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Filosofia

Bonde da filosofia

Notas por uma pedagogia da opressão

Hilan Bensusan

Professor Adjunto da Universidade de Brasília

C'était à ces condamnés et  aux prévenus qu'était réservée la prison privée. Une prison qui jouxtait le palais [du Président. Il] pouvait nuit et jour la visiter. Il contrôlait lui-même les entrées et sorties de la prison [...] de ses amis et de ses proches. Il vous a fait visiter un certain nombre de cellules. Celle de son vrai neveu Abynn. Celles de son premier compagnon de lutte Yekom et de la maman de ce patriote.

Ahmadou Kourouma (1998)

Tradução

Era para estes condenados e aos acusados que estava reservada a prisão privada. Uma prisão situada ao lado do palácio do presidente onde ele podia visitá-la dia e noite. Ele mesmo controlava as entradas e as saídas da prisão (...) de seus amigos e de seus parentes. Nos fez visitar um certo número de vezes as células. A do seu sobrinho direto, Yekom, e a da mãe deste patriota.

1. Com respeito ao que aprendemos para que seja possível a tolerância à opressão — ao invés de parar tudo e tentar consertar a injustiça que ajudamos a constituir por muitas das nossas formas de vida — podemos formular duas perguntas. Podemos perguntar como aprendemos a nos sensibilizar e reconhecer a opressão e podemos perguntar como aprendemos a nos desensibilizar à opressão e nos tornar mais ou menos indiferentes a ela. A primeira pergunta é uma pergunta que fazemos sobre poucas pessoas — a segunda é a pergunta a ser feita sobre quase todas elas. Interessa-me a segunda pergunta, mas terei algumas coisas a dizer sobre a primeira — em particular, sobre como aprendemos a distinguir situações que são opressivas. Minha questão aqui é acerca de como aprendem a serem indiferentes à opressão as pessoas que oprimem. Algumas suposições básicas vão orientar minha tentativa de lidar com a questão:

a) As opressões existem, ou seja, não são apenas projeções de quem quer vitimizar-se, culpar outras pessoas etc. Frequentemente é difícil detectar atitudes opressivas em nós e em outras pessoas e há casos em que dificilmente conseguimos estabelecer quem está oprimindo quem. E, no entanto, há, pelo menos em alguns casos em que a opressão (de gênero, de classe, de raça) existe. A opressão é parte de um sistema de vida que envolve a desigual distribuição de autoestima, as estruturas sociais e emocionais que permitem a continuidade da distribuição de privilégios, as imagens agenciadas de como devemos viver etc.

b) Nenhuma opressão é compulsória, ou seja, as pessoas são livres sempre para deixar de oprimir. É claro que muitas vezes elas estão severamente condicionadas para se comportar de uma maneira opressiva (pela masculinidade, pelo orgulho de classe, pelo sentimento de supremacia) e dificilmente conseguem enxergar a opressão como tal; ficam insensíveis a ela — e esta é a questão central aqui — e entendem que não podem extinguir suas atitudes opressivas. No entanto, a suposição é que elas são livres (alguém pode mostrar que elas podem fazer diferente) para agir de outro modo. Não existem opressões naturais.

A pedagogia do opressor é, portanto, a pedagogia de uma desensibilização. Parece que certos pontos de vista precisam tornar-se invisíveis para que a opressão seja possível.

A ideia de que a opressão seja ensinada decorre da ideia de que posições subservientes não são naturais e nem decorrência de uma imposição sobre sujeitos (naturalmente) constituídos antes da relação de opressão. As relações de opressão constituem até o âmago dos indivíduos envolvidos nelas — toda subjetividade é agenciada na desigualdade de privilégios. E a invisibilidade delas (ou a suposição de que elas sejam assim mesmo ou coisas da vida ou que haja boas razões para que elas se mantenham etc.) não é aprendida como um apêndice ao processo em que aprendemos quem somos. O aprendizado da tolerância à opressão é parte da teia onde aprendemos quem somos, o que devemos fazer, o que nos é permitido esperar. É um pacote só. Um pacote sem capítulos — não podemos nos apoiar em um capítulo anterior para encontrarmos um ponto de observação de onde aprendemos a ser capazes de oprimir. Não se trata de um capítulo que podemos remover de nossa aprendizagem deixando todo o resto das crenças e desejos que adquirimos intactos. E, ainda assim, acho que podemos nos perguntar como se faz a insensibilidade à opressão no meio da nossa aquisição de uma maneira de viver.

