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Geografia

O Surgimento dos Primeiros Computadores

Professor Doutor Hindenburgo F. Pires

Introdução

A iniciativa de buscar desenvolver vários artefatos ou artifícios para quantificar objetos e coisas (o Cálculo) em dispositivos físicos e máquinas faz parte da história do processamento de dados, desde a invenção do ábaco, há mais de 5.000 anos atrás, e foi se aprimorando com:

Blaise Pascal (1623-1662), matemático, físico, escritor e artista francês, inventou a primeira máquina de calcular do mundo, para efetuar os cálculos dos tributos que eram coletados por seu pai na metade do século XVII (BITTER, 1984:27). Em função de seu grande prestígio como matemático e inventor, Pascal foi homenageado, no início da década de 1970, com o nome de uma linguagem de programação de computador (software), desenvolvida por Niklaus Wirth, no Institut fur Informatik em Zurique; Barão Gottfried Wilhelm von Leibnitz (1646-1716), na Alemanha, inventou uma máquina de calcular, mais avançada que a Pascalina, pois fazia as quatro operações. A máquina de Leibnitz exerceu forte influência inspiradora no desenvolvimento das modernas pequenas máquinas de calcular do início dos anos 70;

Joseph Marie Jacquard (1752-1834), inventou na França a máquina de tear com cartão perfurado, utilizada nas atividades industriais para a produção têxtil. Jacquard foi dos precursores do processo de automação industrial, sua invenção praticamente revolucionou a indústria têxtil, impulsionando a produção de roupas, tecidos e sendo responsável pela destruição de inúmeros postos de trabalho no início do século XIX, na França. Sua invenção foi repudiada pela classe trabalhadora francesa, que via no seu engenho a expressão demoníaca de um progresso, que naquele tempo era praticamente irrecusável. Ele foi o precursor das máquinas de comando numérico e das máquinas-ferramenta, da atualidade;

Charles Babbage (1792-1871) inventou na Inglaterra o primeiro computador mecânico com o "pilot model or prototype of the difference engine", posteriormente, "analytical engine", que não era simplesmente uma máquina de calcular, porque imprimia tabelas, estocava números e alterava instruções;

Herman Hollerith (1860-1929), nos EUA, inventou a máquina eletromecânica de estatística por tabulação de cartões ou o sistema de tabulação estatística, criado em 1889 e utilizado no Censo dos EUA de 1890. Hollerith organizou sua própria companhia, the Tabulating Machine Company, que através do "leasing" prosperou nos EUA e se transformou, em 1924, a partir da fusão com outras empresas, na Internacional Business Machines (IBM), em New York (BASHE et al. ,1986; BITTER,1984; BRITO,1983; FREEMAN,1982:82; ROSENBERG,1976:200; FLAMM,1988:30).

Esta forma de buscar quantificar objetos, coisas (o Cálculo) em dispositivos físicos ou máquinas, passou a ser chamada de processamento de dados ou processamento de informações.

O processamento de dados e sua quantificação possuem uma longa história. Não é o objetivo aqui enveredar por essa história, mas, assinalar como, onde, quando e porque surgiu, da evolução das técnicas de processamento de dados, a "máquina inteligente" (TYLECOTE,1991:56), o computador eletrônico ou a máquina que produz máquinas (WALKER,1993:675), e a microeletrônica, que lhe sucedeu.

A 1ª Geração Pré-Comercial de Computadores  do Mid-Atlantic nos EUA: Os Deselegantes “Mainframes”

As regiões do Mid-Atlantic (New Jersey, New York e Pennsylvania) e da New England (Massachussets), se constituíram no núcleo inicial, mais importante, da produção dos primeiros computadores elétricos à válvula nos EUA. A concentração de investimentos governamentais militares e de empresas como: IBM, General Electric e Silvanya, em New York; RCA, em New Jersey, e a presença de grandes laboratórios como AT&T-Bell, Western Electric e da University of Pennsylvania, em New Jersey, constituíram os fatores decisivos para a maturação regional das indústrias de computadores e semicondutores no nordeste dos EUA.

