme capacidade de geração de novos serviços
qualificados, na diversidade dos conteúdos de informação, na generalização
segura do comércio eletrônico e na oferta de novos formas de ócio. São exemplos
típicos desta nova forma de ócio produtivo os cibercafés, telecentros, lan houses, cyberpoints, que são espaços virtuais, interconectados, que
propiciam novas formas de relações sociais, de produção e consumo.
A
cibercidade, com sua estrutura virtual de acumulação, expressa a constituição
do novo regime de acumulação flexível capitalista, pois institui o
teletrabalho, intensifica e cotidianiza a exploração inovativa do trabalho,
efetuada pela fetichização digital através da transferência de trabalho ao
consumidor no processo de consumo. Ou seja, o ato de pagar, consumir, transferir
nominalidade a partir de docs eletrônicos, enseja um trabalho alienado,
efetivado quando da realização de pagamentos com código de barra no caixa
eletrônico do banco ou pela internet, e custos: eletricidade, provedor,
aquisição e manuteção de equipamentos, que são definitivamente repassados ao
consumidor, possuidor privilegiado da tecnologia de informação e comunicação
para efetuá-los.
Mais
uma vez, o capital se apropria do tempo livre gerado socialmente pelos avanços
atuais das novas tecnologias de informação e comunicação. Esta forma de
apropriação do trabalho abstrato é anunciada, no plano do discurso, como novos
benefícios, facilidades e comodidades.
O
advento da cibercidade passa a exigir em contrapartida, como na cidade real, a
constituição de um Estatuto da Cibercidade que promova a cibercidania e a
transparência das informações dos Governos Digitais.
As
organizações políticas digitais repousam a sua representação também sob formas
de interação e estas podem permitir o surgimento de formas inéditas de
democracia direta, experienciada via cibercidania.
A
cibercidade tende a ser uma projeção da cidade real. A exclusão digital é o
exemplo paradigmático desta projeção do espaço real. Mas a constituição da
cibercidade pode tabém contribuir para melhorar
a comunicação entre cidadãos-cidadãos e cidadãos e os governos locais, neste
sentido, a cibercidade pode favorecer a cibermilitância (MORAES, 2001:125) e a
formação de movimentos sociais em rede.
As
novas formas de fazer política ganham força no ciberespaço, temas globais e
locais podem ser discutidos sem as barreiras tradicionais da distância física,
proporcionando a possibilidade de articulação e mobilização política global
através da rede mundial de computadores, a internet. Os cibercidadãos, assim
como o capital, têm a possibilidade de serem também globais.
Entender
a cibercidade como projeção da cidade real é desvendar a produção do espaço
real e a dialética da vinculação e da articulação entre este e o espaço
virtual.
O
desenvolvimento de políticas públicas e de infra-estruturas tecnológicas,
baseadas em softwares livres, são avanços estratégicos, que proporcionam o
barateamento dos custos e o acesso a serviços digitais; isto significa a
ampliação da participação efetiva dos cidadãos no manuseio de informações e
conhecimentos, no estabelecimento de relações que promovam a democratização e a
inserção de múltiplos segmentos sociais e culturais na rede, possibilitando não
só uma sociabilidade de seus membros, mas a ampliação também dos tradicionais
processos capitalistas de produção, circulação e consumo.
A sociabilidade na cibecidade se contrapõe à sociabilidade
real, pois tende a inaugurar a cibersociabilidade da sozinhês. A cultura das
redes promove a perda dos padrões de georeferenciamento, as escalas são
diluídas pela velocidade dos fluxos de bits, as referências se verticalizam nos
vínculos sem limites, concebidos pelos webdesigners.
A cibersociabilidade é complexa, nela pode-se indentificar
outro tipo de produção cultural, na qual a referência identitária a um lugar
tende a desaparecer. Na rede, as fronteiras são tecnológicas, mesmo com a
expansão de novas práticas sociais e de tribos eletrônicas. A construção das
identidades se dá a partir do meio na rede (provedor, ambiente virtual,
plataforma tecnológica), mas os indivíduos se identificam e passam a ter uma
relação afetiva entre si e não com um espaço virtual apenas. |