A
ruptura entre as relações campo e cidade, no início do século XIX, foi impulsionada
com o aumento do emprego de tecnologias manufatureiras, na cidade, e pelo
alargamento do mercado de sua produção de mercadorias e crescimento da
produtividade do trabalho nas indústrias. Mas houve
quem preferisse analisar o fenômeno do surgimento da cidade industrial
como uma contraposição ao "sistema de equilíbrio" agrário (CHEMETOV,
1986:04-26).
A
cidade se transformou no "laboratório" do processo de produção capitalista
industrial. A inevitabilidade do urbano passou a ser a inevitabilidade lógica
da ascensão do modo de produção capitalista. O domínio e o aperfeiçoamento da
produção na unidade fabril precipitaram a produção da esfera local para outras
"escalas espaciais" de mercado. A progressão da produção ampliou-se da disputa
intraterritorial para a interterritorial.
Com o
aumento da produção fabril, a cidade industrial conseguiu ampliar o conteúdo de
sua centralidade, expressão antinômica da influência de sua produção
(econômica, cultural e política) em relação a outras cidades e ao campo.
A força
motriz da centralidade da cidade industrial foi a produção fabril ou
manufatureira, que transformou o trabalho artesanal de sujeito e suporte do
processo produtivo em mero apêndice ou acessório vivo.
A
cidade industrial tornou-se a materialização do trabalho social desenvolvido
pela sociedade industrial. A estrutura espacial da cidade industrial se
caracterizou pela espacialização e especialização do processo produtivo
assentado na divisão territorial do trabalho. O pressuposto da produção foi, além
da obtenção do lucro e de mais-valia, a expansão da produtividade, diminuição
dos preços dos produtos e salários, redução do emprego (trabalho vivo) e da
participação dos trabalhadores na concepção do sistema produtivo, seu
crescimento em massa e aumento da competitividade.
Dentro
dos padrões de acumulação que fizeram surgir a cidade industrial, "o estágio
mais avançado da sociedade industrial é o estágio do consumo de massa" (MASUDA,
1980:51). A verticalização, a densificação e a segmentação do consumo nas
cidades industriais, produzidas pelas redes oligopolizadas de produção,
distribuição e comercialização, criaram o espetáculo dos néons para a "nova"
forma de realização do consumo; as vitrines, o "merchandising" e as lojas são
os novos cenários do consumo dirigido pelo "broadcast".
As
megametrópoles representam a expressão mais contundente alcançada pelo poder de
concentração e centralização exercido pela cidade industrial. Mas assim como as
inovações tecnológicas promoveram a formação de tendências contrárias à crise
de acumulação capitalista e auxiliaram a expansão das cidades industriais, hoje
são os seus idênticos mecanismos que patrocinam o processo de negação dessas
cidades.
As
mudanças tecnológicas alteraram as relações espaciais entre os lugares, entre
as cidades e seus espaços produtivos. A utilização da informática, das
telecomunicações e do sensoriamento remoto (com imagens espectrais dos
satélites), favoreceram a mundialização e a globalização das relações
econômicas e sociais, produzidas pela cidade industrial, o que ampliou as
possibilidades de trocas, os fluxos de informações e conhecimento
(saber-fazer).
Mas, a
presença, nas cidades industriais, de grandes contingentes populacionais
(economias de aglomerações), propiciou um forte poder sindical e a persistência
de problemas na reprodução de sua estrutura espacial, nos aspectos de:
| a) |
lentidão na realização de serviços (burocráticos, administrativos e
financeiros); |
| b) |
manutenção dos equipamentos de consumo coletivo; |
| c) |
infra-estrutura básica para o pleno desempenho das atividades econômicas e
industriais, ligadas à produção de tecnologia militar (mísseis, tanques) e de
ponta ("high-tech"); |
| d) |
crescimento excessivo de taxas, impostos e tributos; |
| e) |
ausência dos novos atributos técnicos locacionais para a reprodução das novas
formas tecnológicas de produção mais flexíveis. |
Foram
estes aspectos que parecem ter exercido
influência considerável para fomentar uma política dirigida de
"desinvestimento" e "desindustrialização" (BLUESTONE & HARRISON,
1982:111-139) das cidades industriais, além de serem os aspectos "lógicos"
(BELL,1977:64) que balizaram, na década
dos anos 50, a formação das novas cidades pós-industriais ou informacionais. A
reetruturação da lógica acumulativa, no período atual, modificou as antigas
formas organizacionais e a composição do capital no espaço.
As
formações das novas cidades informacionais resultam também do crescimento de
novas relações econômicas e de produção, formadas pela consolidação de novas
redes de trabalho entre os espaços. O redimensionamento das ações e processos
decisórios permitiram a descentralização e a formação de uma nova "hierarquia
urbana" baseada nos novos processos organizacionais de troca de informações e
conhecimentos técnicos entre os lugares
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