As duas primeiras décadas da história dos primeiros computadores eletrônicos, podem ser caracterizadas como o período dos grandes computadores (mainframes).

A maioria dos grandes computadores produzidos no período, que se estende de meados dos anos 40 até o início dos anos 50, eram não comerciais, e foram utilizados pelo governo americano, além dos fins militares (BRETON,1987:124), para o censo, cálculos financeiros, administrativos e estatísticos, e, também, para fins científicos. Os custos desses mainframes eram bastante elevados, sua produção requeria o emprego de muito trabalho e os métodos de organização, conservação e transcrição dos dados por cartões perfurados, eram feitos por meio de técnicas de tradição originada no final do século XIX. Estes conteúdos e fatores explicam, em parte, o porquê da preexistência de grandes investimentos estatais, unidades fabris e laboratórios, como requisitos estruturais de sua produção.

Como os investimentos em pesquisa básica para a criação do primeiro computador eletrônico foram provenientes, na sua grande maioria, de recursos governamentais, a exploração e a expansão do processo de comercialização definitiva desses computadores só aconteceu no início dos anos 60, por motivos "estratégicos e militares". E é só no final dos anos 70 que os microcomputadores entram em cena, do ponto de vista comercial (DORFMAN,1987:43), ou seja, o caráter inovativo, em termos de usos e comercialização, da invenção dos computadores só emerge duas décadas depois de sua aparição.

O surgimento do primeiro computador eletrônico digital da chamada Primeira Geração Tecnológica foi concebido em 1939 por John Vincent Atanasoff, professor de física, e Clifford Berry, seu assistente, ambos do Iowa State College, que o chamaram de Atanasoff-Berry Computer ou ABC. Este computador foi desenhado para solucionar equações algébricas lineares (BITTER, 1984:33).

Em 1944, a partir do rápido desenvolvimento da eletrônica, um grupo de cientistas da Universidade de Harvard e da IBM, liderados por Howard Aiken, conceberam o Harvard's Automatic Sequence-Controlled Calculator -- o Mark I, um computador que funcionava com tecnologia e instrumentos eletromecânicos. Sua programação e suas instruções eram efetuadas por intermédio de fitas de papel gravadas ou codificadas. O Mark I levava 6 segundos para multiplicar dois fatores de 10 algarismos.

Em 1946, tomando como base um exótico experimento eletrônico criado por Atanasoff & Clifford Berry, o "functional prototype electronic adder", J. Presper Eckert e John W. Mauchly construíram, no departamento de engenharia elétrica da Universidade da Pensilvânia, na Philadelphia (FLAMM,1988:31; DORFMAN, 1987:45), a partir dos progressos técnicos na eletrônica, o ENIAC (Eletronic Numeric Integrator and Calculador), que teve seu projeto iniciado em 1943 (STERN,1981). O ENIAC parecia mais "um monstro", pesava 30 toneladas, media 170 metros quadrados, possuía: 18.000 válvulas eletrônicas, 70.000 resistores, 10.000 capacitores e 6.000 interruptores; trabalhava com sistema de numeração binário; executava cálculos com mais velocidade que seu antecessor, de 5 toneladas, o Mark I; conseguia multiplicar dois fatores de 10 algarismos em 0,0003 segundos. As máquinas de calcular de hoje fazem estes cálculos centenas de vezes mais rápido.

Os sistemas de válvulas eletrônicas, que representou o componente central da Primeira Geração de Computadores, foram largamente difundidos tanto nos sistemas de telefonia, como nos de rádios, amplificadores e outros equipamentos eletrônicos (PRESTOWITZ,1998:123).

