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Inovação tecnológica e desenvolvimento da Cibercidade:
O advento da Cibercidade

 
Hindenburgo Francisco Pires
Professor de Geografia/UERJ
hfpires@uerj.br
 
Texto adaptado de uma apresentação na Conferência Internacional Cybercity,
realizada em São Paulo, em de outubro de 2003.
 
Teoria da Inovação e o (res)surgimento do conceito de inovação tecnológica
 
Antes de se abordar as questões sobre inovação tecnológica e sua implicação no desevolvimento da Cibercidade, é preciso que se faça um pequeno histórico sobre o surgimento da Teoria da Inovação.

A Teoria da Inovação vincula-se, enquanto legado teórico, a Joseph Schumpeter, economista austríaco e professor da Universidade de Harvard, que foi o principal formulador desta teoria em seus aspectos epistemológicos (SCHUMPETER, 1989:62-77). Foi dele a observação de que as longas ondas dos ciclos do desenvolvimento no capitalismo resultam da conjugação ou da combinação de inovações, que criam um setor líder na economia, ou um novo paradigma, que passa a impulsionar o crescimento rápido dessa economia (KLEINKNECHT,1990:89).

Em 1936, Schumpeter, além de refinar e aprofundar a Teoria do Investimento do Capital de Kondratieff (HALL,1985:06), analisou a depressão de 1930, baseando-se nas depressões ocorridas em 1825 e 1873, e formulou uma Teoria sobre os Ciclos dos Negócios, lapidando-a a partir dos conceitos de: inovação, revoluções técnicas, setor líder da economia, novas firmas, novas formas organizacionais, mudanças institucionais, oceano competitivo, destruição criativa, racionalização do trabalho (PIRES, 1996c).

Tal perspectiva de análise permite argumentar que a estrutura territorial de acumulação do setor líder possui também uma expressão material de localização e de desenvolvimento. A expressão material e seu entorno vêm se tornando objeto de investigação na Geografia.

A Geografia busca identificar o paradigma territorial que subescreve a expressão material do setor líder. Baseado em Radovan Richta (1972), Milton Santos (1994) o denominou de meio técnico-científico-informacional. 

O setor líder promove, antes de consolidar a sua hegemonia, uma avalanche de transformações e de destruições criativas. Segundo Schumpeter:
O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre de novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria (...)

A abertura de novos mercados — estrangeiros ou domésticos — e o desenvolvimento organizacional, da oficina artesanal aos conglomerados (...) ilustram o mesmo processo de mutação industrial (...) que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial do capitalismo. É nisso que consiste o capitalismo e é aí que têm de viver todas as empresas capitalistas. 
(SCHUMPETER,1984:112-113)
Ora, toda a estrutura econômica tratada acima possui uma base territorial. Se a estrutura econômica se altera, a base  territorial também se altera. Já que a base territorial se alterou, pode-se admitir por conseguinte que, novamente, a estrutura econômica também tende a se alterar e assim por diante, gerando o "círculo virtuoso do crescimento econômico". Mas é importante lembrar que nenhum crescimento econômico se faz sem uma base territorial efetiva de desenvolvimento ou consolidação.  

Dentro de uma perspectiva semelhante, Saskia Sassen afirmou que a globalização pode ser decomposta em termos de locais estratégicos, onde os processos globais se materializam, e das ligações que os unem. Para a autora, esta constatação evidencia uma geografia peculiar da globalização e revela o fato de que não se trata de um evento planetário, que engloba todo o mundo (SASSEN, 1999a:45).

Em algumas cidades, a economia da globalização consolida processos de estruturação de mercados financeiros globais e investimentos estrangeiros diretos, criando assim espaços de intersecção do global com o local (SASSEN, 1998b).

Os processos globais afetam a estrutura social local das cidades, alterando a organização do trabalho, a distribuição dos ganhos, a estrutura de consumo, criando novos padrões de desigualdade social urbana.

Ao contrário do que fora previsto por alguns pesquisadores e analistas, o espaço local não perdeu sua importância com o desenvolvimento das telecomunicações e das indústrias de informação. Pari passu à dispersão das atividades econômicas da globalização, as cidades adquiriram novas formas de composição do capital e de centralização territorial, associadas aos novos arranjos de gerenciamento e comando operacional dessas atividades em escala planetária (PIRES, 2001a:158).

Todavia, quando as tecnologias introduzidas pelo setor líder se tornam praticamente incorporadas ao sistema territorial de produção ou se difundem espacialmente por quase todos os setores, o retorno dos investimentos tendem a diminuir e a economia caminha para um processo de acomodação, que é seguido por uma depressão. Nesta fase os investimentos em pesquisa e desenvolvimento tendem a ser encorajados, fazendo ressurgir, como possibilidades, os riscos e as inovações, mas estas últimas não ocorrem necessariamente apenas no campo tecnológico. Inovações institucionais, culturais e organizacionais desempenham também um papel importante no ressurgimento de possibilidades de crescimento e desenvolvimento nas cidades.

Após esta rápida apresentação da origem da Teoria da Inovação, cumpre ressaltar que é importante não sobrevalorizar os componentes tecnológicos do ambiente inovativo, ou apenas a infra-estrutura que se territorializa com o processo inovativo. A dimensão social do ambiente inovativo cumpre um papel decisivo na "sustentabilidade" e na continuidade do processo de inovação. Quando a dimensão social é relegada a um papel secundário no processo de inovação, maiores serão os riscos, as crises, a vulnerabilidade e a incerteza de apropriação territorial dos frutos do crescimento econômico.
 

Resumo
Introdução
Teoria da Inovação e o (res)surgimento do conceito de inovação tecnológica
O conceito de cidade sob o signo do capital
O surgimento da cidade industrial e inovação tecnológica
"Warfare State" e  o surgimento da Cidade Informacional
O advento da cibercidade e cibercidadania
Políticas públicas de desenvolvimento das cibercidades e software livre
Bibliografia
 

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