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A dimensão socioespacial do ciberespaço: uma nota

 
Prof. Dr. Carlos Alberto F. da Silva
Departamento de Geografia da UFF

Profª. Msc. Michéle Tancman Candido da Silva
Fundação CECIERJ
 
Introdução
 
Nas três últimas décadas, a Geografia tem sido marcada por uma forma peculiar de operacionalizar a complexidade da sociedade. Da prática humana emergiu o modo materialista de analisar o objeto de estudo do geógrafo. A influência marxista acredita ser necessário pensar as relações sociais em termos de suas conexões com o tempo e o espaço.

A concepção materialista e dialética concebe o tempo e espaço como formas peculiares da existência da matéria em movimento. Desse modo, a materialidade social só existe no tempo e no espaço. A matéria em movimento é a base de tudo que existe no mundo. Ela é também a realidade objetiva, existindo fora de nossa consciência e nela se refletindo. Há uma impossibilidade da existência do tempo sem o espaço. Os dois estão ligados aos aspectos de sua coexistência e mutação.

A desenfreada aceleração tecnológica deste final de século tem procurado alterar essa concepção materialista do espaço, a partir de uma "queima do espaço e da experiência de um tempo em intensificação". É o que Harvey (1993) chama de compressão espaço-temporal. A velocidade dos media eletrônicos instaura uma nova forma de experienciar o tempo, substituindo a noção de tempo-duração por tempo-velocidade e a instantaneidade das relações sociais. O tempo advindo das novas tecnologias eletrônico-comunicacionais é marcado pela presentificação, ou seja, pela interatividade on-line, fato constatado nas tecnologias de telepresença em tempo real que alteram nosso sentido cultural de tempo e espaço.

Na verdade, há toda uma falácia de que o espaço geográfico, enquanto expressão material das práticas sociais no seu contínuo movimento de transformação, perde importância diante da revolução da telemática. Alguns autores sugerem o fim da geografia, afirmando que se toda prática social é acompanhada por uma grafia deixada no espaço, o domínio das relações sociais via imagens em tempo real tende a abolir o espaço. Entretanto, a concepção materialista da sociedade sugere a impossibilidade de existência do tempo sem o espaço e a matéria em movimento. Acreditamos que qualquer alteração nos sistemas de interação social será sempre precedida por uma materialidade espaço-temporal representativa de um movimento de mutação e permanência de uma forma específica de sociabilidade.

É neste sentido que entendemos o ciberespaço. Para nós, o ciberespaço é uma dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações sociais. Ao contrário do censo comum em torno do aniquilamento do espaço pelo tempo, parece-nos que, tal como afirma Castells (1999, p.490), é o espaço material que organiza o tempo, "estruturando a temporalidade em lógicas diferentes e até contraditórias de acordo com a dinâmica socioespacial". Entretanto, se o espaço material organiza o tempo, a emergência de um tempo-real das redes comunicacionais colabora para uma sensação de aniquilamento do espaço pelo tempo, na forma de um espaço virtual. De um modo geral,  podemos dizer que o tempo-real também implica a organização de novas relações sociais que se expressam na formação de um espaço virtual e na reestruturação do espaço concreto preexistente, provocando intenso processo de inclusão e exclusão de lugares e pessoas na rede.

Neste estudo, o ciberespaço será analisado enquanto um conjunto de diversas redes comunicacionais informatizadas, tais como a Internet, Kidsphre, Zamir etc. O espaço de fluxos de imagem, som, informação e de socialidade definido pelo ciberespaço expressa uma "organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funciona por meio de fluxos" (Castells, p.436). Cabe apenas lembrar que tais redes não estão somente no espaço de fluxos. De acordo com Levy (1993, p.26), elas constituem o próprio espaço.

Se o ciberespaço é parte integrante da sociedade contemporânea, logo é uma realidade que a Geografia deve buscar compreender, enquanto uma nova forma de materialização dos avanços da sociedade capitalista. Neste sentido, o artigo em tela procura dar uma contribuição acadêmica, ao responder à seguinte questão: Qual é a geograficidade do ciberespaço, visto que o espaço geográfico é normalmente entendido como uma forma territorial de organização material da sociedade? Para tanto, a análise estará assentada nas discussões teóricas sobre a cidade real e cidade eletrônica enquanto expressão de uma nova totalidade social imposta pelas tecnologias comunicacionais. No final, buscaremos elucidar alguns aspectos do ordenamento implícito nas cidades eletrônicas como extensão virtual da cidade concreta e real. Enfim, não pretendemos alcançar uma resposta conclusiva sobre o tema, e sim possibilitar a abertura de um canal de discussão sobre a temática proposta.
 

Introdução
A geograficidade do ciberespaço
O ordenamento das telecidades no ciberespaço
Para não concluir
Bibliografia

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