Na época o objetivo principal de construção do ENIAC foi o de auxiliar a produção de armas, ou seja, este faria os cálculos necessários para a criptoanálise, confecção de bombas atômicas, cálculos das tabelas balísticas da marinha e dos primeiros mísseis nucleares. A grande maioria das pesquisas científicas estavam voltadas para auxiliar a indústria de defesa (FLAMM,1988:38).

Depois de ajudar a criar o ENIAC, os dois principais responsáveis pelo projeto na Universidade da Pensilvânia resolveram criar uma empresa, cujo nome era o produto da fusão dos seus sobrenomes: Eckert-Mauchly Computer Corporation. A ideia deles era comercializar suas invenções para grandes instituições públicas e privadas, interessadas em utilizar esta tecnologia para fins estatísticos e, também, militar. Esta ideia de se tornar um pequeno empreendedor foi copiada, com sucesso, posteriormente, por inúmeros engenheiros de renome, oriundos de importantes universidades nos EUA.

Em 1950, a Eckert-Mauchly Computer Corporation adquiriu um contrato para efetuar o processamento dos dados do recenseamento nos EUA, obtendo uma inserção de caráter civil da tecnologia por ela produzida. Mas a Eckert-Mauchly Computer Corporation teve uma vida produtiva muito curta, sendo absorvida ainda nesse mesmo ano pela Remington Rand.

Estimado em mais de US$ 500.000, o ENIAC, parecia apresentar problemas de excessivo consumo de energia e de queima permanente de válvulas, já que quando ele estava funcionando a temperatura ambiente alcançava 120ºF, ou seja, quase 49ºC. Mais tarde com a contribuição do matemático húngaro J.V.Neumann, surge o Electronic Discrete Variable Computer - EDIVAC, o primeiro computador a armazenar, em forma codificada e com uma nova "arquitetura", dados em sua memória. Os propósitos tendiam a ser os mesmos, produzir tecnologia para a "defesa" e cálculos estatísticos e de balística.

O avanço do hardware prosseguiu com o surgimento do Universal Automatic Computer - UNIVAC, no início dos anos 50, seis vezes menor, com 5 toneladas, mas ainda com 5 mil válvulas. O UNIVAC foi o primeiro computador a armazenar programas; sua concepção foi um produto de pesquisas militares realizadas na Universidade da Pensilvânia durante a guerra (ROSZAK,1986:22). O desenvolvimento dos UNIVAC foi fomentado pelos contratos com o National Bureau of Standards and Prudential Insurance, com transferência de patente para a Remington-Rand (posteriormente Sperry-Rand).

Em 1951, o período de produção comercial dos computadores foi inaugurado pela Sperry-Rand (desde 1986 Unisys) (CASTELLS,1989:63), com o início da fabricação do UNIVAC I, o primeiro computador eletrônico utilizado para efetuar o censo daquele ano, composto de logiciais produzidos por transístor, memória de núcleos magnéticos e batch remoto.

O surgimento público do UNIVAC "foi um truque dos meios de comunicação" . O UNIVAC foi emprestado à CBS para previsões das eleições de 1952, e a partir de 5% a 7% dos votos apurados, projetou a vitória de D.Eisenhower, contrariando as expectativas dos especialistas, com um erro mínimo estimado em 1% do total de votos (ROSZAK,1986:22-23).

A Sperry-Rand, em 1954, era a segunda maior empresa em vendas de computadores digitais nos EUA (ver tabela abaixo). Neste período a IBM era a quarta do "ranking".

EUA, Produtores Líderes de Computadores Digitais 1954
EmpresasTotal de Vendas
(Milhões $)
Setor
RCA941Financeiro
SperryRand696Financeiro e Científico
BendixAviation608 Científicos
IBM461Financeiro e Científico
NCR259Financeiro e Científico
Minneapolis-Honeywell229Financeiro e Científico
RaytheonManufacturing182Financeiro e Científico
Burroughs169Financeiro e Científico
Underwood76Financeiro
MoroeCalculating Machine30Financeiro
MarchantCalculator (a)21Financeiro
Electrodata01Financeiro e Científico

Fonte:Arthur D.Leite, Inc., with the White, Weld&Co. research department, TheElectronic Data Processing Industry: Present Equipament, Technological  Trends, Potencial Market (New York: White, Weld&Co, 1956) in FLAMM (1988:82). a.Vendas efetuadas em 1953.

