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Baía de Guanabara - Curiosidades

Baía de Guanabara - Curiosidades

O antropólogo e a boca banguela

Em 1934, o belga Claude Lévi-Strauss, então um jovem de 26 anos formado em direito, veio para o Brasil para lecionar sociologia na Universidade de São Paulo. Na sua estadia brasileira, prolongada até o fim da Segunda Grande Guerra, Lévi-Strauss descobriu sua verdadeira vocação: a antropologia. A partir daí, Lévi-Strauss tornou-se um dos maiores nomes mundiais da antropologia e sua obra provocou uma mudança radical nas ciências sociais.

Os anos que passou no Brasil, viajando pelo país afora e visitando tribos indígenas, serviram de base para uma de suas mais famosas publicações: Tristes trópicos, de 1955. Nesse livro, ele fala de sua decepção quando chegou ao Rio de Janeiro e avistou a Baía de Guanabara. Numa entrevista concedida em 1997, aos 89 anos, a Carlos Haag, do jornal O Estado de S.Paulo, assim ele descreveu sua frustração: "Naquele livro decidira descrever, com liberdade, tudo o que me vinha à cabeça diante do que via, minhas impressões imediatas, sem nenhuma autocensura. Quando vi a Baía da Guanabara, fui invadido por uma sensação de decepção em face do que imaginara. Era uma coisa tão grande, os lugares importantes ficavam tão distantes uns dos outros que, na hora, me veio a imagem de uma boca sem dentes. Não vi porque esconder essa sensação".

A Baía de Guanabara em números

  • Área: 412 km2
  • Área de contorno: 143 km
  • Volume de água: 2 bilhões de m3
  • Largura máxima: 20 km
  • Largura mínima: 2 km
  • Extensão: 28 km
  • Profundidade média: 8 m
  • Profundidade no vão: até 60 m
  • Profundidade na entrada: 43 m
  • Profundidade no meio: 18 m
  • Profundidade no final: 4 m
  • Ilhas da Baía: 43
  • Praias formadas: 48
  • Área de mangues: 45 km2
  • População: 8 milhões
  • Industrias: 6 mil
  • Colônia de pescadores: 6
  • Estaleiros: 13
  • Pesca: 12 toneladas diárias
  • Terminais de petróleo: 15
  • Despejo de lixo: 5 mil toneladas diárias
  • Esgoto in natura: 300 toneladas diárias
  • Esgoto tratado: 100 toneladas diárias
  • Despejo de óleo: 8 toneladas diárias
  • Municípios banhados: 20
  • Rios: 35

Fonte: Paquetá Net

Você sabe o que significa guanabara?

Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, o nome vem do tupi gwa ("baía, enseada") + ("semelhante") + ba'ra ("mar") = "baía semelhante ao mar".

Todo mundo nu na Guanabara!

Na década de 50, Luz del Fuego era uma das maiores vedetes do Brasil. Capixaba nascida em 1917 com o nome de Dora Vivacqua, Luz era bonita e quase sempre estava nua nos palcos - e fora deles também. Em seus espetáculos, ela dançava apenas enrolada em algumas de suas muitas jiboias e era sucesso garantido. Para completar, falava o que bem queria, e isso, além da nudez em locais públicos, lhe rendeu várias multas e detenções. Mas sempre um de seus inúmeros amantes importantes, ricos e poderosos acabava com seus problemas.

Já naquela época, ela tinha ideias naturistas e seu maior sonho era ter uma colônia de nudismo. Isso numa época em que nem se usava maiô de duas peças! Ainda na primeira metade da década de 50, criou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB), que acabou sendo impedido de ser registrado. Seduziu um ministro da Marinha e conseguiu a cessão de uma ilha - Tapuma de Dentro - na Baía de Guanabara, perto de Paquetá, para criar a sede de sua colônia. Quando chegou à ilha, decepcionou-se e sentiu-se ludibriada: a pequena ilha de 8 mil metros quadrados tinha dois terços de sua área compostos por rochas e pedras, cactos e plantas secas. Um amigo prontamente batizou-a de Ilha do Sol.

