A
cidade industrial teve como "força motriz" do conteúdo de sua centralidade a
produção manufatureira e industrial. O sucedâneo, na cidade informacional, é a
produção de bits e informação. O "pivô" das grandes modificações na estrutura
espacial das cidades parece ser a "tecnologia intelectual: o computador"
(BELL,1977:45).
A
gênese das cidades informacionais está umbilicalmente relacionada, nos EUA, com
a produção armamentísta, a alta-tecnologia e com o "Warfare State". Entretanto,
em alguns países desenvolvidos e "em desenvolvimento", que apresentam inúmeras
cidades com características aproximadas às encontradas nas cidades
informacionais estadunidenses, estas estão mais direcionadas à pesquisa e ao
desenvolvimento do que à produção de armas. São elas, segundo os países:
| 1. |
Estados Unidos: na região do Silicon Valley, na Califórnia,
constatam-se cidades com alta concentração de empresas, centros, laboratórios
direcionados à produção industrial de ponta (high-tech) e armamentos. Incluem-se nestas características as
cidades de: Palo Alto, Cupertino, Mountain View, Sunnyvale, Santa Clara e San
Jose; na região da Route 128, em Massachusetts, de modo semelhante,
encontram-se as cidades de: Bedford, Lexington, Burlinton, Waltham, Cambridge,
Boston, Weston, Neddham, Wellesley, Newton; na região do Orange County, as
cidades Santa Ana, Anaheim, Irvine; na região do Los Angeles County,
principalmente em sua periferia com o W. San Fernando Valley; |
| 2. |
Inglaterra, através dos Science Parks e do M4 Corridor, nas cidades
de: Cambridge, Edinburgh, Aston, Warwick, Glasgow e Salford; |
| 3. |
França, nas Cité-Scientifique Ile-de-France, próximas a Lille:
Technopole de Villeneuve-d'Ascq, Grenoble: ZIRST de Meylan e outras; |
| 4. |
Alemanha Ocidental, nas cidades surgidas dos esforços da
"UnTernehmerKultur", ou "Cultura de Empreendimentos" em Berlin: BIG Berlin
Centre for Innovation and new Enterprises, Munich: Silizium Tal e outras; |
| 5. |
Japão, nas cidades criadas pelo plano das cidades tecnológicas
japonesas (tecnopóles) Tsukuba, Mechatronics Valley (Nagoya), Silicon Island
(Kumamoto), semelhantes a Tama, Higashi-Ikoma e várias outras; |
| 6. |
Brasil, em Campinas, São José dos Campos, Itajuba e São Carlos; |
| 7. |
México, nas cidades próximas à fronteira dos Estados Unidos: Mexicali
e Ciudad Juarez; |
| 8. |
Coréia do Sul, nas Zonas Livres de Exportação de Masan e Daedak;
|
| 9. |
Filipinas, na Zona Livre de Exportação de Bataan. |
O
barateamento dos custos de comunicação facilitou os processos de cooperação,
articulação e interação entre os espaços. As distâncias foram sendo "quebradas"
pelos novos sistemas de comunicação.
As
cidades informacionais estavam situadas próximas das empresas de
alta-tecnologia, dos grandes laboratórios e centros de pesquisa científica e
tecnológica nos setores de química fina, informática, biotecnologia, produção
militar, óptica e física dos materiais; possuem um entorno técnico articulado
para a produção integrada e flexível de produtos. A cooperação e a troca de informações
e de conhecimento intensivo estão permitindo uma produção ampliada, mais
diversificada e dinâmica de mercadorias.
A
combinação da informação, tecnologia e conhecimento permitiu a elaboração e a
diversificação dos produtos, o aumento da produtividade, a automatização e a
padronização do processo de produção, e passou a ser um novo componente de
ampliação das forças de contra tendência à queda das taxas de lucro. Novos
ramos tecnológicos estão se expandindo, propiciando a elevação da
competitividade interoligopólica entre os países.
Será
que a "cidade informacional" (CASTELLS, 1989b; 1985c:15-19) se assemelha à
"redeopolis" (BRESSAND & DISTLER, 1989:31-32), à "computópolis"
(MASUDA, 1980:20-21) ou aos "tecnopólos" (LIPIETZ & LEBORGE, 1988:25),
prenunciados por vários autores? De forma geral sim, mas em suas
particularidades a realidade revela-se bem diferente do conjecturado. As
"cidades pós-industriais" (CHOAY, 1986) não possuem o mesmo conteúdo urbano das
cidades industriais. Os processos que fazem emergir a cidade informacional são
singulares, de natureza quase avessa ao processo de urbanização promovido nas
"economias de aglomerações". Os atributos locacionais que formaram e presidem a
existência lógica das novas cidades informacionais foram de caráter
aparentemente "contra urbano", porque suas relações econômicas ainda se
realizam sob sua influência, e também porque os investimentos que alimentam e
recriam as novas cidades informacionais foram derivados da expropriação
consentida levada a termo pelo "Warfare State" (CASTELLS, 1985c:20).
