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Inovação tecnológica e desenvolvimento da Cibercidade:
O advento da Cibercidade

 
Hindenburgo Francisco Pires
Professor de Geografia/UERJ
hfpires@uerj.br
 
Texto adaptado de uma apresentação na Conferência Internacional Cybercity,
realizada em São Paulo, em de outubro de 2003.
 
"Warfare State" e  o surgimento da Cidade Informacional
 
A cidade industrial teve como "força motriz" do conteúdo de sua centralidade a produção manufatureira e industrial. O sucedâneo, na cidade informacional, é a produção de bits e informação. O "pivô" das grandes modificações na estrutura espacial das cidades parece ser a "tecnologia intelectual: o computador" (BELL,1977:45).

A gênese das cidades informacionais está umbilicalmente relacionada, nos EUA, com a produção armamentísta, a alta-tecnologia e com o "Warfare State". Entretanto, em alguns países desenvolvidos e "em desenvolvimento", que apresentam inúmeras cidades com características aproximadas às encontradas nas cidades informacionais estadunidenses, estas estão mais direcionadas à pesquisa e ao desenvolvimento do que à produção de armas. São elas, segundo os países:

1. Estados Unidos: na região do Silicon Valley, na Califórnia, constatam-se cidades com alta concentração de empresas, centros, laboratórios direcionados à produção industrial de ponta (high-tech) e armamentos. Incluem-se nestas características as cidades de: Palo Alto, Cupertino, Mountain View, Sunnyvale, Santa Clara e San Jose; na região da Route 128, em Massachusetts, de modo semelhante, encontram-se as cidades de: Bedford, Lexington, Burlinton, Waltham, Cambridge, Boston, Weston, Neddham, Wellesley, Newton; na região do Orange County, as cidades Santa Ana, Anaheim, Irvine; na região do Los Angeles County, principalmente em sua periferia com o W. San Fernando Valley;
2. Inglaterra, através dos Science Parks e do M4 Corridor, nas cidades de: Cambridge, Edinburgh, Aston, Warwick, Glasgow e Salford;
3. França, nas Cité-Scientifique Ile-de-France, próximas a Lille: Technopole de Villeneuve-d'Ascq, Grenoble: ZIRST de Meylan e outras;
4. Alemanha Ocidental, nas cidades surgidas dos esforços da "UnTernehmerKultur", ou "Cultura de Empreendimentos" em Berlin: BIG Berlin Centre for Innovation and new Enterprises, Munich: Silizium Tal e outras;
5. Japão, nas cidades criadas pelo plano das cidades tecnológicas japonesas (tecnopóles) Tsukuba, Mechatronics Valley (Nagoya), Silicon Island (Kumamoto), semelhantes a Tama, Higashi-Ikoma e várias outras;
6. Brasil, em Campinas, São José dos Campos, Itajuba e São Carlos;
7. México, nas cidades próximas à fronteira dos Estados Unidos: Mexicali e Ciudad Juarez;
8. Coréia do Sul, nas Zonas Livres de Exportação de Masan e Daedak;
9. Filipinas, na Zona Livre de Exportação de Bataan.

O barateamento dos custos de comunicação facilitou os processos de cooperação, articulação e interação entre os espaços. As distâncias foram sendo "quebradas" pelos novos sistemas de comunicação.

As cidades informacionais estavam situadas próximas das empresas de alta-tecnologia, dos grandes laboratórios e centros de pesquisa científica e tecnológica nos setores de química fina, informática, biotecnologia, produção militar, óptica e física dos materiais; possuem um entorno técnico articulado para a produção integrada e flexível de produtos. A cooperação e a troca de informações e de conhecimento intensivo estão permitindo uma produção ampliada, mais diversificada e dinâmica de mercadorias.

A combinação da informação, tecnologia e conhecimento permitiu a elaboração e a diversificação dos produtos, o aumento da produtividade, a automatização e a padronização do processo de produção, e passou a ser um novo componente de ampliação das forças de contra tendência à queda das taxas de lucro. Novos ramos tecnológicos estão se expandindo, propiciando a elevação da competitividade interoligopólica entre os países.

Será que a "cidade informacional" (CASTELLS, 1989b; 1985c:15-19) se assemelha à "redeopolis" (BRESSAND & DISTLER, 1989:31-32), à "computópolis" (MASUDA, 1980:20-21) ou aos "tecnopólos" (LIPIETZ & LEBORGE, 1988:25), prenunciados por vários autores? De forma geral sim, mas em suas particularidades a realidade revela-se bem diferente do conjecturado. As "cidades pós-industriais" (CHOAY, 1986) não possuem o mesmo conteúdo urbano das cidades industriais. Os processos que fazem emergir a cidade informacional são singulares, de natureza quase avessa ao processo de urbanização promovido nas "economias de aglomerações". Os atributos locacionais que formaram e presidem a existência lógica das novas cidades informacionais foram de caráter aparentemente "contra urbano", porque suas relações econômicas ainda se realizam sob sua influência, e também porque os investimentos que alimentam e recriam as novas cidades informacionais foram derivados da expropriação consentida levada a termo pelo "Warfare State" (CASTELLS, 1985c:20).

A crise e a "morte" das cidades industriais subvencionou indiretamente o advento das cidades informacionais.