Mas, em 1955, quando os criadores do UNIVAC I, J. Presper Eckert e John W. Mauchly, desapareceram, a hierarquia do "ranking" se alterou, a liderança do mercado de computadores passou a ser dominada pela IBM, que detinha mais de 70% do valor dos sistemas em uso em todo o mundo.

A hegemonia da IBM na produção de computadores foi obtida por duas razões: primeiro, por ter efetuado pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento, para atender às demandas estatais de concepção científico-computacionais de sistemas de defesa, fabricando produtos militares como o "701 Defense Calculator", ao contrário da sua rival, a Sperry Rand, que preferiu continuar no mercado de aplicações financeiras; segundo, porque os produtores do UNIVAC negligenciaram os investimentos requeridos em P&D em novos produtos para poderem continuar preservando a liderança tecnológica.

A IBM continuou seus investimentos no mercado militar, e construiu o computador valvulado o"Bomb-Nav", este último produzido para atender às necessidades dos B-52 (FLAMM,1988:87) e ser utilizado no sistema de defesa aéreo (SAGE) e para outros fins militares.

Grande parcela dos produtores de tecnologia de informação, nos Estados Unidos, do setor de informática, era mantida pela indústria militar. O aperfeiçoamento da indústria de defesa, durante o pós-guerra, estabeleceu uma estrutura de produção e acumulação militar para empresas de Alta-Tecnologia, que gozavam do privilégio da "estabilidade" sem a concorrência, pois contavam com "investimentos seguros" custeados pelo Estado, e estavam menos suscetíveis às oscilações de preço e mercado do que o restante das atividades civis competitivas.

Depois do sucesso comercial alcançado pela IBM e da ampliação do seu poder de mercado, na década de 50, as transformações e as inovações na estrutura do Hardware fizeram surgir a segunda geração de computadores.

A Mobilidade Territorial da Produção Industrial  dos Computadores nos EUA: O Surgimento da Tecnologia dos Minicomputadores

A participação dos Laboratórios Bell, de Murray Hill em New Jersey, da American Telephone & Telegraph-AT&T, ou AT&T-Bell, desde 1939, constituiu um fator de forte influência no processo de construção de computadores, principalmente sob a "batuta" do matemático americano George R. Stibitz. Foram estes Laboratórios que, através de seus cientistas, conseguiram resolver o problema causado pelo consumo excessivo de energia e queima das válvulas dos ENIACs, inventando o Transístor (Transfer Resistor ou "resistor de transferência").

Esta inovação foi um produto de pesados investimentos nas áreas de pesquisa e desenvolvimento (FREEMAN,1982:92). Seu aperfeiçoamento só pôde ser concretizado a partir de uma base gigantesca de desenvolvimento obtida em grandes laboratórios, como os Laboratórios Bell, que chegaram a empregar mais de 2.000 profissionais no final da década de 40 (DORFMAN, 1987:172).

Vinte e cinco por cento do orçamento das pesquisas em semicondutores, de 1949 a 1958, eram provenientes de contratos de defesa estabelecidos pelo governo federal (FLAMM,1988:16; SCOTT & STORPER,1988a:31; PIRES,1992:71-72).

O Transístor, assim como outros dispositivos úteis, tais como o diodo semicondutor, diodotúnel, etc., faz uso de semicondutores de impurezas, que resultam da adição controlada de certas impurezas a semicondutores intrínsecos (TRIPLER,1981:288).

