Antes de se abordar as questões sobre inovação tecnológica
e sua implicação no desevolvimento da Cibercidade, é preciso que se faça um
pequeno histórico sobre o surgimento da Teoria da Inovação.
A
Teoria da Inovação vincula-se, enquanto legado teórico, a Joseph Schumpeter,
economista austríaco e professor da Universidade de Harvard, que foi o
principal formulador desta teoria em seus aspectos epistemológicos (SCHUMPETER,
1989:62-77). Foi dele a observação de que as longas ondas dos ciclos do
desenvolvimento no capitalismo resultam da conjugação ou da combinação de inovações,
que criam um setor líder na economia, ou um novo paradigma, que passa a
impulsionar o crescimento rápido dessa economia (KLEINKNECHT,1990:89).
Em 1936, Schumpeter, além de refinar e aprofundar a Teoria
do Investimento do Capital de Kondratieff (HALL,1985:06), analisou a depressão
de 1930, baseando-se nas depressões ocorridas em 1825 e 1873, e formulou uma
Teoria sobre os Ciclos dos Negócios, lapidando-a a partir dos conceitos de:
inovação, revoluções técnicas, setor líder da economia, novas firmas, novas
formas organizacionais, mudanças institucionais, oceano competitivo, destruição
criativa, racionalização do trabalho (PIRES, 1996c).
Tal perspectiva de análise permite argumentar que a
estrutura territorial de acumulação do setor líder possui também uma expressão
material de localização e de desenvolvimento. A expressão material e seu
entorno vêm se tornando objeto de investigação na Geografia.
A
Geografia busca identificar o paradigma territorial que subescreve a expressão
material do setor líder. Baseado em Radovan Richta (1972), Milton Santos (1994)
o denominou de meio técnico-científico-informacional.
O setor
líder promove, antes de consolidar a sua hegemonia, uma avalanche de
transformações e de destruições criativas. Segundo Schumpeter:
O impulso fundamental que inicia e
mantém o movimento da máquina capitalista decorre de novos bens de consumo, dos
novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas
de organização industrial que a empresa capitalista cria (...)
A abertura de novos mercados —
estrangeiros ou domésticos — e o desenvolvimento organizacional, da oficina
artesanal aos conglomerados (...)
ilustram o mesmo processo de mutação industrial (...) que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de
dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova.
Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial do capitalismo. É nisso
que consiste o capitalismo e é aí que têm de viver todas as empresas
capitalistas.
(SCHUMPETER,1984:112-113)
Ora,
toda a estrutura econômica tratada acima possui uma base territorial. Se a
estrutura econômica se altera, a base
territorial também se altera. Já que a base territorial se alterou,
pode-se admitir por conseguinte que, novamente, a estrutura econômica também
tende a se alterar e assim por diante, gerando o "círculo virtuoso do
crescimento econômico". Mas é importante lembrar que nenhum crescimento
econômico se faz sem uma base territorial efetiva de desenvolvimento ou
consolidação.
Dentro de uma perspectiva semelhante, Saskia Sassen
afirmou que a globalização pode ser decomposta em termos de locais
estratégicos, onde os processos globais se materializam, e das ligações que os
unem. Para a autora, esta constatação evidencia uma geografia peculiar da
globalização e revela o fato de que não se trata de um evento planetário, que
engloba todo o mundo (SASSEN, 1999a:45).
Em algumas cidades, a
economia da globalização consolida processos de estruturação de mercados
financeiros globais e investimentos estrangeiros diretos, criando assim espaços
de intersecção do global com o local (SASSEN, 1998b).
Os processos globais afetam
a estrutura social local das cidades, alterando a organização do trabalho, a
distribuição dos ganhos, a estrutura de consumo, criando novos padrões de
desigualdade social urbana.
Ao contrário do que fora
previsto por alguns pesquisadores e analistas, o espaço local não perdeu sua
importância com o desenvolvimento das telecomunicações e das indústrias de
informação. Pari passu à dispersão das atividades econômicas da
globalização, as cidades adquiriram novas formas de composição do capital e de
centralização territorial, associadas aos novos arranjos de gerenciamento e
comando operacional dessas atividades em escala planetária (PIRES, 2001a:158).
Todavia, quando as tecnologias introduzidas pelo setor
líder se tornam praticamente incorporadas ao sistema territorial de produção ou
se difundem espacialmente por quase todos os setores, o retorno dos
investimentos tendem a diminuir e a economia caminha para um processo de
acomodação, que é seguido por uma depressão. Nesta fase os investimentos em
pesquisa e desenvolvimento tendem a ser encorajados, fazendo ressurgir, como
possibilidades, os riscos e as inovações, mas estas últimas não ocorrem
necessariamente apenas no campo tecnológico. Inovações institucionais,
culturais e organizacionais desempenham também um papel importante no
ressurgimento de possibilidades de crescimento e desenvolvimento nas cidades.
Após
esta rápida apresentação da origem da Teoria da Inovação, cumpre ressaltar que
é importante não sobrevalorizar os componentes tecnológicos do ambiente
inovativo, ou apenas a infra-estrutura que se territorializa com o processo
inovativo. A dimensão social do ambiente inovativo cumpre um papel decisivo na
"sustentabilidade" e na continuidade do processo de inovação. Quando a dimensão
social é relegada a um papel secundário no processo de inovação, maiores serão
os riscos, as crises, a vulnerabilidade e a incerteza de apropriação
territorial dos frutos do crescimento econômico. |