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Inovação tecnológica e desenvolvimento da Cibercidade:
O advento da Cibercidade

 
Hindenburgo Francisco Pires
Professor de Geografia/UERJ
hfpires@uerj.br
 
Texto adaptado de uma apresentação na Conferência Internacional Cybercity,
realizada em São Paulo, em de outubro de 2003.
 
O conceito de cidade sob o signo do capital
 
Partindo do princípio de que "um tipo de sociedade define-se pelo tipo de acumulação que pratica" (TOURAINE,1975:148), é justo argumentar que as cidades, além de serem evidências tangíveis da sociedade, constituem uma realização do trabalho social acumulado, ou seja, elas representam expressões materiais do modo de vida e de produção da sociedade.

Embora se possa analisar uma cidade do ponto de vista de suas particularidades, seria incorreto sublinhar exageradamente estas características, em função do modo específico de produção em que se "enquadram" ou se inserem, como se existissem cidades "reflexos" dos modos de produção como, por exemplo, a cidade antiga, asiática, feudal, capitalista, socialista.

A cidade é um imbricado histórico, sua lógica espacial constitui uma totalidade de relações (culturais, políticas, econômicas e sociais), na qual a parte preponderante ou dominante dessas relações pode influir na determinação de suas características estruturais. Neste sentido, as relações espacializadas ou espaciais articulam-se como atributos e com atributos de outros lugares, e seus espaços de produção passam a ser limites ou momentos do processo produtivo, onde interagem relações específicas e modos de produção que estruturam e definem sua forma.

Na aparência, as diferentes formas e significações da cidade emergiram como manifestações de sua dinâmica de produção.

Sob o abrigo da cidade, as particularidades dos processos de produção consubstanciam estruturas (fixas), formas econômicas de cooperação (nexos), mobilidades espaço-temporais (fluxos), relações sociais e culturais (articulações).

A natureza é, em essência, a meta-anterioridade da produção social, e a cidade é a natureza humana materializada pelo trabalho social.

O conceito de cidade tende a ser uma aproximação abstrata da explicação da forma espacial que adquire o processo de produção. A cidade é a inscrição histórica do trabalho social no espaço. No seu interior e fora dele, atividades, mercados, produtos e mobilidades interagem com os conteúdos de sua espacialidade, definindo sua lógica, estrutura, dinâmica e relações.

Por isso fica difícil acreditar que "o conceito de cidade é essencialmente de natureza espacial" (LEVY, 1986:50-58)

As relações sociais que se desenvolvem na cidade tendem a reproduzir o conteúdo da centralidade impingida pelo trabalho geral da sociedade, pois a cidade é a guarida histórica do processo produtivo. Seu sítio contém a materialidade e a iconicidade do trabalho acumulado por gerações anônimas de indivíduos e sua centralidade é a expressão da inerência grandiosa da obra do trabalho coletivo ou abstrato.

A cidade é também, em aparência, o espaço da socialização da produção humana, e em essência, o espaço de sua "interversão". No primeiro sentido, condição geral ou base material de realização da produção social; no segundo, o "laboratório" do processo de acumulação do excedente social.

A urbanização é a pulsão lógica exercida pela centralidade da cidade, através de seus atributos econômicos, políticos e culturais.

Para a cidade, o Estado é a "potência" ou a "força política da sociedade" que atua para estabelecer e criar as condições gerais de produção e permitir a expropriação "consentida" do excedente social. Perante a "lei ou a constituição", os membros da sociedade são iguais em "direito", para explorar e serem explorados. O trabalho, medida do valor social, possui, na aparência, uma convertibilidade social intrínseca mas, em essência, sua apropriação ocorre de maneira quase restrita e privada. Assim a cidade, na aparência, é formalmente o espaço de todos os membros da sociedade e, nele, todos têm o direito e liberdade de circular, residir, vender ou comerciar sua força de trabalho, produzir, distribuir e consumir. Mas, em essência, define-se pelo direito de propriedade, sobreguardado pelo Estado. É um espaço que pertence realmente aos poucos que, de direito, mesmo sem produzir valor social, podem subsumir os demais cidadãos à mera condição de "inquilinos".

Como o trabalho social é apropriado de maneira privada, sua convertibilidade social torna-se complexa. Assim o Estado ajuíza e "regula" os interesses dos membros da sociedade, impondo deveres indistintamente a todos os cidadãos (pobres ou ricos) que permitam a realização das condições gerais de produção, o processo de acumulação e expropriação do trabalho social no espaço. As contradições sociais resultam do processo de apropriação privada da cidade, enquanto meio de produção e força produtiva do trabalho social, e de subordinação aos interesses privados de alguns membros da sociedade.

As iniciativas de "regulação", pelo Estado, dos problemas advindos da formação das "economias de aglomerações" (as cidades) resultaram não apenas em "fracassos" (CHEMETOV, 1986:04-26), mas em formas inferentes de realização e reprodução do capital.

A cidade pode ser um "sistema agradável", todavia o usufruto de seus serviços "em qualidade" está reservado, incidentalmente, a poucos "cidadãos" que podem adquiri-los, embora formalmente estejam destinados à sociedade em geral. Ainda, por este sentido, a cidade pode ser o espaço da aprazibilidade, da convivência, do artístico, da cultura, da simultaneidade e da modernidade mas, na realidade, é o espaço do contraditório, do privado, da exclusão, do conflito, da exonerabilidade condicional e, acima de tudo, é o espaço da virtualidade, da centralidade e da cumulatividade capitalista.

A cidade é ainda o lugar da exuberante puerilidade, do burlesco, do paupérrimo, do ultra-generalizado (consumo, cotidiano, valores) porque sua criação se dá a partir da apropriação do excedente social acumulado e alienado.

A cidade inspira a lógica do senso comum e a cotidianeidade, através da pulverização e do estiolamento do seu conteúdo urbano.

A cidade é a facticidade "irreversível" do trabalho social, onde a capilaridade de ruas, avenidas, travessas, perimetrais e vias conduz à inevitabilidade lógica do mundo da mercadoria e não apenas a "enquadramentos" (MOLES, 1986).

A cidade industrial é efetivação da consolidação hegemônica da cidade sob o signo do capital.
 

Resumo
Introdução
Teoria da Inovação e o (res)surgimento do conceito de inovação tecnológica
O conceito de cidade sob o signo do capital
O surgimento da cidade industrial e inovação tecnológica
"Warfare State" e  o surgimento da Cidade Informacional
O advento da cibercidade e cibercidadania
Políticas públicas de desenvolvimento das cibercidades e software livre
Bibliografia
 

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