A era do Transístor iniciou-se em 1948, quando John Bardeen, Walter Brattain e William Shockley, físicos do estado sólido, todos da Bell Telephone Laboratories, deram início à primeira revolução na eletrônica com a invenção do transístor (PRESTOWITZ,1988:124; TYLECOTE,1991:56). Os Laboratórios Bell construíram, em 1950, o primeiro computador transistorizado, chamado de LEPRECHAUN. Mas a comercialização definitiva desta nova geração de computadores só se efetiva na prática no final da década de 50 através da Sperry Univac, provando que nem sempre o tempo de descoberta de uma invenção é o mesmo de sua inovação ou comercialização, ou mesmo de seu reconhecimento, como foi o caso do prêmio Nobel dado aos inventores do Transístor em 1956, quando a descoberta ocorrera em 1948.

A IBM só lançou seus primeiros modelos transistorizados de computadores em 1960.

Em 1954, antes de receber o prêmio Nobel, Shockley deixa a AT&T's Bell Laboratories para comercializar sua invenção, depois da frustada iniciativa de estabelecer uma firma de Transístor em Massachussetts.

Em 1956, William Shockley, que era de Palo Alto, Califórnia, foi indicado pelo professor e empresário Frederick Terman, que fundou, em 1951, o Parque Industrial de Stanford (CASTELLS,1989:44), para ser professor de Engenharia Elétrica da Universidade de Stanford. Lá, Shockley estabeleceu a Shockley Transistor Corporation (SAXENIAN,1994:25), procurando atrair jovens e talentosos físicos, químicos e engenheiros, como foi o caso mais tarde de Robert Noyce, doutor em física do estado sólido pelo MIT.

Como Shockley "não era um bom administrador de empresa", dois anos depois, do grupo de excelentes cientistas que possuía na sua empresa, oito, incluindo Robert Noyce e Gordon Moore, resolveram implantar, em 1957, com o apoio do banqueiro Arthur Rock e o suporte da Fairchild Camera and Instrument Company de New York, o núcleo da Fairchild Semiconductor Company (DORFMAN,1987:181; SAXENIAN,1994:25; PRESTOWITZ,1988:125).

A Fairchild, ao introduzir inúmeros avanços tecnológicos, tornou-se a mais importante empresa de semicondutores dos EUA, mas os problemas de gestão reapareceram, e o antigo grupo dos oito se dissolveu e um grande número de pesquisadores e executivos da Fairchild se reorganizaram e formaram várias outras empresas de semicondutores, como:

  • Rheem Semicondutor, formada em 1959;
  • Signetics e Amelco (depois Teledyne Semiconductor), formadas em 1961;
  • Molectro (outra filial da Fairchild) dentro da National Semiconductor como o maior competidor, formada em 1967;
  • Intel, formada por dois fundadores da Fairchild, em 1968;
  • Advanced Micro Devices, formada pelo gerente de marketing e mais sete empregados da Fairchild em 1968

A importância regional de Santa Clara Valley pode ser, em parte, creditada à Fairchild, que foi o ancestral comum de 21 das 23 empresas de semicondutores da região, além dos investimentos milionários do Pentágono para pesquisa eletrônica, na Universidade de Stanford, que ajudaram a criar o Instituto de Pesquisa de Stanford (DICKEN,1992:328) e ajudaram a criar, também, o Lawrence Livermore National Laboratory ligado à Universidade da Califórnia (CASTELLS,1989:53).

Em 1980, as vendas de semicondutores das empresas americanas representavam 6 bilhões de dólares (DORFMAN,1987:127), sem considerar que a tecnologia dos semicondutores se transformou em um quase-insumo tecnológico, do qual o desenvolvimento industrial não pôde mais prescindir na produção de diferentes atividades comerciais, principalmente eletroeletrônicas.

A Universidade de Stanford, tendo conhecimento estratégico sobre a produção de Alta-Tecnologia, concedeu, desde 1951, a título de contrato de aluguel, terras para estas empresas, com o objetivo de promover e criar o ambiente necessário para o desenvolvimento de tecnologias inovativas na região.

