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Geografia

Utilizando mapas no ensino da Geografia

Janaína Eliza Fadel

Geógrafa pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Geomática pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Professora da Fundação CECIERJ, Professora da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO

Introdução

Este artigo teve como ponto de partida o texto: "Cartografia no Ensino Fundamental e Médio" da professora Dra. Maria Elena Simielli. Em seu texto, Simielli aponta dois eixos em relação ao trabalho com mapas: um onde se trabalha com produtos já elaborados (mapas, cartas e plantas), para tornar o aluno um leitor crítico destes produtos; e o outro, onde o aluno é um agente participativo (elaborando maquetes, croquis). O aluno aqui é um mapeador consciente. Para Simielli é fundamental que haja uma alfabetização cartográfica a partir das séries iniciais (1a. à 4a. série). O trabalho com mapas no ensino de Geografia, segundo a professora, deve ser continuado nas demais séries do ensino fundamental e médio.

Níveis propostos para se trabalhar com produtos já elaborados

Aquele professor que optar por trabalhar com mapas já elaborados com sua classe, poderá seguir os três níveis propostos. Entretanto, é claro que a utilização de mapas no ensino de geografia não se dá de maneira uniforme, cada caso é um caso. Isso se dá pelo fato de que nem todas as escolas adotam a alfabetização cartográfica nas suas séries iniciais, tornando mais difícil o trabalho com mapas em sala de aula, tanto para o professor como para o aluno. Assim, poderemos ter turmas de 5a. ou mesmo de 8a. série necessitando de uma alfabetização cartográfica. Muitas vezes, os próprios alunos de ensino médio e de graduação sentem dificuldade em fazer uma leitura e uma boa interpretação dos mapas.

Os níveis propostos para se trabalhar com produtos já elaborados são:

  1. Localização e Análise, indicado para ser trabalhado nas 5a. e 6a. séries: o aluno localiza e analisa um determinado fenômeno no mapa;
  2. Correlação, indicado para ser trabalhado nas 7a. e 8a. séries: ele correlaciona duas, três ou mais ocorrências e;
  3. Síntese, indicado aos alunos do Ensino Médio: o aluno analisa, correlaciona diferentes fenômenos num determinado espaço e faz uma determinada síntese de tudo.

Esquema 1: Cartografia no Ensino de Geografia

Como já foi dito anteriormente, estes níveis possuem uma indicação para ser aplicado nas diferentes séries, mas na prática deve-se conferir se a turma está apta a trabalhar determinado nível. Outra observação importante diz respeito à ligação entre os níveis. À medida que estes vão evoluindo, devemos acrescentar o anterior ao atual. Ou seja, se você for trabalhar com o nível da correlação, deverá incluir a localização e análise em suas aulas.

Aplicando esta concepção dos níveis segundo as séries no ensino, sugerimos atividades para alunos de 5a.série, 7asérie e Ensino Médio, utilizando diferentes mapas tendo como tema central, os conceitos da Geografia Política (ver esquema 2).  Nas atividades sugeridas os alunos passam pelos diferentes níveis, nos quais o professor tem sempre como objetivo torná-lo um leitor crítico dos fatos cartográficos, e não apenas, um mero reprodutor ou pintor de mapas.

Esquema 2: Interligação entre a Geografia Política e os mapas

Geografia política

↓  ↑

Estado-nação    Hegemonia

Posição geográfica    Estratégia

Fronteira    Centro    Periferia

Autodefesa    Segurança    Poder

↓  ↑

Território

↓  ↑

Mapa

Atividades propostas

A seguir listaremos as atividades propostas para cada série.

5ª série

O nível da localização e análise pode ser abordado com a utilização de diversos mapas, tais como o do Estado em que o aluno vive (no nosso caso, o Estado do Rio de Janeiro), do Brasil e do mundo.

A atividade pode partir da vivência extraescolar do aluno. Assim sendo, propomos uma aula mais dinâmica, em que o professor deverá motivar a turma através de uma pergunta referente ao lugar onde os alunos passaram suas férias.

O passo seguinte diz respeito à escolha de um dos lugares citados para a localização e observação no mapa pela classe. O aluno irá se deparar com uma série de símbolos cujo significado ele desconhece. Então, poderemos trabalhar com a sua curiosidade e decifrar o significado dos mesmos fazendo uma associação destes com a legenda.

Deste modo, estará sendo cumprida a função de analisar os principais componentes de um mapa como a legenda, os símbolos, a orientação, a escala gráfica, entre outros.

Podemos dar continuidade à atividade aproveitando as experiências vivenciadas pelo aluno na região visitada nas suas férias. Ou seja, pode-se localizar e identificar no mapa rios, estradas, aeroportos e outras feições visualizadas pelos alunos em suas férias.

