Biblioteca
Geografia

Riscos Ambientais e Geografia: Conceituações, Abordagens e Escalas

M. Sc. Cleber Marques de Castro

Fundação Cecierj

Introdução

Esta contribuição é uma tentativa de buscar a relação entre risco ambiental e Geografia, discutindo as categorias do risco ambiental e sua dimensão espacial e temporal. Assim, admitimos que a noção de risco ambiental deve ser construída ao longo do tempo, associada à dinâmica espacial das cidades.

A noção de risco tem adquirido importância e visibilidade na sociedade, figurando em debates, avaliações e estudos no meio acadêmico e empresarial. Hoje em dia, é comum lermos ou ouvirmos a palavra risco associada a algum adjetivo que o qualifica: risco ambiental, risco social, risco tecnológico, risco natural, biológico... Este risco sempre se relaciona à ideia de segurança pessoal, saúde, condições de habitação, de trabalho, transporte, ou seja, ao cotidiano da sociedade moderna. Assim, distinguimos três abordagens sobre risco: uma ligada às geociências, outra que trata dos riscos tecnológicos e sociais e por fim, a abordagem empresarial e financeira.

O que é risco?

O risco é uma categoria de análise associada às noções de incerteza, exposição ao perigo, perda e prejuízos materiais, econômicos e humanos em função de processos de ordem "natural" (tais como os processos exógenos e endógenos da Terra) e/ou daqueles associados ao trabalho e às relações humanas.

O que é risco ambiental?

O quadro de risco ambiental é geralmente composto por três categorias: risco natural, risco tecnológico e risco social, abrangendo processos bastante variados como a ocorrência de catástrofes naturais, acidentes em indústrias e as condições de vida da sociedade. Estas categorias, assim como a própria noção de risco ambiental, é desenvolvida por diversos pesquisadores em todo o mundo.

As avaliações de Riscos Ambientais

Os riscos ambientais podem ser avaliados qualitativa ou quantitativamente, dependendo de sua natureza e das metodologias empregadas. Desta maneira, os riscos são avaliados a partir de resultados (ocorrências) de acidentes, ou seja, uma avaliação tipicamente estatística, utilizando comumente um padrão número de eventos/100.000 pessoas e com intervalos de tempo estabelecidos. Entretanto, existem avaliações qualitativas, isto é, outras formas de avaliação que não estão sujeitas às definições estritamente técnicas e quantitativas e que primam por abordagens ligadas aos impactos culturais, sociais e ambientais das atividades humanas.

A Dimensão Espacial do Risco

O risco está vinculado a um acontecimento que pode realizar-se ou não. Porém, a existência do risco só se constitui quando há a valorização de algum bem, material ou imaterial, pois não há risco sem a noção de que se pode perder alguma coisa. Portanto, não se pode pensar em risco sem considerar alguém que corre risco, ou seja, a sociedade.

A noção de "possibilidade de perdas", intrínseca à ideia de risco, possui uma dimensão espacial. No que diz respeito à localização espacial ou mesmo à distribuição espacial dos riscos, fica evidente, a princípio, a existência nítida de uma concentração espacial de riscos nos grandes centros urbanos, pois são o locus da produção e reprodução dos processos produtivos e de um modo de vida que propicia a concentração da população, estimula a produção industrial, as relações comerciais e prestação de serviços. Neste sentido, a cidade é um espaço onde a sociedade encontra-se mais vulnerável a perdas, ou seja, a cidade é um espaço de risco. A apropriação e uso dos recursos naturais por meio de processos produtivos e a própria dinâmica dos processos da natureza e dos processos sociais tendem a gerar riscos à sociedade, relacionando-se à sua dinâmica socioespacial.

O tratamento da questão do risco ambiental pela Geografia revela-se, assim, uma via importante de investigação. Esta abordagem pode abarcar:

  1. O rebatimento espacial de processos e eventos danosos - espaços de perdas/espaços de risco;
  2. As diferentes escalas de ocorrência e concentração espacial destes eventos e processos geradores - escalas de perdas/escalas de risco;
  3. Sua influência na configuração e organização de novos espaços a partir das perdas sociais, econômicas e naturais, e das intervenções e conflitos entre atores sociais, gerando novos arranjos territoriais, segregação espacial, exposição a novos riscos etc.;
  4. As relações entre espaços de perdas e escalas de perdas, o grau de exposição aos riscos e a restrição ao acesso a recursos.

A busca da definição dos processos que constituem os espaços de riscos aponta para a necessidade de articulação entre as diferentes escalas de ocorrência dos processos perigosos. O risco ambiental deve ser considerado como um processo que se estrutura ao longo do tempo, não estando restrito aos eventos "naturais" ou tecnológicos catastróficos (de grande magnitude e concentrados em curtos intervalos de tempo, ainda que recorrentes), como grandes enchentes, acidentes industriais etc. A construção do risco, tomada como um somatório de processos em diferentes intervalos temporais, está vinculada ao modo de vida moderno (à modernidade) e à vida cotidiana nas cidades.

Apesar do caráter cotidiano e cumulativo do risco, a percepção da existência do risco, a consciência da distribuição dos danos e a materialização das perdas ainda são tênues, inclusive no âmbito da administração pública, que arca com grande parte do ônus relacionado às tarefas de mitigação destas perdas/prejuízos, dado o tratamento de forma pontual e imediata, privando-se do uso de um raciocínio escalar. Assim, deve-se buscar a identificação da vulnerabilidade dos sistemas, a valoração de perdas para as classes sociais/sociedades atingidas, assim como o desenvolvimento das forças produtivas e o processo de urbanização.

Este é um breve resumo do artigo escrito com a colaboração de Dra. Maria Naíse de Oliveira Peixoto e Dra. Gisela Pires do Rio, professoras do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicado no Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ, v.28, n.2, 2005. Veja aqui o artigo completo.

Publicado em 18 de abril de 2006