Dessa maneira, aparentemente a estrutura espacial da cidade informacional foi consolidada "estrategicamente" em negação ao caráter urbano pré-existente da sociedade industrial. Isto tem sugerido, em alguns autores, a falsa impressão de que a cidade informacional prescinde dos espaços das economias de aglomerações (as megametropóles), ou que o padrão de acumulação capitalista que se impõe é essencialmente desindustrializador. Isso porque a estratégia de localização dessas cidades reitera a ocupação de áreas distantes, semi-agrárias ou periféricas, que apresentam alguma tradição em termos de "produção militar", que possuem centros, laboratórios e instituições de pesquisa em alta-tecnologia, ou mesmo em conhecimento intensivo.

A criação das cidades informacionais em regiões distantes e periféricas teve como premissa evitar o "incômodo político" das áreas caracterizadas pelas fortes organizações e associações sindicais, e procurar assentar estas cidades em espaços com grande potencial de atributos locacionais "privilegiados" do ponto de vista não somente das relações de trabalho, mas também em termos de possibilidades econômicas, organizacionais e estratégicas que pudessem auxiliar a expansão das novas redes de comunicações, tornar flexíveis, competitivos e mais produtivos seus sistemas de produção.

A manutenção dos investimentos de risco em pesquisa e tecnologia nestas cidades estão cada vez mais dependentes dos recursos e investimentos provenientes das fontes estatais.

O caráter das transformações ou modificações que vem sofrendo a cidade com "a unificação dos modos de vida e de trabalho" (RONCAYOLO, 1988) permite que se reflita que esta vivencie a "diluição e implosão de suas bases", que a "fragmentou do interior". Esta "impressão", embora seja colocada como "insuficiente em seus quadros mentais", remete à previsão de uma transformação de valores culturais entre povos e regiões e anuncia a constituição de um espírito pós-moderno nestas cidades, principalmente com a expansão da rede mundial de computadores, a internet.

O futuro da nova cidade não se apreenderá apenas pelo "esforço de memória" de seus pesquisadores, mas, ao que tudo indica, pela tentativa de explicação e compreensão de seu desenvolvimento histórico e lógico, enquanto fenômeno urbano; e pelo entendimento ou previsão (prospectiva) dos fatores que atuam para modificar suas relações, seus conteúdos e sua lógica. Interessa, neste sentido, compreender o significado da nova "onto-urbanização insurgente" da cidade e seus processos organizacionais.

As cidades informacionais, em relação às atividades desenvolvidas pelas cidades industriais, principalmente a produção de bens de consumo duráveis, estão sendo "patrocinadas", aparentemente, por uma política de contra urbanização e "desindustrialização". O padrão de acumulação que presidiu a lógica das cidades informacionais exigiu em contrapartida a reestruturação das atividades industriais, em favor das cidades que compõem a região do Sunbelt, nos Estados Unidos, além de promover a reterritorialização das relações de trabalho, a formação de complexos e diferenciados espaços de exclusão (guetos) e segmentação, e uma outra composição espacial do capital.

A cidade do entorno industrial está cedendo lugar à cidade do entorno técnico-comunicativo [Silicon Valley, Orange County, Route 128 (SAXENIAN, 1985:84), Los Angeles County ou o M14 corridor (HALL, 1985a:49)], ou do entorno informacional, condicionado pelos novos mecanismos desenvolvidos pelo novo padrão de acumulação do capitalismo no período pós-fordista. Neste sentido, a cidade do futuro tende a ser de "negação do urbano" ou de sua reestruturação lógica, porque privilegia e fortalece também as iniciativas "privadas" e os sistemas fechados de cooperação, através das iniciativas de automatização do processo produtivo ("burótica", telemática), integração e flexibilização.

O "isolamento" das cidades informacionais se assemelha ao das cidades criadas através da planificação econômica nos países socialistas de "inspiração marxista" (LEFEBVRE, 1986). O que as diferenciam são os seus conteúdos lógicos de produção, exclusão e orientação social.

A cidade informacional não é a megametrópole contemporânea, mas se aproximou da computópolis prefigurada por Yoneji Masuda, referindo-se às cidades de Tama e Higashi-Ikoma, pois suas performances nascem e se desenvolvem, aparentemente, em negação às cidades industriais (Detroit, New York, Cleveland, Paris, Tóquio, Londres, São Paulo, México, etc.). Mas, ao contrário de desencadear periferias e subúrbios, nascem destes e parecem espraiarem-se seletivamente, estrategicamente fora dos antigos centros, nos Estados Unidos e Japão, relegando-os a uma quase "morte-perpétua". Um fenômeno contrário, de desenvolvimento das indústrias de alta-tecnologia nos antigos centros de produção, verifica-se na Europa, especialmente na Alemanha Ocidental e na França.
 

Resumo
Introdução
Teoria da Inovação e o (res)surgimento do conceito de inovação tecnológica
O conceito de cidade sob o signo do capital
O surgimento da cidade industrial e inovação tecnológica
"Warfare State" e  o surgimento da Cidade Informacional
O advento da cibercidade e cibercidadania
Políticas públicas de desenvolvimento das cibercidades e software livre
Bibliografia
 

Índice da Biblioteca