A lógica territorial de implantação das indústrias de AT nos EUA (Semicondutores, Biotecnologia, Computadores, etc.) foi, no início, de certo modo, ditada pela "magia" dos grandes Laboratórios e Universidades do Nordeste e do Leste da região do Snowbelt, depois passou a assumir um caráter estratégico de localização e foi transferida para o Sul, o Oeste e para as regiões de deserto e do Sunbelt: Austin, Dallas-Fort Worth, Houston Phoenix, San Diego, Santa Clara County e outros centros (SCOTT,1988b:160), onde fortes investimentos estatais de defesa começaram a se concentrar.

A Emergência Espacial do Silicon Valley na Califórnia

A flor da Alta-Tecnologia não emergiu apenas do acaso no "deserto" ou no "west", ou da imaginação dos historiadores.

Durante o período da guerra da Coreia, no pós-guerra, uma ação estatal quase deliberada e programada, com o apoio de um empreendedor individual, Frederick Terman, cunhou a semente da AT, nesta paisagem-berço, que mais tarde passou a ser chamada de Silicon Valley  (MARKUSEN et al., 1986).

Esta ação teve como fundamentos:

  • a segurança nacional;
  • o ambiente aprazível, a atmosfera cultural, a qualidade de vida e o bom clima da região (CASTELLS,1989:52);
  • as possibilidades de exploração de mercados de trabalho (ANGEL, 1991:1509) e criação de relações sociais de trabalho interfronteiriças, onde existe forte presença de imigrantes ilegais (SCOTT & STORPER, 1988c:41);
  • o melhor acondicionamento do futuro parque industrial, longe dos grandes centros e dos sindicatos (DAVIS,1986:194);
  • a proximidade de centros Universitários e laboratórios de excelência;
  • a disponibilidade de novos materiais e a necessidade de realização dos testes para a aprovação de dispositivos bélicos, principalmente de defesa (SAXENIAN,1994:11-27).

Esta lógica da reestruturação territorial das atividades industriais de AT promoveu estrategicamente nos EUA, desde a década de 50, em parte, a gênese dos processos de desindustrialização (BLUESTONE & HARRISON,1982:30; SOJA,1994:159) e da reindustrialização seletiva e verticalizada, que originou o Silicon Valley, Orange Valley e as novas cidades informacionais (CASTELLS,1989), também denominadas saudosamente de pós-industriais por Daniel Bell.

Em 1970, o Silicon Valley, antiga Meca da AT, tinha se expandido com mais de 1.500 firmas não sindicalizadas e 200.000 trabalhadores sem o mínimo de organização sindical (DAVIS,1986:130), tornando-se o maior centro nacional de AT dos EUA e o mais dinâmico setor da economia regional na produção de inovações em semicondutores, superando a produção da região berço-mater da AT, a Route 128 (SAXENIAN,1994:25).

O processo de territorialização das indústrias de computadores e das indústrias de semicondutores obedece às características diferenciadas e peculiares de cada setor industrial, já que as indústrias de computadores são maiores e mais diversificadas que as indústrias de semicondutores. Estas características influenciam o processo de implantação e mobilidade territorial dessas indústrias: a mobilidade das indústrias de computadores é, relativamente, menos expressiva do que a das indústrias de semicondutores (CASTELLS,1989:57).

A Era do Silício nos Computadores e a Produção   dos Circuitos Integrados

A expressão "Era do Silício" refere-se ao período da utilização do Circuito Monolítico ou Circuito Integrado--CI (WOLFF,1977:44), que permitiu reunir numa única pastilha de silício mais de 450.000 componentes: transístores, diodos, capacitores, registores e indutores, criado por Jack Kilby e Robert Noyce, ambos da Texas Instruments-TI, com alguns impasses técnicos, em 1958. Surge, destas inovações tecnológicas, a terceira geração de computadores, que inaugura essa era e o começo da segunda revolução na eletrônica.