Trata-se, em certo sentido, de um projeto exatamente reverso daquele de Paulo Freire — ele queria que a pedagogia do oprimido fizesse "da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação" (1970:32). Tratava-se de uma pedagogia da libertação a ser aprendida pelas pessoas oprimidas — neste meu projeto, interessa-me a pedagogia da opressão aprendida pelas pessoas opressoras. Freire fala que os oprimidos aderem ao opressor — e, de fato, aprender a permitir a opressão requer a adesão aos desejos de quem oprime. Aqui me interessa a adesão aos desejos de quem oprime por parte de quem oprime: a adesão do opressor à opressão. A ideia é entender como a opressão é aprendida: como construir uma subjetividade que depende da invisibilidade das relações de opressão — não se trata de encontrar na cabeça oprimida os elementos que enxergam a opressão porque algum conhecimento da opressão precisa estar presente (cf. Pena Pereira & Bensusan, 2002), e então libertá-la, mas entender como a cabeça opressora é ensinada a preservar a opressão. A pedagogia dessa invisibilidade interessada é a pedagogia de uma compartimentação, de uma capacidade de visão seletiva — aprender a não ver aquilo que precisa não ser visto.

Nota

Hegel (1807: §190-196) apresenta algumas observações sobre como é a adesão de um escravo a um senhor, como o escravo hospeda o desejo do senhor e assim engaja sua vida mental em um processo que não lhe pertence. Hegel entende que a vida mental do escravo é incompleta, é razão privada, como um pensamento contratado e que não segue seus próprios desígnios, mas tem como alvo a satisfação de alguma coisa que não postulou. A vida mental do escravo não determina seus fins e assim é incompleta — trata-se, em certo sentido, para usar uma imagem cara a Hegel (1807: §42-47), de algo análogo a uma demonstração de uma proposição que é desligada da proposição ela mesma, como se a proposição não precisasse da sua demonstração para ser entendida.  A demonstração fica como que a serviço da alguma coisa externa a ela — o escravo fica alheio aos fins que são impostos pelo senhor; o escravo adere aos fins do senhor. Freire faz uso da imagem de Hegel para mostrar como o escravo não tem uma vida mental completa: a hospedagem do senhor faz com que ele não tenha fins próprios. Meu projeto de observar a pedagogia do opressor é o reverso da relação entre senhor e escravo: a vida mental do senhor, diz Hegel, também é incompleta: ele não tem meios e apenas fins. O opressor, para ser opressor, deve aderir ao oprimido no seguinte sentido: deve depender do oprimido para que seu modo de vida seja possível. Esta dependência, ou antes a invisibilidade desta dependência, eu acredito, tem que ser ensinada. Hegel, e Freire, entendem que uma vida mental — uma consciência — completa emerge a partir da consciência do escravo. Porém, a consciência incompleta depende da adesão do senhor.

A invisibilidade interessada de que falo é a invisibilidade do usurário no Sermão contra os usurários de São Gregório de Nissa que Freire (1970: 31, n.1) cita: aquele que consola um pobre e faz cem. Ou a invisibilidade encarnada na narradora de Good Climate, Friendly Inhabitants, de Nadine Gordimer (1983: 275-288) que, sendo uma branca da África do Sul nos tempos do Apartheid, descreve como foi salva por um negro sem perceber que foi o negro que a salvou. Ou ainda a invisibilidade expressa na narração de Manon Gaudet em Property, de Valerie Martin (2003). Manon é encurralada pela opressão do marido sobre ela e sua escrava Sarah no sul dos Estados Unidos no fim do século XIX. O marido morre, a escrava foge. Ela hesita pouco e manda perseguir a escrava onde ela estiver — ela a captura e a recoloca sob o seu jugo, livre da opressão do marido, ela se sente à vontade para oprimir a escrava. O livro termina quando ela pergunta para a escrava sobre a vida no Norte, para onde ela fugiu:

Her eyes wandered away from me, to the plate on the table, the cup next to my hand. A strange inward-looking smile, as at a recollection, compressed her lips. 'When you gets to the North' she said, 'they invites you to the dining room, and they asks you to sit at the table. Then they offers you a cup of tea, and they asks, "Does you want cream and sugar?'".
I was dumbfolded. It was more than I had ever heard her say. My uncle was right, I thought. She had changed; she'd gone mad. I took a swallow of my coffee. 'And this appealed to you?' I asked.
'Yes,' she said, raising her eyes very coolly to mine. 'It appeal to me.'
I considered this image of Sarah. She was dressed in borrowed clothes, sitting stiffly at a bare wooden table while a colorless Yankee woman, her thin hair pulled into a tight bun, served her tea in a china cup. The righteous husband fetched a cushion to make their guest more comfortable. It struck me as perfecthy ridiculous. What on earth did they think they were doing?