A crise
e a "morte" das cidades industriais subvencionou indiretamente o advento das
cidades informacionais.
Dessa
maneira, aparentemente a estrutura espacial da cidade informacional foi
consolidada "estrategicamente" em negação ao caráter urbano pré-existente da
sociedade industrial. Isto tem sugerido, em alguns autores, a falsa impressão
de que a cidade informacional prescinde dos espaços das economias de
aglomerações (as megametropóles), ou que o padrão de acumulação capitalista que
se impõe é essencialmente desindustrializador. Isso porque a estratégia de
localização dessas cidades reitera a ocupação de áreas distantes, semi-agrárias
ou periféricas, que apresentam alguma tradição em termos de "produção militar",
que possuem centros, laboratórios e instituições de pesquisa em
alta-tecnologia, ou mesmo em conhecimento intensivo.
A
criação das cidades informacionais em regiões distantes e periféricas teve como
premissa evitar o "incômodo político" das áreas caracterizadas pelas fortes
organizações e associações sindicais, e procurar assentar estas cidades em
espaços com grande potencial de atributos locacionais "privilegiados" do ponto
de vista não somente das relações de trabalho, mas também em termos de
possibilidades econômicas, organizacionais e estratégicas que pudessem auxiliar
a expansão das novas redes de comunicações, tornar flexíveis, competitivos e
mais produtivos seus sistemas de produção.
A
manutenção dos investimentos de risco em pesquisa e tecnologia nestas cidades
estão cada vez mais dependentes dos recursos e investimentos provenientes das
fontes estatais.
O
caráter das transformações ou modificações que vem sofrendo a cidade com "a
unificação dos modos de vida e de trabalho" (RONCAYOLO, 1988) permite que se
reflita que esta vivencie a "diluição e implosão de suas bases", que a
"fragmentou do interior". Esta "impressão", embora seja colocada como
"insuficiente em seus quadros mentais", remete à previsão de uma transformação
de valores culturais entre povos e regiões e anuncia a constituição de um
espírito pós-moderno nestas cidades, principalmente com a expansão da rede
mundial de computadores, a internet.
O
futuro da nova cidade não se apreenderá apenas pelo "esforço de memória" de
seus pesquisadores, mas, ao que tudo indica, pela tentativa de explicação e
compreensão de seu desenvolvimento histórico e lógico, enquanto fenômeno
urbano; e pelo entendimento ou previsão (prospectiva) dos fatores que atuam
para modificar suas relações, seus conteúdos e sua lógica. Interessa, neste
sentido, compreender o significado da nova "onto-urbanização insurgente" da
cidade e seus processos organizacionais.
As
cidades informacionais, em relação às atividades desenvolvidas pelas cidades
industriais, principalmente a produção de bens de consumo duráveis, estão sendo
"patrocinadas", aparentemente, por uma política de contra urbanização e
"desindustrialização". O padrão de acumulação que presidiu a lógica das cidades
informacionais exigiu em contrapartida a reestruturação das atividades
industriais, em favor das cidades que compõem a região do Sunbelt, nos Estados
Unidos, além de promover a reterritorialização das relações de trabalho, a
formação de complexos e diferenciados espaços de exclusão (guetos) e
segmentação, e uma outra composição espacial do capital.
A
cidade do entorno industrial está cedendo lugar à cidade do entorno
técnico-comunicativo [Silicon Valley, Orange County, Route 128 (SAXENIAN,
1985:84), Los Angeles County ou o M14 corridor (HALL, 1985a:49)], ou do entorno
informacional, condicionado pelos novos mecanismos desenvolvidos pelo novo
padrão de acumulação do capitalismo no período pós-fordista. Neste sentido, a
cidade do futuro tende a ser de "negação do urbano" ou de sua reestruturação
lógica, porque privilegia e fortalece também as iniciativas "privadas" e os
sistemas fechados de cooperação, através das iniciativas de automatização do
processo produtivo ("burótica", telemática), integração e flexibilização.
O
"isolamento" das cidades informacionais se assemelha ao das cidades criadas
através da planificação econômica nos países socialistas de "inspiração
marxista" (LEFEBVRE, 1986). O que as diferenciam são os seus conteúdos lógicos
de produção, exclusão e orientação social.
A
cidade informacional não é a megametrópole contemporânea, mas se aproximou da
computópolis prefigurada por Yoneji Masuda, referindo-se às cidades de Tama e
Higashi-Ikoma, pois suas performances nascem e se desenvolvem, aparentemente,
em negação às cidades industriais (Detroit, New York, Cleveland, Paris, Tóquio,
Londres, São Paulo, México, etc.). Mas, ao contrário de desencadear periferias
e subúrbios, nascem destes e parecem espraiarem-se seletivamente,
estrategicamente fora dos antigos centros, nos Estados Unidos e Japão, relegando-os
a uma quase "morte-perpétua". Um fenômeno contrário, de desenvolvimento das
indústrias de alta-tecnologia nos antigos centros de produção, verifica-se na
Europa, especialmente na Alemanha Ocidental e na França. |