Nas
três últimas décadas, a Geografia tem sido marcada por uma forma peculiar de
operacionalizar a complexidade da sociedade. Da prática humana emergiu o modo
materialista de analisar o objeto de estudo do geógrafo. A influência marxista
acredita ser necessário pensar as relações sociais em termos de suas conexões
com o tempo e o espaço.
A
concepção materialista e dialética concebe o tempo e espaço como formas
peculiares da existência da matéria em movimento. Desse modo, a materialidade
social só existe no tempo e no espaço. A matéria em movimento é a base de tudo
que existe no mundo. Ela é também a realidade objetiva, existindo fora de nossa
consciência e nela se refletindo. Há uma impossibilidade da existência do tempo
sem o espaço. Os dois estão ligados aos aspectos de sua coexistência e mutação.
A
desenfreada aceleração tecnológica deste final de século tem procurado alterar
essa concepção materialista do espaço, a partir de uma "queima do espaço e da
experiência de um tempo em intensificação". É o que Harvey (1993) chama de
compressão espaço-temporal. A velocidade dos media eletrônicos instaura uma nova forma de experienciar o tempo,
substituindo a noção de tempo-duração por tempo-velocidade e a instantaneidade
das relações sociais. O tempo advindo das novas tecnologias
eletrônico-comunicacionais é marcado pela presentificação, ou seja, pela
interatividade on-line, fato
constatado nas tecnologias de telepresença em tempo real que alteram nosso
sentido cultural de tempo e espaço.
Na
verdade, há toda uma falácia de que o espaço geográfico, enquanto expressão material
das práticas sociais no seu contínuo movimento de transformação, perde
importância diante da revolução da telemática. Alguns autores sugerem o fim da
geografia, afirmando que se toda prática social é acompanhada por uma grafia
deixada no espaço, o domínio das relações sociais via imagens em tempo real
tende a abolir o espaço. Entretanto, a concepção materialista da sociedade
sugere a impossibilidade de existência do tempo sem o espaço e a matéria em
movimento. Acreditamos que qualquer alteração nos sistemas de interação social
será sempre precedida por uma materialidade espaço-temporal representativa de
um movimento de mutação e permanência de uma forma específica de sociabilidade.
É
neste sentido que entendemos o ciberespaço. Para nós, o ciberespaço é uma
dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações
sociais. Ao contrário do censo comum em torno do aniquilamento do espaço pelo
tempo, parece-nos que, tal como afirma Castells (1999, p.490), é o espaço
material que organiza o tempo, "estruturando a temporalidade em lógicas
diferentes e até contraditórias de acordo com a dinâmica socioespacial".
Entretanto, se o espaço material organiza o tempo, a emergência de um
tempo-real das redes comunicacionais colabora para uma sensação de
aniquilamento do espaço pelo tempo, na forma de um espaço virtual. De um modo
geral, podemos dizer que o tempo-real
também implica a organização de novas relações sociais que se expressam na
formação de um espaço virtual e na reestruturação do espaço concreto
preexistente, provocando intenso processo de inclusão e exclusão de lugares e
pessoas na rede.
Neste
estudo, o ciberespaço será analisado enquanto um conjunto de diversas redes
comunicacionais informatizadas, tais como a Internet, Kidsphre, Zamir etc. O
espaço de fluxos de imagem, som, informação e de socialidade definido pelo
ciberespaço expressa uma "organização material das práticas sociais de tempo
compartilhado que funciona por meio de fluxos" (Castells, p.436). Cabe apenas
lembrar que tais redes não estão somente no espaço de fluxos. De acordo com
Levy (1993, p.26), elas constituem o próprio espaço.
Se
o ciberespaço é parte integrante da sociedade contemporânea, logo é uma
realidade que a Geografia deve buscar compreender, enquanto uma nova forma de
materialização dos avanços da sociedade capitalista. Neste sentido, o artigo em
tela procura dar uma contribuição acadêmica, ao responder à seguinte questão:
Qual é a geograficidade do ciberespaço,
visto que o espaço geográfico é normalmente entendido como uma forma
territorial de organização material da sociedade? Para tanto, a análise
estará assentada nas discussões teóricas sobre a cidade real e cidade
eletrônica enquanto expressão de uma nova totalidade social imposta pelas
tecnologias comunicacionais. No final, buscaremos elucidar alguns aspectos do
ordenamento implícito nas cidades eletrônicas como extensão virtual da cidade
concreta e real. Enfim, não pretendemos alcançar uma resposta conclusiva sobre
o tema, e sim possibilitar a abertura de um canal de discussão sobre a temática
proposta.
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