Tradução

Seus olhos vagaram para longe de mim, para o prato na mesa, para a xícara próxima à minha mão. Um estranho sorriso introspectivo, como em uma lembrança, apertou-lhe os lábios. "Quando você vai para o Norte" ela disse, "eles a convidam para sentar a mesa. Então oferecem uma xícara de chá e perguntam 'Você quer creme e açúcar?'".

Estava pasma. Isso era mais do que jamais a ouvira dizer. Meu tio estava certo, pensei. Ela mudara; ela enlouquecera. Tomei uma golada de meu café. "E isso lhe chamou a atenção?", perguntei.

"Sim", ela disse, elevando seus olhos muito calmamente em direção dos meus. "Chamou minha atenção".

Refleti sobre essa imagem de Sarah. Ela vestia-se com roupas emprestadas, sentando-se ereta em uma mesa de madeira descoberta enquanto uma ianque sem cor, com seu cabelo fino enrolado em um coque apertado, servia-lhe chá em uma xícara de porcelana. O marido correto puxou uma almofada para deixar a convidada deles mais confortável. Chocou-me por ser realmente ridículo. Pelo amor de Deus, o que eles pensavam estar fazendo?

Manon não entende como é possível que tratem Sarah como ela espera ser tratada. Ela está completamente insensível, incapaz de ser solidária com a escrava. É claro que esta indiferença à opressão alheia é um requisito para que ela mantenha escravas e, em particular, que gaste seu dinheiro mandando prender a escrava fugitiva. Mas como esta insensibilidade  é aprendida?

2. Quero concentrar em algumas opressões sistemáticas de nossa sociedade e relacionadas com classe, gênero, raça, escolha sexual, idade e capacidades físicas e mentais. De uma maneira geral, nestes casos as pessoas que estão em posição privilegiada e contribuem para a legitimação da relação de opressão não podem se dar conta de que parte do que a elas é permitido se deve ao que a outros é negado. Trata-se do modelo, de Freire, de "ser mais" em detrimento de outras pessoas. Uma vez que elas não podem se dar conta desta mais-valia que elas extraem — pelo menos não podem se dar conta desta mais-valia em todas as situações de suas vidas -- a opressão fica, para elas, menos visível. Pode parecer que um modelo da mais-valia se aplica apenas à opressão de classe, mas penso que ela pode ser mais geral. Os homens se engajam em relações patriarcais tipicamente esperando serviços emocionais que eles não estão dispostos a oferecer e que garantam algum elemento de sua ideia de masculinidade. Andrea Dworkin (1981) classicamente descreve como a pornografia tradicional aparece como uma educação dos homens para celebrar com o sexo os elementos da masculinidade que dependem da diminuição das mulheres. A monosexualidade também tipicamente precisa das imagens para determinar a forma do objeto que pode ser desejado (cf. Bensusan 2004). As pessoas brancas precisam das pessoas negras para que lhes sobre mais do espaço que elas em geral procuram ocupar — é preciso que haja gente que fique nos outros espaços, os espaços que elas não gostariam de ocupar. A normalidade requer a anormalidade para ser reforçada: "sou normal e, portanto, mereço ser aceita — não me trate como se eu fosse do outro jeito...". Estas estruturas gerais da opressão aparecem de muitas diferentes formas e todas estas formas apresentam fissuras.