A Geografia Política está presente na localização e análise dos hemisférios (norte x sul; ocidente x oriente); nos tipos de fronteiras, nos vários níveis nas divisões político-adminstrativas.

7ª série

O nível da correlação é mais frequente na abordagem dos aspectos físicos-naturais, mas também deve ser utilizado no desenvolvimento dos conceitos da Geografia Política. A utilização dos mapas relacionados à população e cultura permitem correlacionar o aumento da circulação, de informação, das línguas, das etnias ao domínio político, e cultural  no mundo.  As variáveis contidas num mapa podem ser correlacionadas no mesmo ou em outro (s) mapa (s).

A atividade deve partir da análise em separado de, a princípio, dois mapas. Cabe ao professor escolher os mapas cujos conteúdos sejam mais próximos, objetivando um primeiro passo a ser dado pelo aluno na correlação. Como exemplo, propomos a utilização dos mapas de taxas de natalidade e o mapa de expectativa de vida.

Professor e aluno fazem a análise de cada mapa, separadamente, com as devidas correspondências com a legenda. Em seguida, os mapas são colocados lado a lado para que seja feita a correlação. Atingindo este nível, o aluno chega a algumas conclusões. Neste caso, a de que, em geral, quanto maior a taxa de natalidade, menor é o tempo de vida das pessoas (podendo discutir as exceções).

Para fixar, na mesma aula, a classe pode correlacionar mais dois mapas, como o da Densidade Populacional  e o original mapa das Luzes (fig.1), produzido pela revista National Geographic. Neste caso, os alunos observarão facilmente a intensidade de luz refletida nas áreas de maior densidade populacional e, principalmente, de concentração industrial. Facilmente, estes mapas de conteúdo sóciopolítico podem ser relacionados também aos aspectos físicos continentais.

Figura 1 - População e Recursos:


Fonte: http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap001127.html

Como estes, o professor deve explorar outros mapas de conteúdo sóciocultural e sóciopolítico, tendo em vista, principalmente, os tempos de globalização. Perfeitamente associáveis aos conceitos de Geografia Política, estes mapas, se bem trabalhados, preparam o aluno para a assimilação desses conceitos e seu maior uso nos anos seguintes, mesmo sem entrar diretamente nos mesmos.

Ensino Médio

O nível da síntese geralmente é adquirido no ensino superior, mas podem ser aplicadas no ensino médio. Os recursos didáticos utilizados no ensino acadêmico, como os cartogramas,  permitem aos alunos analisar, correlacionar e fazer sua própria síntese.

Os cartogramas também são uma representação do espaço e por isto sugerimos atividades que utilizem este recurso didático. Ao contrário dos mapas que são de fácil assimilação, os cartogramas, principalmente os sugeridos, demandam uma observação mais apurada para que sejam amplamente entendidos.

Uma aula ministrada através da utilização de mapas, muitas vezes, basta por si só. É o caso dos cartogramas que traçam uma relação do mundo entre o aspecto dos países como um campo de forças versus o aspecto dos mesmos como um mundo de centros e periferias, o mundo da riqueza, espelhado através dos índices do PIB e do poder de compra, versus o mundo da concentração populacional  (fig.2 e 3), ainda como uma rede hierarquizada.

Uma vez analisados e correlacionados pelo aluno, este chegará a conclusões através das quais estará apto para realizar a síntese, baseados nos conceitos da geografia política.

Figura 2 - A distribuição do PIB no Mundo:

Figura 3 - A distribuiçãoPopulacional

Conclusão

A utilização de mapas no ensino de geografia é de fundamental importância. Devem ser incluídos como recurso didático desde as séries iniciais, através da alfabetização cartográfica.

Através da cartografia, análise de elementos cartográficos e elaboração de mapas, os professores podem ministrar suas aulas de forma mais dinâmica e fazer associação destes produtos a diversos temas da Geografia.

Neste artigo não foi possível incluir todos os mapas utililizados e sugeridos em cada série, mas vale ressaltar que vários mapas atendem ao objetivo proposto, que é a utilização consciente de mapas pelos professores em sala de aula.

Na atualidade, os professores devem utilizar os mapas como um importante recurso didático na sala de aula. Não vivemos mais a era da memorização e da "decoreba", onde os mapas eram utilizados apenas para decorar nomes de rios ou para colorir países. Vivemos numa era onde devemos levar nossos alunos a serem indivíduos críticos e os mapas podem trazer tantas  informações  quanto um texto ou artigo sobre determinado assunto.

Bibliografia

http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap001127.html  Acesso em maio 2003.

SIMIELLI, M.E.R. Cartografia no ensino fundamental e médio. In: CARLOS, Ana. (Org.). a Geografia na sala de aula.São Paulo: Contexto, 1999.

Publicado originalmente em: Boletim de Geografia - Universidade Estadual de Maringá- Ano 19/No. 2/2001