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Filosofia

A filosofia na boca do povo

Mariana Cruz

Esse hermetismo de que tanto acusam a filosofia – pobre dela – por vezes é puro preconceito ou falta de intimidade com essa disciplina cujos textos, na maioria dos casos, exigem mais de duas (três, quatro, cinco, infindáveis) leituras para começar a entendê-los. Mas, se existe mesmo aquela história de inconsciente coletivo de que Jung fala, isso pode explicar o fato de os complexos pensamentos filosóficos caírem de uma hora para outra na boca do povo. Ou são os filósofos que os captam do povo, transformando-os em parte de suas teorias? Como sempre, é a história do ovo e da galinha invadindo o campo filosófico.

É mais ou menos como comparar o médico especialista, que manda seu paciente ingerir uma droga à base de tais e tais elementos, com a curandeira que dá uma erva qualquer para o sujeito se tratar. O primeiro está amparado pelos rígidos e, supostamente, inquebrantáveis pilares científicos; a segunda, observadora atenta da natureza e guiada tão-somente pela prática. Por vezes esses dois saberes tão distintos acabam se encontrando: ao investigar a base das pesadas drogas medicinais, estão lá como substâncias primárias as ervas milagrosas da simplória senhora.

Do mesmo modo, o mais refinado pensamento filosófico pode ser encontrado, mutatis mutandis, no discurso de um humilde homem que jamais tenha aberto um único livro de filosofia na vida. É como se o espírito do mundo (Weltgeist) hegeliano soprasse no ouvido dos homens tais pensamentos e a humanidade desse mais um passo.

Assim, guardadas as devidas proporções, que jogue a primeira pedra aquele que, ao ouvir o aforismo do filósofo Friedrich Nietzsche “o que não me mata, torna-me mais forte” (em Crepúsculo dos Ídolos), não se lembre do conhecido ditado popular “o que não mata engorda”. Certamente este é um pouco menos profundo e inegavelmente mais bem-humorado. Ambos os ditos servem de consolação para aquela situação indesejável em que alguém se meteu e acha que é o fim do mundo.

Ironicamente, é Nietzsche, o filosofo que “matou Deus” e que não tem pena dos fracos e oprimidos, só desprezo, justamente ele que, entre essas frases, demonstra mais otimismo. Ele pelo menos dá um consolo: a adversidade pela qual uma pessoa passou serve como fonte de fortalecimento. O senso comum debocha: ou você sai mais gordo ou cheio de escoriações – típicas de quem se esborrachou.

Outro pensamento que transita entre a mais alta filosofia acadêmica e a mais prosaica sabedoria popular tem como progenitor o filósofo que alcançou as mais longínquas reflexões sem nunca ter saído de sua cidadezinha: Emmanuel Kant.

Na Crítica da razão prática, o filósofo de Könninsberg escreve sobre o imperativo categórico: "age de tal forma que a norma de tua conduta possa ser usada como lei universal". Ao enxugar e simplificar ao máximo esta máxima, a fim de aplicá-la no dia-a-dia, basta se guiar pela batida frase: “não faças como os outros o que não queres que façam contigo”. É uma questão de praticidade: ao agir desse modo, você já estará agindo de acordo com o imperativo categórico, que é, obviamente, algo muito mais complexo do que isso; entretanto, para os simples mortais que não estão nem aí para a complexidade do pensamento kantiano, é o que basta.

O criador do cálculo infinitesimal, Gottfried Leibniz, afirma que este mundo foi eleito por Deus para existir, entre todos os outros mundos possíveis, pelo fato de ser o melhor entre eles. Apesar de todos os males existentes, este é o mais perfeito dos mundos, mesmo que nós, humanos, não enxerguemos isso (nossa visão dos acontecimentos é reduzida, mas a Dele, não), afinal de contas: “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Andando um pouco mais para trás, chegamos ao fim do período medieval, quando Doutor Angélico, ou São Tomás de Aquino, falou sobre o Princípio do mal menor, que na sabedoria popular do século XXI, é traduzida pelo parecidíssimo “dos males, o menor” e suas variantes – “antes tarde do que nunca” e “antes só que mal acompanhado”, entre outros exemplos específicos, aplicados a várias situações.

Por fim, chegando aos gregos, temos na Ética a Nicômaco, de Aristóteles, uma fonte dos ditados que defendem a justa medida como ideal de felicidade. Nesse livro, o discípulo de Platão defende que a virtude está na escolha de um comportamento equilibrado, que fique entre duas formas de comportamentos viciantes; isso pode ser traduzido pelo nosso “nem oito, nem oitenta” ou “nem tanto ao céu, nem tanto à terra”.

Quando se comporta de forma desmedida, tanto para o excesso como para a falta, o homem se afasta da virtude. Por exemplo: a coragem é o meio-termo entre a covardia e a postura temerária (que nada teme); o amor-próprio é a justa medida entre a baixa autoestima e o egocentrismo.

É possível transpor essa sabedoria para os dias de hoje, utilizando-a em situações específicas: diante da falta de paciência de alguém, você está sendo aristotélico ao afirmar que “apressado come cru”; para aquela pessoa ambiciosa que só pensa em cifras, vale o aviso: “quem tudo quer nada tem”.

A lista de pensamentos filosóficos presentes em ditos populares não pára por aí. Não é difícil encontrar uma frase do povo que critique o mundo das aparências, assim como Platão o faz; uma expressão que se inspire na sentença socrática “só sei que nada sei”; um aforismo que remeta ao “penso, logo existo” cartesiano ou à constatação de Hobbes de que “o homem é o lobo do homem”; ou uma analogia popular que se aproxime do sentido dos “afetos” espinosistas.

A inalcançável inteligência de tais homens não permite que saibamos qual seria sua reação diante destas aproximações espúrias. Será que eles estariam se revirando na tumba, tamanha a heresia proposta neste texto? Ou estariam orgulhosos por seus pensamentos terem virado máximas universais?

Talvez o melhor mesmo fosse nem ter escrito este texto profanador dos mais sublimes pensamentos da humanidade, seguindo o que propôs o genial Wittgenstein ao final de seu Tractadus Logico-Philosophicus: “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”; afinal, “em boca fechada, não entra mosquito”.

Publicado em 11 de dezembro de 2007