Desconfio que um dos modos como aprendemos a oprimir é aprendendo nos sentir confortáveis com as noções de mérito e culpa. Aprendemos que podemos alcançar uma posição em que somos melhores que as outras pessoas, uma posição em que merecemos mais. Aprendemos isto no nosso esforço por sermos aceitas: aprendemos que a estima das pessoas não é abundante, é escassa e temos que fazer alguma coisa para merecer a atenção e o respeito delas. Vemos que as afeições das pessoas — expressas diretamente ou codificadas em forma do dinheiro que recebem, da admiração que comandam e, em geral, dos privilégios que gozam — são desigualmente recebidas e então aprendemos a querer estar na posição de quem recebe mais. As posições de opressores são estimuladas e tratadas como as posições ocupadas por quem merece mais: celebramos os ricos e famosos, os Grandes Homens Brancos Mortos, os vencedores. Aprendemos logo também a não nos respeitar se não somos respeitáveis — o mérito e a culpa colonizam vastos territórios da nossa subjetividade. Penso que nosso aprendizado das ideias de culpa e mérito se misturam com nossa insensibilidade a estruturas já moldadas de opressão — estas estruturas, estando fixas, são o pano de fundo de nosso possível mérito. Nossa autoestima fica dependendo de estarmos nos papéis que comandam o respeito e a admiração de pessoas que desconhecemos e das pessoas que nos cercam — estes papéis orientam e agenciam a vida mental oprimida e opressora. A pedagogia da opressão é a pedagogia de anestesiar o sentido de empatia em função de objetivos individuais que precisam que as coisas se mantenham como estão para poderem ser realizados. Trata-se de um agenciamento de nossa autoestima que nos ensina que estarmos próximos dos papéis reguladores da sociedade é mais importante que qualquer empatia. O aprendizado emocional de um chefe é o aprendizado do desejo de estar em uma posição que comanda respeito para que sejamos respeitáveis: conquistemos um lugar ao sol, e então poderemos nos dar o direito de nos amar.

Lakoff vem recentemente estudando a psicologia da mentalidade de direita e de esquerda. Ele associa a mentalidade de direita a uma figura paterna forte e disciplinadora. A ideia é que um forte senso de disciplina orienta escolhas de pessoas que se orientam politicamente à direita na maioria das escolhas que fazem em suas vidas. A intenção de Lakoff é diferente da minha. Há convergências.

Minha conjectura é que a mentalidade opressora é formada e mantida por meio do cultivo do sofrimento. A infância de um chefe é uma infância de disciplina, de escassez e condicionalidade de relações emocionais, de constantes punições e, frequentemente, de abusos de alguma espécie. Alice Miller (1987) fortemente sugere que as posições de mando são muitas vezes ocupadas por pessoas que tiveram infâncias sofridas e abusivas. Penso que a pedagogia do opressor é uma pedagogia que envolve um senso de disciplina acima de qualquer outro valor aprendido e reforçado ao longo da vida. Na pedagogia do opressor, cabe tornar a opressão invisível e, se isto não for possível, pelo menos indigna de empatia. Há muitas maneiras de promover a invisibilidade da opressão. Quero chamar a atenção para o processo de desensitização que se liga à ideia, confusamente divulgada, de que as pessoas devem suportar muita coisa, que ninguém merece nada a não ser que faça por merecer. A manobra é aquela de inculcar pensamentos assim: Se eu sou capaz de sofrer muito, eu acho que as pessoas podem sofrer tanto quanto eu. Trata-se de estender a tolerância ao sofrimento de um lado, e garantir que só teremos empatia  com quem sofre mais do que o que podemos suportar. A educação heroica por vezes parece exercer o papel de glorificar o sofrimento e de ilustrar que as pessoas podem sofrer muito (antes de alcançarem a glória). A mensagem parece ser a seguinte: ninguém tem a posição que tem por acaso — a dissimulação das enormes quantidades de contingência associadas aos esquemas de opressão é essencial para que a pedagogia funcione — trabalha-se e pena-se muito por ela, outras pessoas que sofrem deveriam canalizar seu sofrimento para alguma coisa que as faça merecedoras (da glória) de uma outra posição. A dose pedagógica de sofrimento na medida em que a empatia persiste e um passo possível é transformar a empatia em culpa e torná-la ela mesma fonte de sofrimento. A aprendizagem da tolerância ao sofrimento é a aprendizagem de que certas doses de sofrimento são encorajadoras, necessárias e, com isto, normais. Uma vez desfeita a sensibilidade ao sofrimento (nosso e alheio), fica mais fácil conviver com esquemas opressivos e — se para alcançarmos nossos objetivos individuais que requerem esforço e mérito precisamos que eles permaneçam como estão — participar deles.

Nota

Talvez a literatura e o cinema épico e a ideia de glória e de final feliz tenha um papel de destaque na pedagogia da opressão. Em uma conferência intitulada "Felicidade ou Glória: as tramas que orientam a vida e a vida além das tramas" que li no Encontro Nacional de Filosofia e Ficção, em 2002, em Ouro Preto, escrevo que  "buscar a glória, o arrebatamento das intensidades ou o final feliz, contudo, nem sempre nos ajuda a construir uma vida feliz - sobretudo enquanto o final feliz não chega, depois que ele já passou ou se, pode acontecer, ele passar desapercebido".   A espera do final feliz ensina o merecimento e a tolerância ao sofrimento com o qual ele deve ser pago. Não estou dizendo aqui que esta literatura tem um papel na educação das massas para a submissão: elas têm. Penso que ela também tem um papel na pedagogia do opressor: ensinar que é glorioso sofrer.