Embora o aspecto da ilha não ajudasse muito, logo o Clube Naturalista Brasileiro, o primeiro reduto naturista da América Latina, tornou-se uma das grandes atrações turísticas do Rio de Janeiro, com centenas de sócios, entre eles muitas figuras influentes da política e artistas. Segundo o site Memória Viva, estiveram lá Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Powel, Cesar Romero, Glenn Ford, Brigitte Bardot e Steve MacQueen. Somente podia estar na ilha quem tirava a roupa. Caso alguém se recusasse a fazer isso, nem desembarcava e era obrigado a voltar imediatamente ao Rio. Foi o que aconteceu com a atriz Jayne Mansfield e seu marido, que, recusando-se a tirar a roupa, foram proibidos de entrar e tiveram de dar meia-volta.

De acordo com a biógrafa Cristina Agostinho, em seu livro Luz del Fuego - A bailarina do povo (Best Seller, 1995), na colônia havia regras rígidas: era terminantemente proibido levar bebidas alcoólicas, falar palavrões ou praticar sexo. Para que essas regras fossem fielmente cumpridas, ela se portava como um cão de guarda. "Outro problema era controlar os atrevidos que passeavam ao redor da ilha para ver as pessoas nuas. Ninguém podia se aproximar sem autorização. Era perigoso. Corriam o risco até de levar tiro", conta a biógrafa.

Apesar de todo o sucesso vivido na década de 50, a Ilha do Sol entrou em seu ocaso na década seguinte. As festas e badalações deram lugar a uma vida solitária e sem glamour. Luz não tinha mais dinheiro, novos sócios não surgiam, os antigos não pagavam a contribuição. Com a idade, seu corpo já não era mais o mesmo. Assim, não podia mais viver de seus espetáculos sensuais. Também por causa da sua idade, seus amantes já não eram mais os poderosos e ricos, e sim homens pobres e rudes que trabalhavam como pescadores, guardas portuários etc. Por vingança, em 19 de julho de 1967, foi assassinada, junto com o caseiro Edgar, com quem vivia na ilha, por dois irmãos pescadores. Para sumir com os corpos, os irmãos abriram o ventre da vedete e do vigia, colocaram pedras e jogaram os corpos na água. Depois de 13 dias, os corpos de Luz del Fuego e de Edgar foram localizados perto da Ilha do Sol, no fundo da Baía de Guanabara.

Fonte: Memória Viva e Luz del Fuego - A bailarina do povo (Best Seller, 1995), de Cristina Agostinho.

Arariboia: a cobra feroz

Muitas pessoas estranham a enorme estátua de um índio bem em frente à estação das barcas. Para outras, é apenas um local de encontro. "Tá legal, a gente se encontra às 8 horas no Arariboia!" Pobre Arariboia: é triste ser lembrado apenas como um ponto de encontro... Poucos sabem que aquele índio de porte altivo e braços cruzados que vigia a baía foi uma das figuras mais importantes na história do Brasil.

Nascido na Ilha de Paranapuã, atual Ilha do Governador, por volta de 1564, Arariboia era filho do cacique dos índios temiminós. Em tupi, Arariboia quer dizer "cobra feroz" ou "cobra da tempestade". Os temiminós eram inimigos dos tamoios, que ocupavam parte do território hoje compreendido pelos bairros da Glória, Catete e Flamengo. Com a ajuda dos tamoios, os invasores franceses, liderados por Nicolas Durand de Villegagnon, conseguiram se estabelecer, em 1555, na região, forçando cada vez mais a saída dos portugueses, que praticamente foram expulsos. Os temiminós, então, aliaram-se aos portugueses e, ao lado de Mem de Sá e, posteriormente, de seu sobrinho, Estácio de Sá, combateram os franceses e os tamoios. Por fim, após diversas batalhas sangrentas, os franceses foram expulsos e os tamoios subjugados. Em todas as batalhas, Arariboia teve uma participação fundamental, quase heroica, o que foi decisivo para a vitória portuguesa, assegurando-lhe a conquista do território.

Em 1567, foi batizado pelos jesuítas com o nome cristão de Martim Afonso de Sousa. Em agradecimento aos seus feitos heroicos, foi condecorado pelo rei de Portugal, Dom Sebastião, com o título de Capitão-mor. Alguns anos depois, recebeu a posse da sesmaria que corresponde hoje ao território ocupado pelos bairros de São Lourenço e Icaraí. Foi a aldeia dos Temiminós que deu origem, anos depois, à cidade de Niterói.

Alguns pesquisadores dizem que Arariboia teria morrido velho e de causas naturais. Outros dizem que ele teria se afogado nas águas onde hoje é a Ilha do Fundão.