A redução dos componentes de um computador a uma minúscula pastilha estimulou pesquisas que procuravam, cada vez mais, diminuir o tamanho desses componentes, através do processo de miniaturização.

Os computadores dessa geração eram mais rápidos e tinham uma capacidade maior de estocar dados. Essa geração de computadores difundiu os usos de acessórios ou periféricos acoplados (modem, acionadores de discos e acionadores magnéticos) e de linguagens de programação (Cobol, Fortran, Basic, APL, Pilot, Pascal, etc. ).

A tecnologia dessa geração permitiu o uso compartilhado de um mesmo computador por mais de uma pessoa, através da introdução de sistemas de múltiplos usuários (BITTER,1984:55).

O uso inicial desta tecnologia esteve direcionado para atividades de caráter geopolítico dos programas espaciais de defesa da NASA. Nesse período, segundo um comitê do congresso, 85% das pesquisas e desenvolvimento americanas em eletrônica foram financiadas pelo governo federal (FLAMM,1988:16); investimentos explicados pela conexão da Califórnia com os mercados militares (CASTELLS,1989:54).

Durante quase uma década o circuito integrado teve seu uso restrito ao departamento de defesa, já que em 1960, um ano depois de sua descoberta, a Força Aérea dos EUA garantiu à Texas Instruments um contrato para construir o primeiro computador que utilizaria o CI, que só ficou pronto em 1961. A Força Aérea havia decidido que utilizariam o CI no míssil Minuteman II e, em 1965, o CI era o quinto produto em vendas na indústria de Alta-Tecnologia (FLAMM,1988:18).

Por isso, só a partir da segunda metade da década de 60, depois do aprimoramento na produção de Circuitos Integrados e redução dos custos de produção, a Texas Instruments diversificou e difundiu a sua produção comercial, tornando-se um dos maiores produtores mundiais de calculadoras manuais e computadores (CASTELLS,1989:46).

É nesse período de desenvolvimento dos circuitos integrados que novos competidores começam a emergir. Foram eles: Burroughs, National Cash Register (NCR), Digital Equipament Corporation (DEC), Hewlett-Packard e Honeywell, que produziram computadores de médio e largo porte, velozes, resistentes e de baixo custo (BITTER,1984:57).

A Era dos Chips e dos microcomputadores

Duas décadas depois da Era do Silício, mais exatamente em 1971, Marcian E. Hoff, Jr. (Ted Hoff) da Intel Corporations, inventou o microprocessador (Chip), que consistiu em reunir numa micropastilha de silício um computador inteiro com vários Circuitos Integrados, mais a Unidade Central de Processamento - CPU, e milhares de transístores.

Foi dessas inovações que surgiu a quarta geração de computadores, cuja característica central era a presença de circuitos integrados de larga escala de integração (LSI). Essa geração dos microcomputadores, embora tenha sido usada no início para atividades de baixa aplicação, como simples calculadoras (FLAMM,1988:237), inaugurou a era dos Chips e o começo da terceira revolução na eletrônica e, praticamente, revolucionou as aplicações da microeletrônica na sociedade global.

O microcomputador criado pela Intel resultou de inesperadas (casuais) descobertas a partir de um pedido, efetuado por uma empresa japonesa de calculadoras, a Busicom, para a criação de chips de calculadoras de diferentes designs; mais tarde, a Intel concebeu o design de um chip programável por um software. Em 1971, depois de observar o extraordinário valor da tecnologia que havia criado com a Busicom, a Intel procurou renegociar o contrato e reter os direitos de compra e venda (Marketing) para produzir o primeiro microcomputador (DORFMAN,1987:196).