Em outras palavras, a culpa é muitas vezes uma instância do agenciamento do mérito. Fica parecendo que não merecemos nada, não podemos estar confortáveis apenas por estarmos vivos, mas que muitas outras condições devem ser satisfeitas antes que alguém mereça respirar bem. A promoção da culpa é também o agenciamento da desconfiança: as pessoas pensam que a opressão é confortável e se satisfazem com elas a não ser que se sintam culpadas -- e quando se sentem culpadas terminarão por agir para evitar seu próprio sofrimento. Apenas o sofrimento, parece, faria as pessoas agirem. A política da denúncia é a política que assume que as subjetividades são tais que só se movem por meio de sofrimento ou glória (ou ambos). A culpa contribui para a pedagogia do opressor porque diminui a sensibilidade ao sofrimento, promove a atenção no não-merecimento de alguma coisa (ao invés de focalizar que alguém não tem o que deveria ter para não sofrer) e nos faz pensar que uma dose de sofrimento (pela culpa) é necessária para que nos engajemos em uma política de resistência -- a desconfiança: não fazemos nada sem que sejamos levados por um porrete de condão. E, no entanto, muitas vezes convivemos com a culpa porque já nos acostumamos ao sofrimento. Seguimos com a culpa convivendo com o discurso do mérito e, não raramente, tentamos discriminar o que é mérito nosso (pago com sofrimento) e o que é injusto e nos provoca culpa. Frequentemente, nos sentimos culpados daquilo que é condição de possibilidade de nossos méritos -- culpa dos privilégios que permitiram que tenhamos aquilo que achamos que merecemos.

A pedagogia do opressor é também a pedagogia da desconfiança dos outros e de nós mesmos. Uma pedagogia hobbesiana: apenas coagidas as pessoas deixarão de buscar apenas a satisfação de um conjunto magro de impulsos pessoais -- se as pessoas oprimidas pudessem, elas fariam a mesma coisa que as pessoas opressoras fazem, a opressão só pode ser combatida com proibições. O que equivale a fazer parecer que há uma tendência natural à opressão. "Ponha-a sobre tua cabeça antes que um aventureiro o faça". Assim, não podemos confiar em ninguém e, portanto, todas as pessoas devem ser tratadas com rédeas pouco longas. Fica difícil empatizar com quem pode usurpar - melhor encontrar uma forma de tortura preventiva como a prisão preventiva do ditador africano de Kourouma. A pedagogia do opressor é também o aprendizado da intimidação. O aprendizado para se preparar para a guerra -- e quem vai para a guerra deve estar pronta para sofrer. E vencer, ser um vencedor na vida e ganhar as batatas, é um desejo que deve sufocar a empatia; salvo a empatia regulamentada, aquela que pode assumir o lustre da compaixão. Penso que aprendemos a olhar algumas pessoas oprimidas com olhos de distância e de repulsa -- são derrotadas -- e estes olhos enxotam empatia. Mesmo o desejo masculino pelas mulheres é muitas vezes acompanhado e misturado com o tempero misógino. O agenciamento opressor é alcançado em grande medida pelo medo da aparência de fraqueza, dos sinais de derrota. Um aprendizado da falta de confiança. Este medo da derrota motiva nossas doses redentoras de sacrifício e nos desconecta com a repulsa ao sofrimento.

A contrapedagogia da opressão é queimar o pódio.

Referências:

Bensusan, H. (2004) Observações sobre a libido colonizada; tentando pensar ao largo do patriarcado. Revista de Estudos Feministas, 12, 1.

Dworkin, A. (1981) Pornography: Men Possessing Women. Women Press. R.U.

Freire, P. (1970) Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. Brasil.

Gordimer, N. (1983) Selected Stories. Penguin. R.U.

Hegel, G. W. F. (1807) Fenomenologia do Espírito; Vozes, Brasil.

Kourouma, A. (1998) En attendant le vote des bêtes sauvages. Seuil. França.

Martin, V. (2003) Property. Abacus. RU.

Miller, A. For Your Own Good, the roots of violence in chiledrearing, Virago, 1987.

Pena Pereira, O. & Bensusan, H. (2002) What virtue theory has to say about oppression? Proceedings of the 2002 Cuban-American Conference for Philosophers and Social Scientists. Cuba.

Tradução - trecho de MARTIN (2003) Property