No final da década de 70 e início dos anos 80, essa geração, através da redução dos custos de produtos e do surgimentos de algumas inovações no processo de miniaturização de componentes, na capacidade de retenção de memória dos microprocessadores (4bits, 8bits, 16 bits, 32bits, etc.), foi responsável pelo surgimento do computador pessoal (PC) e pelo seu sucesso comercial em massa, que ocorreu a partir da segunda metade da década de 80.

A primeira empresa a produzir um computador em um Chip foi a Texas Instruments, que patenteou o seu invento e procurou comercializá-lo para usos em: instrumentos musicais, brinquedos, copiadoras, calculadoras, vídeo-games (DORFMAN,1987:197).

Em 1980, a IBM introduziu o IBM 3081, duas vezes mais veloz que os seus modelos anteriores, trabalhando com um sistema chamado de "very-large scale integrated circuits (VLSI)" (BITTER,1984:59).

As primeiras empresas a comercializarem microcomputadores, com tecnologia VLSI, depois da Texas Instruments e da IBM, foram: Apple, Commodore, Radio Shack, Atari, Pet, Osborne, Timex/Sinclair.

A capacidade dos computadores cresceram, os custos caíram e os computadores se difundiram entre os países, no cotidiano da sociedade, através dos bancos, repartições e instituições públicas, escritórios, laboratórios, instituições de pesquisas, empresas aéreas, agências de turismo, lazer, clubes, hospitais, pequenos negócios, escolas, universidades, bibliotecas, supermercados, carros, residências, máquinas e através das redes mundiais de comunicação por satélites. A introdução na vida cotidiano transformou radicalmente a sociedade industrial e tende a fazer surgir, como anteviu Daniel Bells, uma nova sociedade pós-industrial ou da informação.

A Era dos Chips no Brasil

No Brasil, como em vários outros NPIs, a obtenção da AT constituiu uma verdadeira "luta ideológica e política" (ADLER,1986). O enredo desta "estória" foi objeto de inúmeras pesquisas e publicações.

O crescimento e a evolução da indústria de computadores no Brasil e em alguns NPIs, no final da década de 70 e nos anos 80, provenientes da adoção de políticas de substituição de importação e embargo comercial aos grandes produtores de computadores, revelaram-se como um surpreendente processo de ruptura histórica do quadro da produção mundial oligopolizada mantido pelas Corporações Multinacionais -- CMs (ERNST, 1989).

A constituição e a localização da produção industrial de chips e componentes para computadores no Brasil apresentam um componente geográfico distinto do observado nos EUA. Enquanto nos EUA a produção de componentes e semicondutores nasce articulada aos grandes laboratórios da região norte e nordeste e se desenvolve, em função do mercado de trabalho (ANGEL, 1991:1509) e das demandas estatais do Departamento de Defesa, nas cidades do Sul e do Oeste (Sunbelt), no Brasil, no final dos anos 70 e início dos 80, a carência de uma capacitação tecnológica nas atividades que estavam articuladas à indústria de computadores (TIGRE, 1985:128) praticamente influenciou a constituição do processo de concentração da produção de AT nos grandes centros metropolitanos (São Paulo e Rio de Janeiro) e impediu a descentralização das atividades de produção, no território.

Esse processo de concentração tendeu a contrariar as iniciativas de descentralização industrial desenvolvidas pelo governo federal, principalmente em São Paulo. Mesmo com o crescimento verificado de 1970 a 1980 (de 7% para 21,6%) das indústrias de telecomunicações, microeletrônica e componentes, em Campinas (NEGRI, 1988:24). Isso porque, a grande maioria destas indústrias estavam mais vinculadas ao segmento profissional de eletroeletrônica comercial do que de Alta-Tecnologia. No Rio de Janeiro, na região metropolitana, as iniciativas de descentralização e suburbanização das atividades industriais vinculadas ao setor de informática foram inicialmente bem-sucedidas. A criação da empresa estatal de computadores, a Cobra, em Jacarepaguá, foi um passo decisivo neste sentido.